terça-feira, 10 de novembro de 2009

Laços de sangue


G. Klimt. Mãe e filho.


Tinham sido assim desde a infância. Lembrava a grande praça sombreada de árvores floridas, algumas de copas baixas, onde um velho jasmineiro cobria o caramanchão cercado de treliças sob o qual eles aproveitavam a hora da sesta, no verão, para comentar os fatos da escola ou fazer projetos e programas. À hora do recreio, na escola, Maurício pedia para escolher a merenda. Dela também foi a escolha das flores que ele queria levar para a primeira namorada, as frases de estímulo, a orientação para a melhor roupa. Perguntava a ela até qual o melhor corte para o cabelo.

Lembrava-se da alegria nos olhos da mãe, vendo-os sair juntos para a aula, gabando-se da amizade dos dois: “Nunca brigaram”. Ele fora sempre assim, fraco, às vezes indeciso, de impulsos que não sabia governar e que o levavam como ondas. Não se lembrava de outro namorado de Ana Elisa senão Armando, mas desde o começo Maurício achou que não daria certo - e torceu para que não desse.

Armando parecia mandar nela, embora o fizesse com um olhar aparvalhado que ele não entendia bem. Algumas vezes a viu sorrir para ele de um modo diferente do seu rosto de irmã, e não parecia gostar que Maurício a interrompesse quando estava com ele no portão à noite. Ficavam balançando as mãos dadas, falando interminavelmente, ilhando-se nos olhos um do outro. A irmã vinha para dentro com uma cara engraçada, como se tivesse aprontado alguma travessura. O significado oculto dos encontros, as palavras que ele não podia ouvir, e acima de tudo era intolerável ter perdido a companhia de Ana Elisa, estar perdendo a atenção dela, deixar de ser o único interesse dela. Olhava-a de longe, às vezes prendendo o choro, e lhe doía ver como era bonita, alta, um corpo que se tornara suavemente moldado em proporções tão perfeitas. Acompanhava os movimentos espontâneos e leves, a maneira de levar às vezes a mão aos cabelos, que era comprido naquele tempo. Ele, que antes se perdia de si para se encontrar na irmã. Armando era na certa um intruso, um rapaz louro com espinhas até na testa, pelo qual Ana Elisa tinha algumas reações incompreensíveis, como se enfeitar toda na frente do espelho, esquecer do cinema combinado com o irmão na véspera ou trancar-se no quarto sem responder aos chamados de ninguém.

Como ele previra, não durou muito – embora na sua ótica tivesse sido uma eternidade: foram dez meses em que ele viveu no limbo, e ao fim dos quais foi difícil – por algum tempo impossível – recuperar a intimidade quase perdida. Ana Elisa se esquivava. Perdera o gosto pelas brincadeiras na praça. Terminara a escola, e no ano seguinte estaria no liceu. Não seguiriam juntos pisando sementes secas de fícus pela rua estreita, nem passariam no depósito de doces, na volta para casa.

(Trecho de Ensaio sobre um casamento)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Homo sapiens na escada

Foto Liz Kasper.

Ainda está para nascer o malandro que vai me passar pra trás. A baiana deles tem pouca roda pra minha. Depois, saca só, cabeça taqui, erguida e clara. Não sonho não, que isso é coisa de otário. Relaxo no chope, de vez em quando, faturo minhas mulheres, faço meus fins de semana no mato, caço, pesco, me divirto, que a vida é curta e não sou candidato a enfarte. Família não me torra, eu não deixo. Mulher botou as manguinhas de fora, duro nela. Dou tudo que posso, respeito, me protejo e me faço respeitar. Tenho o maior cuidado com o que faço, sou macaco velho e sabido, não deixo rabo. Malabarismo é comigo mesmo, não me aperto, e se precisar uso unhas e dentes, tá tudo afiado.

Negócio de sogra, tia de mulher querendo ditar ordens não vigora: já mudei uma vez pra endereço ignorado, de um dia pro outro, que as megeras tavam querendo me botar rédea e liberdade é perfume raro, não se pode esquecer destampado no sol. Já larguei um empreguinho joia, vida mansa, unicamente porque era arranjo de sogro e me deixava cerceado, à mercê do coroa. Ninguém tem nada com meu salário, minha função, meus horários. Mesmo porque a maior curtição é castigar uma de desocupado na hora que tá todo mundo dando duro, pegar o carro e sair pelaí olhando as paisagens, de preferência em boa companhia. Assim mesmo de vez em quando é preciso desviar, que figuras indesejáveis pintam nas horas e lugares mais inesperados.

Mas eu me garanto. Deixei de fumar, que cigarro dá câncer e minha carcaça é uma só, de alta estimação. Mulher não falta, é preciso selecionar, passar na peneira. Eu prefiro as escoladas, que já entendem do riscado e não dão trabalho – e assim mesmo olho vivo, mulher às vezes fica perigosa. Se você deixa ela se apaixonar é o fim, tá arriscado a se envolver com exigências, histerias, ciúmes, e pode ir tudo pro brejo. Tem que tratar a coisa olimpicamente, que ao menor sinal de perigo pode-se escapar ainda ileso. Reduzir sempre os riscos ao mínimo, deixar a cabeça presidir todas as transas. E estar sempre alerta, mulher fala demais, tem miolo de galinha.

Boa era a Rita Fartura, paradigma da mulher sacana, boca de siri, putíssima de cama e ainda de quebra uma carroceria de deixar Sargentelli aguando. Podia se contar tudo a ela, fazer qualquer negócio, a mulata era um túmulo de discrição. Mudou pra São Paulo com um velho cheio da nota, ela é que tá certa. O dinheiro é a mola do mundo. Tá tudo muito bom, mas o dinheiro fala sempre mais alto. A gente dá duro, quebra pedra, organiza a vida, se guarda, perde bons momentos, mantém um padrão de vida aparentemente impecável (sabe Deus a merda que ta comendo), boa postura, roupa decente, relacionamento selecionado, casamento de promoção, se não for possível o golpe do baú. Tudo em função da prioridade máxima, que é o status, o caminho mais fácil para o vil metal.

Sim, porque ninguém quer dar aos filhos aquela infanciazinha inexpressiva de suburbano que eu tive. Coitado do velho, filho de imigrante, não podia mesmo conseguir grande coisa: ficou naquela de se satisfazer com a comida caseira da velha, televisão em cores, poltrona macia, a sueca aos domingos de tarde. Atravessou a fase desgraçada dos filhos pequenos, dinheirinho esticado que só couro de tamborim, sapato durando anos de meia-sola, a velha cerzindo meia. Nunca me esqueço, a casa apertadinha, os colchões cheirando a xixi. Mas isso é passado. Pra frente é que se anda, vence quem age, perde quem reage.

Infância dura. Teve momentos marcantes. Como a matança dos coelhos (eu era até bem pequeno, nem sabia que tava começando a aprender meu papel neste mundo cão). O pessoal era meio ignorante, achava que menino pode ver de tudo. Coelho é uma graça, inda mais branquinho e cor-de-rosa, de nariz irrequieto, bicho fofinho paca. Mas a cambada quer saber disso não, menino tem que aprender a ser homem, nada desse negócio de peninha, de se apegar, onde já se viu, macho amolecendo por causa de animal. E tome paulada, cada uma ia direto lá dentro. Teve também o primeiro porre, depois da festa de Natal. Eu tinha uns quatro anos, por aí. Tava todo mundo dormindo, depois da comilança da véspera. Ficou aquele barril de vinho com um resto, danado de gostoso, o garoto aqui não vacilou: abri a torneira e me fiz. Sempre gostei, até hoje birito firme lá no sítio. Foi um porre homérico, orgulho da estirpe, nunca vou esquecer da ressaca.

Bem verdade que teve bons momentos, roubo de manga no vizinho, o tempo vago pra não fazer nada – me amarro em olhar pro tempo, me dá a sensação de estar passando a perna no resto do mundo, de ser dono e senhor, enquanto os outros se esfolam e se acabam no trabalho. Eu de cima de minha colina. A gente passa pela vida correndo feito louco, até esquece de parar pra pensar. Daí que se deixa escapar quase tudo que se podia ter aprendido. Bom é colar no tempo, correr na direção que ele vai, que é pra de vez em quando pegar uma carona, que nem eu fazia no reboque do bonde, quando era rapazola. Nada de ir contra, que o tempo é vento, é correnteza. Se você for um cara ligado, lá pelo sétimo chope você já escuta o silêncio do tempo. Aí você tá muito na sua, que só na barriga da tua mãe, no cinema escurinho, pra ver os filmes que quiser, arrumar os pensamentos, as ideias, fazer seus planos.

Ver a vida de fora e de cima. Isso é que eu chamo ser dono do seu nariz, saber usar o tempo. Não é feito esses babacas que correm como potro no grande prêmio e vão acabar loucos de analista, enfartados e vazios quando se aposentam. Vazio fica quem já era. Eu sempre fui um aposentado que trabalha.

É por isso que esse meu emprego me agrada. Apesar dos chefes que sacaneiam, das cúpulas caducas, dos crocodilos que me cercam. Sou duro na queda, e os sapos que me fizerem engolir estão se multiplicando, à espera do momento de empeçonhar seus próprios criadores. Não que eu seja vingativo. Não tenho é vocação pra panaca. Fico na minha sala, sozinho. Lá dentro mando e dou a última palavra. Que aceitem ou não, problema deles. Mas minhas gavetas têm chave, quem entra me pede licença e eu faço meus próprios horários. Subo e desço minhas escadas quando bem entendo. E sei que lá dentro estou a salvo.

domingo, 4 de outubro de 2009

A menina se debruça sobre o mundo



Estava acima da rua, na janela do sobrado onde nascera, e a rua eram as pessoas diferentes, o mundo de que sua mãe às vezes falava com olhos atemorizados, enquanto passava as roupas da família. A rua era o lado interdito da realidade fora do sobrado. A realidade que era dela começava na porta alta de tranca de ferro e ia até o limite da área quadrada dos varais paralelos, de onde ela podia avistar o imenso pomar do vizinho, o galinheiro, o cão policial e as casas de vila na rua do outro quarteirão, algumas crianças brincando ao sol. Ensaiava às vezes pedir que a deixassem juntar-se àquelas crianças, mas o pai não as apreciava: faziam muito barulho, coisa de gente sem educação. O som de seus gritos e risos chegava até a área de serviço, às vezes até a cozinha onde ela olhava a mãe catando grãos que pareciam nunca terminar, com dedos lentos e nodosos. Juntava as mãos abaixo dos joelhos, puxando a bainha da saia do vestidinho feito pela mãe, e apoiava o queixo na beira da madeira irregular da mesa, absorta, maravilhada ante os furinhos dos grãos de feijão-manteiga, perseguindo com o sopro algum caruncho mínimo de costas redondas. Às vezes lhe parecia que a mãe estendia a ela alguma coisa da crispação contida com que respondia ao pai, mas logo parecia arrependida e lhe sorria em sinal de compreensão.

Longos suspiros de tédio lhe escapavam depois do almoço, sentada no sofá da sala à espera de dona Dina. As janelas da casa lhe pareciam desarmoniosamente compridas e altas, o teto era desanimador. As cortinas de sua casa vinham de longe, de cima de varões de madeira escura, e a luz que sua trama grossa deixava passar era acinzentada, mesmo nos dias de sol. Mais tarde, quando a professora chegasse e fossem trocados os cumprimentos de praxe, ela iria retirando da pasta azul-escura um caderno espesso de capa dura, um estojo de madeira que cheirava forte e um ou dois livros meticulosamente encapados, e daria início à aula de português, sempre a primeira. Depois viriam a matemática, a geografia, história do Brasil, história geral e catecismo.

No intervalo, lá pelas três e meia, a mãe traria uma bandeja esmaltada de vermelho-vinho, decorada com o perfil de uma mulher gordinha e algumas bonitas flores que pareciam jacintos amarelos; sobre a bandeja haveria um bule de chá, uma pequena leiteira e três xícaras de porcelana remanescentes do aparelho que fora da bisavó, e do qual se haviam perdido o açucareiro e a manteigueira, como a mãe às vezes lembrava, sorrindo tristemente. Os talheres eram de alpaca sempre bem areada. Custava a sustentar o garfo e a colher maiores, quando tinha oito anos e o pai decidiu que devia comer como uma pessoa adulta, já que podia dormir sem grades na cama. A mãe servia sempre um bolo, algum biscoitinho feito na hora e um pouco de geléia e queijo. A professora então empilhava o material didático sobre a pasta e com parcimônia se punha a provar de tudo, mordiscando os biscoitos até deixar um ou dois na pequena salva banhada de prata; tomava duas xícaras do chá ou do café com leite com uma fatia de bolo ou uma torrada com geléia; dissimulava então um arroto com grande correção, e isso era como um sinal preestabelecido para que a mãe recolhesse a bandeja de volta à cozinha. A aula continuava até as seis, quando o pai chegava, pondo fim àquele suave tormento e dando início a outro mais severo.

O pai não podia tolerar qualquer quebra na sacrossanta rotina de sua vida doméstica. Formalmente lisonjeada e exausta, a mãe precisava estar com tudo pronto e bem arrumado para que ele, como gostava de dizer, pudesse compensar-se do cansaço de mais um dia de trabalho. Porque a mãe sabia dar valor, ainda segundo ele, ao aconchego do lar, a sua condição de rainha-do-lar. Mentalmente evitava paralelos embaraçosos entre a mãe-rainha e as rainhas coloridas e bonitas dos livros que lhe davam, para iniciá-la no reino do saber.

Nunca perguntou por que a professora não se utilizava daqueles livros de gravuras fascinantes, já que eles também eram capazes de ensinar e eram tão infinitamente mais atraentes do que os livros sem graça nenhuma que ela trazia em sua pasta. Suspeitava de leve que havia ali um mistério qualquer que não lhe competia discutir, e tinha medo de perder aquele raro prazer dos livros coloridos, das histórias que eram a única novidade de sua vida, se começasse a perguntar muito. Temia acima de tudo perder as viagens aos lugares aonde aquelas figuras a levavam como um tapete voador, as coisas e os personagens que descobria além das folhas lustrosas, nos livros que o pai lhe trazia todos os meses. Conseguia amenizar as aulas lembrando desses voos, associando os personagens esquálidos da história oficial ou dos textos de leitura a outros personagens que só ela conhecia. Só conseguia fugir das aulas quando tinha febre ou uma de suas crises de urticária. Uma vez teve êxito em simular uma doença, e foi quando alegou dor de cabeça e dor nos olhos, sintomas que lhe pareceram um achado numa reportagem sobre saúde.

Quando conseguiu ser aprovada nos exames de quinta série, o pai matriculou-a no colégio de uns amigos da mãe, pessoas idôneas, gente séria e de boa formação, ele dizia várias vezes por semana. Seu jeito gauche desencadeou a rejeição de alguns colegas cuja dinâmica ela não conseguia entender. Em pouco tempo, o pai falava em tirá-la do meio daquela horda de analfabetos. Mas a mãe conseguiu persuadi-lo aos poucos, escolhendo momentos propícios, como a hora da sobremesa de doce de cajá-manga ou o café da manhã, quando, bem-dormido, saboreava seu mingau com frutas e se mostrava sempre mais benevolente que de costume.

Ninguém lhe perguntou se queria continuar naquela escola onde a chamavam de manteiga derretida e filha-de-velho. Ela mesma estava atarantada, num estado catatônico que os pais interpretavam como tranquilidade. O pano listrado do uniforme e o cheiro da pasta de couro nova em folha lhe desencadeavam náuseas que ela continha a custo. Entrava na escola com a glote apertada, sem espaço algum para o prazer no corpo. Suava frio nas mãos e nos pés, enquanto esperava o trote do dia. Quando ninguém se lembrava dela, chegava aliviada ao fim do horário das aulas e atrevia-se a ensaiar um gracejo baixinho, para a colega mais próxima.

Aos poucos os outros foram se acostumando a ela; alguns professores percebiam com maior agudeza o que estava acontecendo, e conseguiu afinal fazer duas amigas na classe. No segundo semestre já desejava estar na escola à proporção que sua casa ia se tornando insuportável. E no ano seguinte, durante a aula de religião em que liam o livro do Gênese, ela percebeu junto com Eva que estava nua e sem a folha de parreira. Impossível destravar a confusão daquele momento, e antes de entender o que se passava percebeu que havia tanto, mas tanto a descobrir que seria obrigada a viver refazendo, reconstruindo, recomeçando o que até então lhe parecia indestrutível. Percebeu com grande choque que tinha sido preparada para nunca chegar a lugar nenhum. Olhou a sala, as colegas, o professor, e sorriu. Expulsa do Paraíso, enfim, e começando a viver.

sábado, 26 de setembro de 2009

A funcionária, o doutor e o fauno

Ele me pede para anotar recados, fazer ligações, marcar horas. Por que eu? Com tanta gente querendo um lugar de secretária, por que eu? Tenho bem mais o que fazer. Não gosto desse papel, não porque ache indigno ser secretária, ao contrário, talvez nem conseguisse ser uma boa profissional nessa área, mas porque não acho justo fazer um serviço que não me compete. Além disso percebo que ele quer é me manter ao alcance de seus olhos. Ele se acha uma cobra e pensa que eu sou passarinho.

O doutor é emproado demais para o meu gosto. O doutor is a tramp. Pensa que é um fauno. Mas os faunos são uma espécie rara, provavelmente em extinção. Não é para qualquer um ser um fauno.
O doutor é, vá lá, bonito, fino, culto; um legítimo galã dos anos 50. Por aí já se vê que não poderia ser o fauno. O fauno vive à l’après-midi, só se interessa por conhecedoras juramentadas. Não tem traço da ingenuidade calculada do doutor, que às vezes se faz passar por naïve, hélàs, e vem com umas francesices que as negas dele devem achar o máximo. A ingenuidade do doutor é filha da fatuidade. O fauno é vaidoso, mas não pode ser fátuo. Não se exibe como um pavão. O fauno é contido. Só quem sabe das coisas pode olhar e dizer: “ali vai um fauno”. Aliás, quem sabe, conhece o fauno até pela sombra, pelo jeitão casual de lançar seus olhares.

O doutor entra como galã e vira anti-herói no meio da história. Acho que a gente não se curte muito, embora ele só falte me beijar os joelhos e os cotovelos. Mas isso é obrigação de ofício, segundo sua mentalidade conservadora. Um cavalheiro – rá rá rá.

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o fauno não é um conquistador barato. Não dá bandeira. Tem quase sempre o ar blasé de quem já viu tudo e não tem medo de careta. E quando se zanga não dá vexame. Tem lá seu lado cavalheiro – oferece o braço, abre portas, chama táxi sem perder a pose – mas só se estiver interessado na dama em questão. Às outras concede o benefício do silêncio.

Acho que a diferença básica entre o doutor e o fauno reside em que o doutor quer aparecer bem, impressionar indistintamente o mundo todo. O fauno tem um objetivo mais restrito, escolhe a quem quer impressionar e o faz com tamanha competência que – te cuida! – quase sempre consegue.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Mulher escrevendo

Escrever era só a sobra. O que restava depois que o dia ia se cumprindo e ela cumpria seu papel – a casa bem cuidada, as garotas na escola, o almoço tão bem temperado, a roupa limpa e guardada, não fossem os vizinhos – ou pior, o marido – chamá-la de relaxada. Tinha uma reputação a cuidar. Dias ainda havia para as compras, estantes e tanta coisa por limpar e arrumar. E sempre, sempre os eternos ciscos, migalhas nas bancadas da copa, poeira aqui e ali, a gordura mal limpa no fogão. Tinha empregada, sim, mas cada dia ela queria fazer menos e sair mais cedo.

E ao fim do dia, os momentos de ócio necessários para azeitar as idéias e deixar fluir certa energia semicósmica – porque em parte vinha era de dentro. Nem sabia se era mesmo energia: era mais concreto, como liberar alguma coisa física, um miniparto. E porque nada ainda estava dito, era então preciso colher palavras, limpar a terra, o sangue, a aura estranha e revirá-las sobre o teclado e plantá-las no monitor entre as outras, em seqüência de alguma lógica, às vezes nem isso. Sentir e pesar seu efeito, seu tempo de validade, porque às vezes ficavam murchas, pobres, indigestas ou indigentes de sentido, caso em que nada resolviam de sua necessidade: as palavras são como as cores para o pintor. Há um efeito final a levar em conta que, esse sim, vem de dentro, e é preciso ser fiel a ele. Então deixava passar um tempo e voltava a elas, as palavras. Assim podia ter uma idéia mais clara do que estariam fazendo ali, corrigir algum rumo sem destino como um piloto em vôo. O voo era sempre meio cego.

Havia tardes e noites em que as palavras pareciam fluir tão facilmente, e ela enchia páginas e páginas seguidas, contente, realizada, achando o tempo um sonho. Mas não durava muito e a dor secreta dos dias voltava a se insinuar. A dor era sempre, não cessaria nunca e se expressava de um jeito surdo, devorando as entrelinhas. Chegava de leve, depois aumentava de intensidade e afinal causava um mal-estar que a obrigava a se curvar como quem carrega um peso maior que suas forças. Então às vezes apareciam poemas no monitor.

Imagem Francois Fressinier.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Pequeno diário de minhas aflições

Dia dezesseis às oito as compras da semana, às nove e meia reunião na universidade, às dez doutor Germano, às doze o almoço dos redatores, às quinze a programação do semestre. Dia dezesseis: doutor Germano compareceu, o puto, com duas horas de atraso e lá se foi o almoço dos redatores, que é sempre muito divertido. Lá para as tantas pinta o chefe de vendas à cata de um expediente, a secretária chama ao telefone (é o fim provisório) e logo a luz se acende e há pela janela do quarto andar um galho de árvore despudorado, infenso e insolente com meneios ao vento.
– Doutor Germano no meia dois.
– Fala doutor... Sei, pois é, gostou? Ótimo, tudo bem então... Ah, foi beleza, fomos a Cabo Frio sim, muito obrigado pela dica do restaurante (que é uma merda e caríssimo, levou dois décimos do meu salário e ainda me deu um ameaço de caganeira). Dona Lurdes (aquela baleia esnobe) como vai?
Às duas reunião com o homem da gráfica e o programador que tem cara de quem vai chorar a qualquer momento. Às oito juras para Jura – onde mesmo? Chegaram os folhetos, bota no armário da recepção. O momento é sempre certeiro, a gente é que rateia. Uma só bala na agulha – quem é mesmo que – uma vida só para viver. Como o cavalo?
Eu sempre querendo consertar minha vida – que afinal não é minha –, cheio de planos e linhas mestras que não me ensinam nada. Sempre me revisando, eu e meu eterno feriado contrariado. Sempre à beira do cais, no porto, à espera do navio salvádego que vem ao largo – mas não chega. Vejamos os números da supersena. Repito ou cravo outros?
Dia dezessete, os folhetos do Redolate, os folders do Augusto. Já falei com você sobre os gráficos desse livro?
As contas têm que estar em dia. Os rostos têm que estar rigorosamente escanhoados e sorridentes – seja polido, ofereça um cafezinho, a Laurete está aí pra isso. Não importa que sejam vagos, duros, tristes e mesquinhos, precisam agradar e manter o moral lá no alto, porque as coisas não vão muito bem, mas ninguém tem nada com isso e se a gente falha espanta os clientes.
Dia dezoito se desenha sujo, com nuvens negras armadas contra a janela. Desperta às seis sem a delicadeza infantil das manhãs dessa idade. O olho do espelho é de luz hostil e baixa, seu mistério é áspero. O jornal se desinteressa de mim e se espalha mole pela mesa enquanto penso palidamente um movimento de vísceras. O telefone. O indicador esquerdo sujo de manteiga, a xícara na mão direita. É preciso sorrir, guerra só depois da segunda ordem. Minha cabeça continuará um campo particular, estrito e ignoto do mundo, mas alguma coisa passa desse sorriso para a digestão.
Ônibus podem ser um bom reduto. Mas a agenda me ameaça como uma bomba dentro da pasta. A agência tragou – ou eu traguei – o asfalto úmido da rua, tudo parece viscoso. Entram cheiros trazidos por pontas despercebidas. De quebra levo um sentimento art-nouveau, um charleston qualquer de mistura com gestos de puro hip-hop, tudo em vinhetas de linhas quebradas. Coço com a mão fria a ponta do nariz. O guarda-chuva escorre na lata adrede preparada.
— Doutor Germano na linha.
O telefone de Jura para sempre ocupado. À medida que a tarde se aproxima, as palavras enfileiradas, esperando inquietas, me espremem o plexo. Não vou perder o emprego este mês. Deixei de ser autônomo para me tornar autômato. As paredes ostentam inúteis pôsteres de dizeres moralizadores. Estou indevido, insólito para mim mesmo. O resto me acha simpático e um pouco aluado.
– Chegou o relatório do Sales.
– E as tabelas da matéria do Paranhos? Se demorar mais um dia vou ter que cancelar a produção e entrar com o livrinho do Marques Lima.
O dia pode durar até cinqüenta e cinco horas, dependendo do gosto que se tenha na boca. Jura tirou o fone do gancho só para poder andar à vontade, a pindonga. A árvore na janela. Vai chover mesmo. Se não sair daqui a meia hora não saio mais, nem eu nem ninguém, e se Jura estiver mesmo na rua também não pode voltar para casa, o que sempre dá um ótimo começo de filme da sessão das sete seguido de lanche no Mc.
Dia dezoito, não tinha anotado isso, ficaria preso por uma jaula de grades transparentes. Preso por bacias de rios caudalosos pelas esquinas.
– Jura? Desculpe, foi engano.
Não é possível que ela esteja há tanto tempo fora, a não ser que –
– Jura? – pronto, caiu a ligação.
Dez e vinte, a água baixou dez centímetros. O lado de lá tem luz, no de cá estou no escuro. Ligaram o gerador para não prejudicar as máquinas, mas prejudicar os homens com o ruído ensurdecedor de quatro matriciais que despejam uma torrente inexpressiva de papel (são mais baratas, vocês têm que entender), ninguém sai nem entra. Biscoito seco para cinco. Mas
— Jura? Não é aí?
De quem corriam os hebreus entre duas colunas de água suspensas no meio do mar? Olho a cara do chefe que sai de sua sala para olhar o lado de cá da enchente. Ficaria bem vestido de faraó. Aqui se jaz, sem futuro, sem amores, sem razão – todos os dias uma batalha para ganhar a guerra. As linhas tortas, os telefones conspiradores, os imprevistos sempre do contra.
Rasgo meticulosamente a folha do dia dezenove e faço uma gaivota com ela. Apesar da chuva, voa como uma pomba branca treva adentro.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O amor tão perto de nós




Foram a um restaurantezinho meio escondido, a algumas quadras dali. Comeram um picadinho que pareceu a Clarice a coisa mais deliciosa e sofisticada que jamais havia provado. Ele pediu vinho “para comemorar a ocasião”, falou de mil insignificâncias essenciais e depois ficou olhando para ela por cima de uma fatia de torta de creme com aquele jeito caçoísta que ela tinha visto antes. Mas havia mais: havia mais interrogações do que zombaria na expressão dele, agora. Um estado de espírito estranho e ao mesmo tempo muito familiar foi se apossando de Clarice, como uma dessas lembranças de infância que a gente revive sem saber bem por quê, até que atinou com o cheiro da torta e sorriu.
— O que foi? – ele quis saber.
— Estou pensando em Proust.
— Mesmo?
— É verdade, minha avó... Olha só, eu já falando de avó, o que é que...
— Continua, Clarice, por favor, continua, ele disse, com uma voz incrivelmente meiga que a fez hesitar.
— É que...
— Gosto muito de Proust, você sabe? – e agora o tom era neutro, quase acadêmico, acompanhado de um olhar um pouco severo, um pouco sorridente.
Sentiu-se embaraçada, levada às nuvens, mas muito embaraçada. Olhou o relógio e pediu para irem embora, estava se atrasando demais. Ele a olhou mais sério ainda e chamou o garçom. Não admitiu dividir a conta e se despediu dela, quase paternal, com um beijo no rosto. Mas o cheiro de sua barba a acompanharia pelo resto do dia.
Voltou ao trabalho renovada. Tinha os olhos brilhantes, as faces coradas, e mentiu para justificar o atraso. Mas era fácil mentir por um bom motivo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ponto de fuga


Dona Elisa ouvia vagos rumores que, de mistura com as lembranças anacrônicas e os fragmentos de sonhos que povoavam seu sono entrecortado, faziam as vezes de um tropel de cavalos, gritos guerreiros e sussurros de alguém muito chegado a ela, o falecido talvez, ou o neto que um dia fora seu preferido e que ela, ninguém sabia por quê, imaginava em viagem pelo Oriente. Súbito o ruído cessou em seus ouvidos e um silêncio pleno se estabeleceu em sua mente. Ao mesmo tempo, as lembranças clareavam nítidas, e ela percebeu que aquele era o dia do aniversário de Vivinha, uma mulata que setenta anos antes fora uma espécie de pau-pra-toda-obra em sua casa, no bairro dos Jardins. Reviu as figuras de um livro de histórias chamado “A galinha ruiva” e parou para analisar uma delas, que sempre a impressionava muito naquele tempo: um terreiro onde as galinhas ciscavam e um homem de grandes mãos quadradas atirava grãos de milho; era uma figura como as outras, mas a menina que ela fora costumava ficar minutos infindáveis a contemplar o gesto que lhe parecia reconfortante, a nitidez dos grãos de milho ao sol, o contraste de claros-escuros nas superfícies, a sugestão de movimento que lhe dava asas à imaginação, os tons nuançados de azul no céu claro. Do formato grande do livro, de apenas trinta folhas, seu pensamento voou para uma sala com um grande sofá e poltronas de almofadas claras junto a uma janela estreita e alta, um tapete espesso cor de musgo e uma porta se abrindo para deixar entrar uma adolescente de longos cachos louros, levemente vestida por um tecido de florezinhas azuis, babados nas mangas e na saia. A visão a fez sorrir, enquanto a luz que vinha da janela desenhava a silhueta esguia e fazia brilhar os cristais por trás das vidraças de um móvel imponente de ébano. Uma paz indescritível se apossara de seu plexo. Naquele dia tinha conhecido o homem que viria a ser seu marido alguns anos mais tarde, e logo a imagem volumosa mas ágil de Bernardo lhe aparecia sorrindo como então... Estava leve, inteiramente tomada pela felicidade de ser quem era, plena e obscura, vendo-se de mãos dadas com ele, ah, tão felizes, debruçados no cais sobre o Sena, ma reine, mon roi, e nem mesmo a dor de perder Bernardo turbou a serenidade com que suspirava de olhos fechados, enquanto as imagens se afastavam sem sofrimento, cobertas por uma névoa esbranquiçada. “Tudo está resolvido”, pensou, e um sorriso se fixou para sempre em sua boca murcha.
A nesga de luz se insinuou por uma fresta na grossa coluna de nuvens acumuladas sobre o condomínio e atravessou a vidraça do quarto, incidindo diretamente sobre sua cama e seu peito coberto pelo edredom. Foi muito rápido. Logo o raio luminoso desapareceria. Junto com ele, o fio frágil de sua vida deixava aquele aposento há tanto tempo dominado pelo cheiro forte dos medicamentos e das fraldas geriátricas mudadas a horas certas pela enfermeira mal-humorada.

domingo, 16 de agosto de 2009

Os gatos



Consultava o céu estrelado sem saber bem o que esperaria ver além das estrelas e dos insetos que costumam cruzar as janelas em setembro. A fatia de lua estava distante, quase sumida no horizonte.
A escuridão por si só não explicaria aquela intensidade que a fazia vibrar como as cordas graves de um violão. Não esperava ninguém. Era o dia do plantão dele. No entanto toda se voltava para um personagem poderoso que agora dominava sua noite. Não se espantava de ouvir gritos lá fora, gemidos longos como queixas. Os gritos dos gatos no jardim a atravessavam.
A voz dos gatos da noite os transcende, faz deles mais que simples gatos: mesmo no caso dos gatos, o desejo é capaz de criar muito mais do que gatinhos. Sabia o fogo que os consumia – favos retirados da colméia escorrendo no meio da noite bruta. Os gatos lhe haviam feito muito medo na infância porque não conseguia entender o fascínio que lhe causavam. Agora podia conviver com eles na intimidade, pulsar com eles, buscar os frutos que a noite lhe traria se apenas consentisse em se perder. Os gatos cantavam a morte antes de germinar.
A escuridão protege formas que ninguém vê à luz do sol. Naquela noite em particular, adivinhava movimentos e atividades ocultas pela treva a sua volta, mas não queria acender nenhuma lâmpada, porque nesses momentos tinha a sensação de ser uma polpa intensa e perfumada, um fruto da noite, e muda viajava nesse terror secreto, aos poucos enleada por esses sons que precediam e anunciavam o gozo dos gatos no jardim.
Sabia que estava a ponto de criar outro rumo para sua vida – e na verdade já traçara esse rumo na fantasia. Mas relutava em deixar que a imagem daquele homem se instalasse de vez no olho do pequeno furacão que se armava, porque com isso estaria mergulhando – quem sabe – no mar em que se afogaria.
Levou as mãos em concha até a boca e soprou para testar o hálito que ele lhe sentiria, e por um segundo esse hálito não foi o seu, mas o de uma outra que ainda não se revelara, o hálito de uma mulher toda adornada para o amor. O desejo dele se fortalecia, era palpável, atravessava seus caminhos, penetrava por seus poros e já quase a escravizava, enquanto mergulhava na escuridão riscada de gritos que a deixavam no cio, que a atingiam como pedaços de vidro vindos de longe a cortar sua carne. Não ia demorar, ouvindo os gatos na delícia atroz dessa noite de espera sem chegada. Bem sabia, ia chegar sozinha.
O corpo lhe escapava. Um futuro oblíquo já penetrava em seu sangue e se confundia com sua própria pulsação. Não havia mais como mantê-lo à distância. Não queria, não se deixaria resvalar na metade muda de um prazer vazio. Ele entrava ali como um ser da noite, a noite era também dele, deles dois – na certa pensava nela onde estivesse naquele momento e a queria também. Pouco importava que não houvesse chegado a tempo.
Abandonou-se então a sua própria vertigem feita vertigem dele e deixou que o desejo daquele homem pesasse sobre ela, cobrindo-a, lambendo seu pescoço, os seios, as coxas, o ventre que se erguia para que seu falo a penetrasse; que magoasse a carne macia com as mãos da posse, virando-a na cama até deixá-la marcada por seus dedos, e sugasse seu sexo que cheirava a mel. Que a tomasse pelos cabelos, mordesse sua nuca e derramasse dentro dela os jatos de seu caldo quente.
Perdeu a noção do tempo horas seguidas. Achou que ia morrer naquela noite. Pouco importava, se ele quisesse morreria mesmo pelo prazer de dar prazer a ele, porque naqueles momentos só existia para ele.
Quando o sol a despertou, viu no travesseiro ao lado a marca côncava da cabeça dele. Sentia ainda o calor de seus membros na pele. Então a campainha da porta tocou.
Levantou meio trôpega e foi atender. Era ele. Estava abatido, os olhos inchados, ar cansado, a barba por fazer. Beijou-a com muita ternura e se encaminhou para o quarto. Ia tirando a roupa e se atirou na cama, puxando as cobertas. “Querida”, murmurou, já aconchegado, “o plantão foi uma barra. Me deixa dormir até amanhã, sim?”
Ela se debruçou sobre seu corpo e acariciou a cabeça que tinha amado desde o primeiro momento. Beijou de leve os cabelos um pouco grisalhos e saiu na ponta dos pés com a roupa amassada e suja para a máquina de lavar. Ele não sabia que tinham sido um do outro horas antes. Enquanto despejava o tira-manchas sobre o jaleco respingado de sangue, sentiu escorrer entre as pernas o sumo da noite. Deixou a roupa de molho e voltou para a cama. Queria dormir colada a ele sob as cobertas, sentindo o cheiro de seu corpo, e aquecer a cama para quando ele despertasse.

domingo, 9 de agosto de 2009

Habitat natural



Assim que conseguiu juntar o suficiente para uma vida sem maiores cuidados, tratou de procurar uma casa acolhedora em um lugar aprazível, não muito distante do Rio, onde pudessem, ele e a mulher, desfrutar a paz da natureza e uma vida sem complicações. Em pouco mais de três meses tinham essa casa: ficava entre a serra e o mar no estado do Rio, à beira de um lago escuro e plácido, rodeada por um bosque, um jardim que já encontraram florido e um pequeno pomar. Pensaram nos amigos, fins de semana reconfortantes e até férias que poderiam lhes oferecer, agradando a eles e animando sua nova vida.
Logo que se mudaram ficava horas a contemplar o lago, morada de carpas imensas, trutas e cardumes de peixinhos que ia admirar da margem onde se instalava em uma cadeira preguiçosa com um livro nas mãos.
Descobriu nesse período que existe uma variedade infinita de insetos de formas e cores interessantíssimas – alguns dos quais incomodam muito, é verdade. Aprenderam depressa a usar repelentes para se defender do lado menos confortável da vida ao ar livre – o que resolvia a situação em parte, porque a mulher sofria de alergia ao cheiro desses produtos e espirrava sem parar depois de usar um deles.
Não pretendiam converter-se em eremitas; sabiam que a convivência dos outros lhes faria falta. A intenção era não deixar passar mais de vinte dias sem uma ida ao Rio para assistir a uma peça de teatro, ir a um cinema ou visitar alguém, além das exposições de pintura que ela curtia.
O lago era um lugar que parecia feito para o silêncio e a meditação, espelhando as margens e o céu, às vezes azulado, outras meio verde ou de um negro absoluto. A água era límpida, plácida. Mais sossego, impossível.
— É engraçado, disse a mulher, numa manhã, duas semanas depois de se mudarem para a nova casa. Você às vezes não tem a impressão de estar em outro mundo?
— Eu não, isola! – ele respondeu, rindo.
Mas era verdade. Talvez porque não viam um só amigo havia dois dias. Talvez porque o telefone só tivesse tocado quatro ou cinco vezes durante aquelas duas semanas. Ou porque o silêncio fosse tão denso que absorvia qualquer ruído. Um tipo de silêncio que era como um rumor surdo e permanente a soar em suas cabeças.
Ao sol, vendo os mosquitos subirem feito nuvem sobre as larvas silenciosas e os tons da vegetação das imediações, o lago parecia ainda mais gravemente imperturbável. Esperava pela noite, pela lua, e se revestia de uma vida oculta e de mistério. Mas para eles aquele encanto começava a pesar.
Era setembro e já esquentava, mas ainda fazia um pouco de frio durante as madrugadas. Haviam-se passado pouco mais de dois meses na nova casa. Nas primeiras duas ou três semanas, ele acordava refeito, contente e disposto, louvando o sono reparador da noite. Mas ultimamente dera para acordar às três, quatro horas e não conseguia adormecer de novo. Perder o sono naquele paraíso de silêncio era uma heresia e o contrariava seriamente. Andava meio desconfiado, por mais paradoxal que parecesse, de que a falta da agitação começava a perturbar seu sossego. O isolamento e a sensação de estar sendo esquecido começavam a estragar os sonhos de uma vida calma e livre naquela casa, idealizada durante tantos anos e construída como um antídoto para os males da civilização predatória em que tinham estado mergulhados nos últimos trinta e poucos anos. Quando o sono afinal o vencia de novo, o céu já ia ficando meio iluminado daquele tom rosado-ouro que anuncia – ou ameaça – a chegada de outro dia.
Acordou numa dessas manhãs às dez e pouco. A mulher o esperava na copa e sentada a sua frente parecia pensativa.
— Que foi?
— Bem, nem sei como te dizer isso... Mas acho que precisamos de umas férias. Que é que você acha de umas semanas de barulho, poluição e perigo?
Em vez de estranhar, ele sorriu com ar de cumplicidade. E logo depois do almoço daquele dia estavam os dois a caminho do Rio.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A semana de Teresa



Acordou prisioneira daquele quarto de paredes azuis, quadros de molduras meio douradas e tapete bordado. Olhou em volta deitada em decúbito dorsal de corpo e alma. Nada a animava a levantar-se, naquela segunda-feira de um sol tão luminoso que as cortinas pareciam prestes a pegar fogo. Mas o relógio, aquele mesmo, tão seu conhecido, marcava sete horas, hora marcada a ferro e fogo em seu espírito invertebrado daquele dia. Sentou na cama e girou o pescoço lentamente para um lado e depois para o outro. Sentada, as coisas adquiriam certa consistência, mas mesmo assim ela continuava pertencendo a outra realidade, supra ou infra. Pôs os pés para fora da cama e procurou os chinelinhos felpudos, que a mãe insistia em deixar no banheiro para depois do banho, mas não para ela, que para ela tudo existia para ser fruído, usado, sugado por seu dono ainda em vida. A lembrança da mãe a fez sorrir para a enorme estância interior onde conviviam seus sonhos e memórias numa espécie de pequena caldeira de caos.

Não achava ruim encontrar todo dia as mesmas coisas a sua volta, a sala com os dois abajures verdes e aquelas cadeiras que lhe davam a impressão de estar num museu da Primeira República. Implicava mais seriamente com as cortinas rendadas de um tom creme-dúvida (seriam brancas amareladas ou cremes de verdade?), mas não tinha nada que se meter no gosto da mãe e no modo como arrumava a casa. Entrou na cozinha atrás de um copo de suco, que sempre tomava em jejum, e esse sempre vibrou em sua cabeça como uma lâmina. Pior que a mosca ora em torno de seus cabelos desgrenhados.

Foi uma coisa súbita. Sempre lhe pareceu uma enormidade. As mesmas coisas seriam o mesmo que sempre? Se era assim, então precisava de um olhar muito mais possante, talvez equino, para encarar o que aquela vida lhe oferecia. Voltou ao quarto sem o suco de laranja, e logo à porta reparou na bonequinha de metal torneado, meio tocado de amarelo, pendurada desde toda a eternidade na chave daquela porta cansada de ser branca. Notava de repente e agudamente demais como as coisas são profanadas pelo tempo, e fez um esforço de realinhamento que não surtiu efeito.

Seu barco fazia água. Urgia aliviar o peso da carga a bordo. A bonequinha de metal torneado voou janela afora com um pequeno ruído que lhe pareceu muito promissor. O quadrinho de figura desbotada, moldura rococó descascada nos dourados, seguiu a bonequinha com um pouco mais de estardalhaço, porque foi aterrissar na área de serviço de um vizinho meio azedo que logo se fez ouvir. Mas o alívio de tirar de cima da alma o peso do dia-a-dia era tão instigante, que Teresa logo se viu munida de uma sacola funda e espaçosa, dentro da qual couberam todas as quinquilharias e badulaques varridos por seus olhos naquela manhã. Entre elas o relógio das sete horas, as caixinhas desconjuntadas da coleção de certa estante do corredor e umas flores esquálidas que pendiam desde sempre do aparador da sala.

Os olhos brilhando, sentou no chão da cozinha com uma manga e uma faca. Não se lembrou mais da mãe, que chegaria à noitinha, e já prelibava a manhã seguinte, quando aquela casa abrigaria sua sede de viver em outro layout.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Mais que perfeita


Imagem Blue Molleskin.


Não deixava ninguém – ninguém mesmo, fosse quem fosse – sem resposta pronta e que lhe parecesse à altura. Além de respondona, era também precipitada, ansiosa e irrefletida – convenhamos, um porre de lidar. Tinha perdido um emprego por causa do gênio irascível. O marido não resistiu: embora fosse um homem reconhecidamente paciente e manso, mudou-se para outra cidade com a cozinheira, pessoa calada e sorridente, que além de tudo fazia uma carne assada de se comer rezando e um feijão sem igual. Os filhos viviam mortos de vergonha com os micos que tinham que pagar. O pai cortou relações com ela e a mãe só não se afastou também porque morreu cedo. Os vizinhos pouco a pouco iam deixando de falar com ela, que via nisso um motivo para lhes infernizar a vida sempre que possível. Já aos seis anos, ela desafiava a professora do CA mostrando-lhe a língua e batendo o pé quando contrariada.
Um dia encontrou na rua uma carteira recheada de dólares: eram mais de mil, em notas grandes. Nem um endereço, um nome, referência nenhuma. Só as verdinhas, viçosas, tentadoras. Para os outros, porque além – e apesar – de insuportável, era honestíssima e escrupulosa respeitadora da propriedade alheia, o que fazia questão de propalar a quem quisesse e a quem não estivesse a mínima interessado em ouvir – e que era a esmagadora maioria.
“Se entregar à polícia”, pensou com irrepreensível lucidez, “vão afanar. Se puser anúncio, vão me assaltar. Melhor guardar e ficar esperando algum sinal do dono.” Fez isso e pôs a carteira com a dinheirama numa bolsa fora de uso, guardada por baixo de todas as outras no sobrado do armário.
Continuou vivendo a vida e fazendo das suas, e uns dias depois viu num jornal um pequeno anúncio que não teria visto não estivesse ligada no assunto: “Perdeu-se carteira com dólares na altura da rua Uruguai, esquina de José Higino. Caso a tenha encontrado, queira entregar na portaria deste jornal sob a senha 8.243. Gratifica-se bem.”
O coração acelerado, correu até o armário, pegou a velha bolsa e retirou dela a carteira, que jogou na bolsa em uso. Arrumou-se rapidamente e desceu para devolver o que não era dela. “Sorte dessa pessoa”, pensava, jubilosa, contente consigo mesma. “Vai ver que ainda existe gente decente no mundo.” Correndo para a rua, quase derrubou o vizinho do 302, um homem de maus bofes com quem já tinha tido dois pegas dos grandes e que imediatamente se virou esperando outro bate-boca. Nem olhou para trás. Deixou o homem vociferando à entrada da portaria e entrou esbaforida no primeiro ônibus para o centro. Depois achou arriscado fazer a viagem toda de ônibus e desceu no metrô. Em quinze minutos entrava na redação do jornal, triunfante, sentindo-se uma vencedora. A moça da recepção ouviu o que ela lhe dizia com um olhar meio ausente, e pegou o interfone. Trocou algumas palavras que ela não chegou a ouvir com alguém que não podia ver. Depois estendeu a mão para pegar a carteira e lhe entregou um envelope fechado. Pensou em não aceitar a gratificação, afinal não fazia mais que sua obrigação. Mas a moça já tinha sumido do balcão da entrada e ela ficou sem saber o que fazer. Jogou então o envelope dentro da bolsa e deu meia-volta em direção à rua, que lhe pareceu mais iluminada e alegre que de costume. “É a boa consciência”, pensou, transbordando de orgulho por seu gesto nobre, com um meio-sorriso e se sentindo um pouco mais alta e melhor que as outras pessoas. No metrô, lembrou-se de abrir o envelope. Dentro havia uma imagem de são Judas Tadeu com uma novena impressa atrás e um bilhete que dizia: “Eis a sua recompensa. Foi ele que me devolveu essa carteira e você foi seu instrumento. Sorria e sinta-se honrado porque ele o escolheu.” A coisa colocada desse modo arranhou um pouco sua vaidade, e ela chegou de mau humor, chutou o gato e jogou longe os sapatos.
Na redação, a moça da recepção entrara no banheiro e, trancada por dentro, abrira a carteira para conferir: mil duzentos e quarenta e cindo dólares. Arrumara então o dinheiro em maços distribuídos por lugares estratégicos e, pondo a carteira vazia no bolso do uniforme, voltara rapidamente, porque não podia se ausentar da recepção por mais de cinco minutos sem deixar alguém em seu lugar.
Fica para vocês a moral da história. Se é que existe alguma.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Enquanto sobem os balões

Um cheiro muito apetitoso vinha das barraquinhas da direita. Resolveu ir até lá averiguar o que seria. Verdade que vinha de mistura com os cheiros de pipoca e cachorro quente, mas era mais forte, mais atraente, e o estômago dava sinais de ansiedade. Contornou a barraca de prendas, que exibia uma jarra de louça horrenda, bonecas de vários tamanhos e tipos, caixas de jogos, pratos pintados e um urso gigantesco de pelúcia amarela, além das flores de plástico. A música do sanfoneiro contratado na feira de São Cristóvão se juntava ao vozerio das pessoas, vestidas ou não a caráter, e às risadas de pequenos grupos de bebedores de quentão, ao lado da churrasqueira. Que aliás estava invisível, por trás das fileiras de gente com tíquetes na mão.
Lembrou esse detalhe decisivo e voltou alguns passos à esquerda, em direção às caixas. Havia outra fila, é claro, e ele resolveu passar o tempo apreciando as meninas que pareciam se divertir muito na barraquinha da pesca. Eram umas seis ou sete, todas de saias coloridas e blusas decotadas, e uma delas, que estava de branco, um véu curtinho e espetado no alto da cabeça, tinha posto o buquê de flores coloridas debaixo do braço para poder manejar o anzol. Logo exibia uma pequena luminária excessivamente dourada, seu prêmio na pescaria. Um bando de crianças chegou com grande alarido, e agora disputava com as moças os melhores lugares para pescar. Elas se afastaram ruidosamente, gritando para outros grupos que estava na hora do casamento e perguntando pelo noivo.
A vez dele demorava. A sua frente, uma jovem de camisa xadrez e calça de brim esfarrapada mastigava uma maçã do amor, cujo cheiro doce o provocava. Teve ímpetos de pedir uma dentada, mas era um rapaz tímido e teve medo de ser mal interpretado. Alguém passou por ele e deixou um rastro de perfume barato misturado a um forte cheiro de corpo suado. Era o noivo, de fraque listrado e polaina brancas sobre sapatos muito grandes para seus pés. “Parece mais um palhaço”, ele pensou, já sem vontade de sorrir, porque a fome aumentava a cada passinho minúsculo em direção à caixa.
O alto-falante convocava o noivo, que comparecesse logo diante do padre e do juiz, postados diante de um altar de papelão pintado de cores berrantes. “A noiva já está aqui, seu safado!” – gritava o pai da dita, de chapéu de palha desfiado e gravata vermelha. Um grupo se formou diante do altar e três rapazes chegaram empurrando o noivo. O barulho agora era ensurdecedor, porque o sanfoneiro atacava uma marcha nupcial repinicada e o sistema de som sibilava em vários tons.
A vez dele chegou, afinal, e assim que o papelzinho branco passou para sua mão, correu para a churrasqueira, agora um pouco mais vazia, pois todo mundo corria para ver o casamento rindo por antecipação.
“Picanha?” – perguntou o churrasqueiro. “Só daqui a meia-hora. Tou pondo a carne no espeto agorinha, vai esperar um pouco. E churrasqueiro também é filho de Deus. Vou lá ver o casório, que esses caras são hilários.” Dito isso, o sujeito largou o espeto na brasa e saiu zoado. Ele considerou a situação e o estado de sua fome, e decidiu: passou a mão em uns drumetes meio chamuscados e numas lingüiças tostadas. Depois rumou para as bebidas e saiu com sua latinha de coca-cola sem que ninguém lhe perguntasse nada. Aproveitou uma das mesinhas vazias e mandou ver. Na mesinha ao lado, a luminária dourada faiscava, largada debaixo de um refletor.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Cimento e rosas


Toda vez que passo na esquina arcangélica das ruas são Miguel e são Rafael meu coração ensaia um pequeno vôo e meus pés querem tomar a direção da casa de varanda e jardim, hoje protegida por um muro áspero de cimento cinza. Tenho que fazer um esforço para desviar daquele portão e seguir meu caminho. Agora moram lá outras pessoas, a casa está meio decadente e perdeu o charme, seria doloroso vê-la de novo por dentro sem as flores, o cheiro bom daquele tempo e a luz que o riso de tia Anita parecia irradiar. Nem se justificaria entrar na casa dos outros, na certa iam desconfiar de assalto e eu ia parar na décima nona depê.
Tia Anita morava naquela casa com o marido, meu amado tio Marcelo, e o filho mais novo, por quem fui absolutamente tresloucada até os quinze anos, e que acabou casando com a vizinha, depois de se desiludir com uma menina que foi sua grande paixão. Mas isso é outra história. Tia Anita e tio Marcelo eram considerados pessoas abastadas. Não eram, hoje sei. Mas naquele tempo a medida para avaliar os bens de alguém não passava pelo que esse alguém efetivamente possuísse, mas por seu modo de viver, e a casa deles era uma delícia de conforto e bom gosto.
Tio Marcelo foi a ovelha negra de uma família tradicional de Botafogo, e os nomes de seus parentes estão gravados nas placas de muitas esquinas do bairro. Foi um boêmio incorrigível, os pais viviam sobressaltados por causa dele. Tantas aprontou que o puseram para fora de casa e ele teve que recomeçar a vida como funcionário dos correios, onde conheceu tia Anita, na flor dos dezoito, com os enormes olhos castanhos e os dentes perfeitos da família de mamãe – que eu, snif snif, não herdei –, ele, velho lobo mau de trinta e poucos anos, boêmio e pé-rapado. Fogo e pólvora não se encontram impunemente. Casaram em seis meses, literalmente babando um pelo outro. A mãe dele abençoou a nora, anjo salvador, e lhe declarou eterno amor de mãe. Herança, nem pensar: estava comprovado que o dinheiro estragava aquele estróina, e agora ele teria todas as razões do mundo para desunhar firme, ser homem útil à sociedade, comer o pão com suor – coisa que ele, um gourmet refinado, positivamente não faria. Mas enfim, se queria continuar com seus lagostins e torradinhas com caviar, que fizesse por onde.
Sem herança, eles eram a fome e a vontade de comer. Tio Marcelo, educado na Suíça, francês fluente, conhecedor de etiqueta e arte; tia Anita, educada aqui mesmo em colégio público de bom ensino, também traçava lá seu francês, lia muito e fazia versos românticos. Mas mãe é sempre mãe. A sogra lhes deu a mobília da sala, ébano e cristal bisotado, e o resto das duas famílias providenciou o que faltava, e não era pouco.
Tio Marcelo plantou rosas no jardim, quando mudaram para a casa da esquina. A mesa era posta com castiçal de prata, talheres de alpaca e porcelana. Claro, ao longo dos anos ele pulou a cerca algumas vezes, mas o casamento não se desfez: tia Anita segurou todas as barras. Pareciam feitos um para o outro, e nem nos piores momentos se falou em separação. Tia Anita se foi dois meses depois dele.
Foi pela mão de tio Marcelo que muito cedo conheci os museus de arte e o teatro. Era louco por Balzac, me emprestava seus livros de poesia francesa e me apresentou aos licores italianos e ao vinho branco. Me falava de Veneza, Paris, Londres e de uma cidadezinha suíça que fui conhecer muitos anos depois, e eu o escutava fascinada, porque ele era um ator e tanto. Incentivava minhas aulas de pintura como se eu fosse uma vangoga em potencial.
Quando passo por aquela esquina arcangélica, parece que estou ouvindo o riso de tia Anita. Evito olhar o horrendo muro de cimento cinza, que me dá uma tristeza dessas que choram no meio do esterno, e na memória me aparecem as rosas com cheiro e tudo. Devem ter cimentado o jardim também.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Eles


Escher. Bond 2.


Esbarramos neles a cada passo. Estão por toda a casa, nos espaços entre as poltronas da sala, na escada da varanda, nas janelas dos quartos. Às vezes deitam-se na cama, e quando à noite retiramos a colcha rolam para o lado; cheguei mesmo a sentir o roçar de um deles na ponta do pijama.
Minha mulher pisou num deles outro dia. Pelo menos acreditamos que isso tenha acontecido, porque ela ouviu um pequeno grunhido e sentiu, embora muito rapidamente, o pequeno volume que se retirava de baixo do bico de seu sapato.
Hoje de manhã comeram as duas torradas que deixamos na mesa para o café, enquanto íamos escovar os dentes. Viraram a leiteira e o leite estava todo derramado na toalha e no chão quando chegamos. E algum mexeu na cafeteira, que deixamos ligada e encontramos fria.
Nunca descobrimos de onde eles vêm nem como são exatamente. Intuímos que sejam muito pequenos, porque às vezes, como já mencionei, pode-se perceber um leve volume sob um lençol na cama ou causam algum deslocamento de ar, como se passassem correndo. Ia me esquecendo de uma coisa importantíssima para atestar sua existência: eles têm sombra! Ao sol ou à luz das lâmpadas, projetam uma mancha escura de formato um pouco indefinido, ora mais alongada, ora mais redonda. Não se notam braços ou pernas, e a cabeça, se a têm, deve ser embutida no corpo. O mesmo indivíduo pode se desenhar com formas diversas no chão ou numa parede clara, e seus movimentos devem ser ultra-rápidos, a julgar pelo tempo da projeção.
Não sentimos medo deles; apenas nos incomodam um pouco. Os micos que às vezes entram pela janela da cozinha são muito mais difíceis de aturar. Nem vou falar dos mosquitos à tardinha ou dos gatos famintos que nos obrigaram a trazer um cachorro para casa. Os animais não parecem perceber a existência deles, embora de vez em quando Flash Gordon, nosso cão, olhe com desconfiança inexplicável certos cantos da casa.
Ontem à tarde saímos para procurar um apartamento perto da praça, onde há mais movimento e algum comércio. Creio que um deles (ou mais de um) foi no carro conosco e aprontou. A proprietária nos recebeu amavelmente, e nos mostrava todos os recantos, armários e vantagens do imóvel, quando a porta da entrada começou a ir e vir sem razão aparente. A mulher, que talvez acredite em almas do outro mundo, foi ficando cismada e acabou deixando transparecer seu desagrado e desconfiança com nossa presença. Por fim inventou uma desculpa qualquer para nos despachar, querendo se ver livre daquele casal mal-assombrado. Tivemos uma experiência semelhante há quatro dias, quando tentamos fechar negócio com outra casa duas quadras abaixo da nossa. Era uma linda casa clara, arejada, voltada para o sol da manhã.
Nessas duas ocasiões voltamos meio desanimados. Principalmente ontem. Parece que eles gostam muito de viver conosco e não pretendem nos deixar. Mas não vamos desistir assim facilmente.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Martírio




Era vizinho de nossa família nos tempos de minha infância. Estudou com meu irmão na escola municipal do bairro, e cursavam direito juntos quando resolveu ser padre. Ingressou no seminário, concluiu o curso, e ao fim de uns anos lá estava ele, um missionário radiante de felicidade. Meu irmão, ateu convicto, e eu, meio desligada de tudo que não fosse jornalismo e literatura, não deixamos no entanto de amá-lo, cada qual a seu jeito. Ele correspondia com a doçura que era só dele.
Um dia, os dois na varanda depois de um almoço lá em casa, eu disse a ele que o martírio era uma bobagem sem tamanho. Ele me olhou com um misto de surpresa e repreensão – a repreensão suave de que seria capaz:
— Mas como... O que é que você está dizendo? Já se deu conta? Nem falo só do martírio religioso, há outros...
Eu nem pestanejei. Achava aquilo mesmo. Sentia muito se o decepcionava, mas não via vantagem em morrer por uma causa. Mesmo a vantagem política me parecia questionável. O que seria mais importante: a força moral ou a força do braço que trabalha para mudar as coisas? Não é morrendo que...
Ele tocou meu braço e o apertou um pouco mais do que seria de esperar.
— Peraí, peraí. Você está delirando. Então você acha que vale mais quebrar pedra do que inaugurar um monumento?
— Se ninguém quebrar a pedra, o monumento não sai.
Ele refletiu por uns segundo, sem soltar meu braço. Acho que o olhei de um modo diferente, porque pareceu se dar conta do que estava fazendo.
— Ah, disse, como quem se apercebe, largando meu braço, desculpe, eu... Mas você dizia – e se ajeitou na cadeira.
— Nada, respondi. Nada, não disse nada. Foi só um impulso.
Ele sorriu. O mundo estava em paz outra vez. Levantou a mão e fez um sinal de absolvição diante de mim. Naquele momento percebi: nunca seria meu.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cena carioca


Foto Jamil Damous

Acordara tão feliz naquele dia que deu dez reais ao mendigo à saída da faculdade e logo depois viu que tinha ficado sem dinheiro para a passagem. Tentou uma carona, mas o colega ia para o lado oposto da cidade. Lembrou então do pai, que àquela hora devia estar ainda no escritório da rua do Ouvidor. Correu para lá e o pai já tinha saído. Ligou para casa, é, mãe, estou sem dinheiro. Toma um táxi, a gente paga aqui - mas às sete da noite é uma coisa meio difícil, começava uma chuva de verão e ela teve a desagradável sensação de que nunca mais conseguiria voltar para casa. O bom humor da manhã era agora uma vaga lembrança. Perdeu um táxi para uma velhinha simpática, outro para um sujeito grosseiro que fingiu não ter visto seu sinal e outro para uma mulher cheia de embrulhos com um garotinho a tiracolo. Descabelada, as sandálias ensopadas, avançou para um carro de que desembarcava uma criatura imensamente gorda. Junto com ela, duas mulheres falando aos gritos e dois sujeitos mal-encarados, sem falar no velhinho magrelo e rabugento, forçavam a passagem, um cotovelo ossudo em suas costelas, o guarda-chuva quase furando seu olho. Não saberia dizer como, mas ganhou a parada. Sentada no fundo do carro, os cabelos escorrendo, água entrando nos olhos, ainda pôde ver o gesto obsceno do velhinho e a cara de ódio dos sujeitos e das mulheres. Largou-se no banco, suspirando aliviada. Copacabana, disse ao motorista, rua Miguel Lemos. Estavam na esquina da Evaristo da Veiga e o motorista diminuiu a marcha e se virou para ela. Ah, moça, não vai dar, disse com um meio-sorriso. Acabei de vir de lá, está tudo engarrafado, e além disso eu hoje nem almocei. Não leva a mal não... A raiva a fez pular do carro na calçada alagada sem olhar para trás. Nem no abrigo do ponto de ônibus havia lugar para escapar do aguaceiro. Dez minutos, quinze, vinte minutos e nada. De repente sentiu que alguém a segurava pela cintura e se encostava nela. Olhou meio assustada meio esperançosa de encontrar um amigo qualquer, e viu um rosto estranho, até bonito, com um sorriso resplandecente, que sussurrava em seu ouvido: ri pra mim e me passa a carteira e o relógio que vai dar tudo certo. Sentiu as pernas tremerem e de repente desatou a rir como uma louca, sem o menor controle. Não precisa exagerar, disse o sujeito, olhando em volta rapidamente. Ela não conseguia parar. Achou fôlego pra perguntar: você tem algum dinheiro aí? Eu?! ele, atônito. É, só pra eu poder pegar o ônibus. Sentiu então a pressão nas costelas. Não sacaneia. Me passa logo o dinheiro e o... É sério não tenho um tostão, estou ensopada e vou pegar uma pneumonia. Você ao menos tem uma jaqueta de couro. O rapaz pareceu perturbado e ela teve uma idéia: olha, se você tiver dois reais aí pode levar meu relógio. Ele afrouxou o abraço e lançou um olhar às pessoas que se amontoavam no abrigo da parada de ônibus. Ninguém tinha se tocado. Enfiou a mão no bolso da calça e puxou duas notas amassadas. Disfarçadamente ela tirou o relógio e o entregou. Ele baixou a cabeça e sumiu no buraco do metrô, enquanto ela disputava um espaço no ônibus quase aos tapas, espremida, aliviada e sem mágoas.

domingo, 7 de junho de 2009

Caso encerrado



O delegado de plantão não tinha o aspecto desagradável e distante dos que apareciam nos filmes, e era uma pessoa acessível a seu modo. Puxou uma cadeira de assento carcomido. Seus gestos eram desembaraçados e certeiros como se houvesse ensaiado a cena muitas vezes antes. Ou como se dosasse todas as manhãs uma mistura com duas partes de energia e uma de delicadeza para tomar durante o café.
Ela o olhava um tanto relutante e embaraçada. Tinha entrado na delegacia com o discurso pronto, mas ansiosa como uma ave na tela do viveiro. O coração acelerado lhe cortava um pouco o fôlego e sentia dificuldade de articular as frases. Mesmo assim acabaria conseguindo contar a ele o que havia acontecido, as cenas de ciúme doentio, as brigas e as surras – tinha marcas –, os dois anos de seu casamento infeliz regado a cerveja.
À medida que as palavras saíam de sua boca, seus pedaços dispersos há algum tempo pareciam voltar a se reunir. No fim do depoimento estava quase tranqüila, e ao mesmo tempo tinha ficado mais sozinha do que nunca.
Sozinha feito o monumento do meio da praça. Estava livre de tudo, sem envolvimentos com ninguém no mundo e com a vida a céu aberto. Já não sentia nem medo, mas tinha perdido mais que o necessário. Era como se dividir a história que vinha carregando há tanto tempo lhe deixasse enfim espaço para uma outra ela-mesma e esse espaço fosse excessivo.
Não quis a proteção que o delegado lhe ofereceu. Não acreditava que o marido tivesse qualquer intenção de atacá-la fora da cena já conhecida, e não deixara o novo endereço com ele. A essa altura o infeliz devia estar se encharcando, sem ela pra atrapalhar. Também agora, que se olhava como outra pessoa, julgava impossível ser covarde a ponto de ficar com medo de um homem que um dia tinha sido tanto pra ela. Além disso considerava essa proteção uma invasão inútil de estranhos, um complicador desnecessário. A última coisa que desejava era o convívio de estranhos. Queria conviver consigo mesma, curiosa de ver como seria agora. Lamber-se como uma gata menstruada, sentir o gosto do próprio sangue. Ser só e tratar de si mesma.
Enquanto ele ainda estava fora, apressou-se a retirar da antiga casa tudo que deixara para trás na fuga destemperada. Ele não devia demorar, a não ser que tivesse ido para o bar. As primeiras estrelas se acendiam, e aos poucos um vento áspero e inamistoso invadia a sala, vindo da rua. Como em instantâneos, ela via os móveis, a cama revolvida, a janela. Frases sem sentido vinham a sua memória. Não tinha registrado queixa a respeito do carro que tinha comprado com suas economias e ele afinal tinha roubado e escondido dela. Não eram os bens materiais que a preocupavam, mas qual seria sua verdadeira vida depois de tudo.
Nessa noite o sono foi escuro e inquieto, o primeiro sono da nova pessoa, em que ela se olhava de algum ponto secreto enquanto dormia. Não se lembrava de ter sonhado, mas despertou cansada, com um sentimento incômodo e recriminatório que não lhe deu sossego durante toda a manhã.
Não tinham passado ainda vinte e quatro horas, voltou à delegacia para retirar a queixa. Deu um pouco de trabalho, mas acima de tudo foi humilhante por causa da cara de ironia e enfado do delegado, antes tão cavalheiro, a lhe dar conselhos e orientações que não estava pedindo. Não escapou nem da piadinha sobre mulheres que gostam de apanhar.

— Não foi bala perdida – explicava o detetive de plantão a um repórter três dias depois. O delegado está certo de que foi proposital, já mandou prender o suspeito.
— Isso mesmo, confirmou o delegado, saindo da viatura que acabava de encostar na calçada onde o corpo tinha amanhecido com um tiro certeiro no pescoço. Eu avisei. Mas tem muita mulher que é assim, fica dando mole. Completa a perícia e pode recolher ao IML.

domingo, 31 de maio de 2009

A história de amor dos dois pintores

Por que não voltamos daqui – ela propôs – já é tão tarde e o dia está nascendo nos jardins de Monet.
Então é cedo – ele falou – as árvores de leve concordaram e tudo começou numa tela de Turner.
Arrumaram a casa com Peticov e Klee. Cézanne trouxe as frutas, Van Gogh as noites e Klimt erotizou a terra, que logo se dividiu em planos escherianos e pássaros voando em degradês sobre os casais de Schiele.
Picasso entrou em cena no início da guerra. Dali descobria coisas imprevisíveis, mas Munch já habitava suas entranhas. A casa de Jacek fazia água e os personagens de Magritte entraram em cena, meias-luas pairando sobre o chapéu. Passaram a ignorar perspectivas e Chagall subiu no telhado.
Desse ponto a Hopper foi pouco mais que um passo e a solidão campeava solta. O mundo se dissolveu, Miró eclodiu e respingou Pollock. Já não eram dois, mas muitos fragmentos, até que tudo ficou mais complicado por Bardinet e Yvette Jullien. Mabe pôs um fundo final na história deles, que nunca mais se viram.


Tela de Wolfgang Paalen (Áustria). Study of totem landscape.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Os anjos

Saiu o café? A água secou, é preciso ferver outra, mas não tem muita importância. Afinal, nada tem importância. Por que incomodar as pessoas com essa angústia fora de hora? Todos se divertem, contentes, todos querem ser felizes. As crianças devem dormir em paz, as flores estão lá fora como de direito.
Procura o bule do café, deve estar em algum lugar. Um dente começa a doer. Entre as sombras da sala, a empregada faz um sinal de que está tudo bem, mas não dá pra ver seu rosto. Agora o bule na bandeja sobre o aparador. Por que ninguém se serve?
Um coro se faz ouvir, procura de onde vêm as vozes e vê: são três anjos de pé, diante do muro dos fundos.

sábado, 2 de maio de 2009

Pizza aos pedaços


Roy Lichtenstein. Girl with hair ribbon.1965.


Na pizzaria do shopping encontra o velho casal do outro dia, e eles conversam mansamente. Em volta há um burburinho em que ela deseja ardentemente se integrar. Quer voltar à vida, viver como todo mundo, e tem medo de não saber mais como fazer isso. O garçom de sempre vem a seu encontro e lhe sorri: Vai querer a míni de novo? Com suco ou com chopinho? Eu quero, respondeu sorrindo e falando bem devagar, eu quero que você me arranje uma boa companhia. Alguém que goste de conversar. Ele a olha com espanto, mas logo lhe estende o cardápio e faz que sim com a cabeça, um pouco embaraçado. Se eu servir – responde, com a veia da testa estufada.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Desculpe o mau jeito




Eram sete e pouco da manhã, quando Isabel viu os pés no meio do mato. Um deles estava descalço, sujo de terra, e o outro trazia uma alpargata preta. Reduziu a marcha e parou mais à frente, do outro lado. Devia voltar? No meio daquele matagal, estrada cheia de buracos, que até para arrancar era difícil? Melhor não. Telefonaria pro posto de polícia mais próximo. Abriu a bolsa para pegar o celular, mas estacou no meio do gesto. Não sabia o nome daquela estrada e não queria demorar ali. Iam pedir que servisse de testemunha, que esperasse a perícia, prestasse depoimentos, um saco. Melhor chamar uma ambulância, dizer onde estava o corpo e seguir para o trabalho em Piraí. Pensou em chegar perto, só um instante, não ia tirar pedaço, droga. Teve raiva da própria pusilanimidade. Pensou que podia ser ela, ninguém estava livre de um acidente, um assalto. Mas o pensamento a assustou tanto que deu partida no carro. Ia pedir ajuda na cidadezinha mais próxima, um povoado chamado Nossa Senhora Auxiliadora. Se o homem estivesse morto, não ganharia nada com a urgência. Se estivesse ferido, devia estar muito mal, desacordado sabe Deus desde quando. Outro pensamento assustador a fez acelerar a marcha: e se fossem só os pés? Se tivessem esquartejado o infeliz?

Procurou o centro de saúde do lugar e registrou um pedido de ambulância para o local. Explicou bem o ponto, marcado no mapa que trazia para não errar o caminho. Havia dois meses passava ali toda quarta-feira. Cumpria um contrato temporário de trabalho em Piraí, um dinheirinho bem-vindo a seu orçamento de fonoaudióloga novata.
Saiu do pequeno hospital satisfeita consigo mesma e seguiu para a clínica onde já a esperavam várias mães com suas crianças deficientes – portadoras de necessidades especiais, como dizia corretamente a tabuleta, na porta do consultório de cadeiras incorretamente quebradas. Atendia durante o dia todo e passava a noite na pousada limpinha, indicada pela colega que a recebera na clínica no primeiro dia.
No dia seguinte bem cedo, lembrou de passar no hospital de Auxiliadora para saber do dono dos pés. À pergunta dela, a atendente levantou os olhos meio distraída e abanou a cabeça. — Ele morreu? – indagou Isabel, chocada. A outra fixou os olhos nela e sorriu. — Não... Quer dizer, não sei... Ninguém deu entrada aqui ontem.

Bem irresponsável, essa gente! – ela resmungava, quando voltou ao carro para seguir viagem. O pobre do homem devia estar lá ainda, com seu pé sujo de lama espetado por trás da moita de capim. Ai, meu Deus, lá vou eu ver aquilo de novo – e um arrepio passou por suas costas. Se ao menos houvesse outro caminho. Mas partindo de Auxiliadora não havia alternativa para aquele trecho de estrada, que ela e algumas pessoas usavam para evitar o movimento da BR, inclusive alguns caminhoneiros.
Quem sabe alguém teria socorrido o coitado. Afinal tinham-se passado 24 horas, muita coisa podia ter acontecido. Quanto mais perto do lugar, mais tensa ela se sentia. As mãos e os pés suavam e escorregavam dentro da sandália. Dobrou a curva com cuidado, e viu um caminhão parado. Ai, ai, ai, pensou, imaginando que alguém teria achado o homem do pé sujo e que na certa ia querer que ela parasse para ajudar. Devia estar cheirando mal, meu Jesus. De dentro do mato saía um homem fechando a braguilha, que fez sinal para que ela parasse. Tinha um pé descalço e no outro uma alpargata preta e suja de lama. — Moça, ele gritou, parei aqui pra dar um cochilo e só acordei agora. Sabe onde a gente encontra um bar de estrada por aqui? — Segue em frente, ela respondeu, sem encostar o carro, e acelerou, fugindo dos buracos. Pelo retrovisor viu o gesto obsceno que ele fazia.

O coração disparado até atrapalhava seus pensamentos. Só em casa, quando se preparava para ir ao consultório, foi que tentou explicar a si mesma aquela história maluca. Por que o caminhão não estava na estrada, na véspera? Se o homem era um caminhoneiro, por que teria saído para dormir no mato? Podia estar bêbado, drogado, mas que espécie de profissional seria aquele, bebendo e se drogando na hora do trabalho? Não teve medo dos bichos que podem atacar uma pessoa durante a noite num lugar daqueles?

Atendeu os pacientes do consultório e depois seguiu para a Barra, onde cuidava de um senhor idoso, vítima de AVC. Na volta entrou num shopping para uma sessão de cinema com Mauro, o namorado. Contou a ele a história da véspera e o encontro daquela manhã. — Se eu fosse você, parava com esse atendimento fora do Rio, ele respondeu. — Acho que vou parar mesmo, ela concordou, pensativa. Essa viagem me fez medo. E olha que não sou de sentir medo assim à toa. Mas tenho pena de deixar meus pacientes.

Dois dias depois Mauro lhe mostrou a notícia no jornal: o homem da alpargata suja estava preso. Ela reconheceu a foto, era ele mesmo. Um assaltante de caminhoneiros. O caminhão que ela vira tinha sido roubado na madrugada daquele dia.
Mas foram necessários mais alguns dias para que tudo ficasse esclarecido. O sujeito tinha fugido da cadeia de Auxiliadora na semana anterior, e eram dele os pés que ela viu naquela manhã. Escondia-se para assaltar caminhoneiros que cruzassem o trecho mais deserto da estrada, onde os buracos e os barrancos que já haviam causado acidentes. “O motorista assaltado” – dizia a notícia – “desceu o barranco e se refugiou por trás das árvores da encosta. Graças a isso escapou ileso, apesar de Jovelino (o nome do ladrão) ter descarregado a arma em sua direção.” — Podia ter me assaltado também! — Ruim de mira, esse infeliz, disse Mauro, e os dois riram. — Só tem uma coisa que eu não entendi. Por que o tal Jovelino usava alpargata num pé só? – e riram mais ainda.

Isabel renovou o contrato com a clínica de Piraí, que lhe ofereceu um aumento de salário para continuar. Já não passa mais pela estradinha esburacada que leva a Auxiliadora, vai pela BR mesmo. Mas numa dessas quartas-feiras voltou lá, só de sarro. Parou na beira da estrada e ficou olhando o lugar. Até desceu um pedacinho do barranco, apoiada nas árvores. Um ou dois metros abaixo encontrou uma alpargata preta, ruça de lama seca.

Se você esperava alguma surpresa eletrizante - um bicho, um monstro, um tarado que atacasse Isabel - queira me desculpar. Nada disso aconteceu. Daqui pra frente, tente evitar o excesso de filmes americanos chamados "de terror" ou "de ação", que costumam estragar muito a sensibilidade do espectador. Isabel voltou ao carro e saiu daquele lugar o mais rápido que pôde. Melhor não facilitar.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Nicinha

Todo mundo tem sua zona de sombra no intelecto. Isso é normal, não significa absolutamente um QI precário; apenas lá uma hora ou outra alguma conexão vacila, um neurônio rateia, e sai um produto com defeito – um riso fora de hora, uma pergunta cretina ou uma frase mal formulada. O caso de Nicinha, no entanto, era mais específico, por assim dizer. A zona de sombra de Nicinha era um ombrelone tamanho gigante.

Quem já conhecia a moça se limitava a cumprimentos de praxe e um mínimo de palavras necessário ao bom andamento dos trabalhos, porque qualquer narrativa bobinha de um acontecimento do dia-a-dia era pretexto pra Nicinha entrar em detalhes que não vinham ao caso, tipo como era a camisa do sujeito em questão, que idade aparentava, se estava sozinho ou acompanhado. E, não satisfeita de aguar a história, ainda fazia aquela cara compassiva de quem diz “você não sabe explicar nada, estou tentando melhorar sua performance”. O interlocutor acabava desistindo, saindo de perto dela puto da vida e ainda por cima se sentindo culpado de ter destratado a colega. Piada então, nem pensar: Nicinha dissecava e escalpelava o caso até reduzir o humor do outro a subnitrato.

No dia em que o Carlito começou a trabalhar na empresa, veio se apresentar aos colegas mais próximos de sua baia, Leandro, Rubem e Nicinha. Todo comunicativo e sorridente, puxou logo assunto com ela. Os outros se entreolharam com um ar meio canalha e ficaram esperando o diálogo. “As vagas aqui no estacionamento não são marcadas, né?” – perguntou, e ela, espantada: “Ah, que pena, então você é daltônico? E como é que tirou carteira de motorista?” Carlito não entendeu nada. “Daltônico, eu? Não, não sou não.” Nicinha apertou os olhos como quem mata uma charada. “Ué, então como é que não viu as faixas amarelas no chão da garagem?” Os outros viraram o rosto e voltaram a suas mesas segurando o riso. O Carlito disse duas ou três palavras meio sem sentido e saiu pra beber água. Lá fora, o Rubem quis saber o que tinha achado da moça, já preparado pra comentar suas ratas e rir um pouco. Mas para sua surpresa, o Carlito disse apenas, “cara, que mulher charmosa, que tetéia. Ela tem namorado?”

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Solano



Solano foi meu professor durante os quatro últimos anos no colégio do bairro. Cinqüentão, grisalho e elegante, sempre passava a impressão de que dizia apenas um quinto do que realmente gostaria de dizer. Daria alguma coisa para saber o que realmente pensava enquanto nos corrigia ou explicava a matéria de aula, mas principalmente quando nos concedia um dedo de prosa no pátio ou na calçada em frente à escola. Tinha um discurso contido, educadíssimo e conservador. Suas frases preferidas falavam dos deveres dos filhos para com seus pais, Eles se sacrificam por vocês, pensem sempre nisso e procurem compensá-los pelas coisas que deixaram de fazer para lhes proporcionar uma boa educação. Era por aí, pouco espontâneo, anacrônico, não condizia com seus olhos vivíssimos, sempre atentos em tudo, especialmente nas pernas que as saias curtas deixavam ver até acima dos joelhos. À pausa após uma olhada rapidíssima vinha uma recomendação edificante – Eles querem que você consiga mais do que eles próprios conseguiram, os pais são assim, generosos e idealistas em seu afeto.
Os alunos se entreolhavam sem falar, mas todo mundo sabia o que todo mundo estava pensando. No recreio, os comentários corriam soltos e a voz geral era de incredulidade quando às falas do Solano. As meninas eram mais reticentes, e com poucas exceções preferiam guardar certa reserva quanto àquele homem, ainda bonito e insinuante, que parecia se esconder em falas decoradas como um ator. Os meninos escancaravam sua antipatia. Para eles, Solano era um vigarista, um-sete-um, falso que só relógio de camelô. Unanimemente o acusavam de safado, alguns chegaram a chamar o mestre de pedófilo, causando certo mal-estar, Também não vamos exagerar, mas enfim, era dose.
Com o tempo, soube-se que Solano, que era casado e pai de três filhos, era dado a aventuras amorosas. O assunto se espalhou no colégio sem que ninguém ficasse sabendo quem levantara tal lebre. Então o juízo que faziam dele procedia, e quase em seguida se formou uma espécie de comissão para estudar o caso. As conversas se multiplicaram, já se estruturava um movimento liderado pelo Alfredo César, da sétima, cuja finalidade era uma completa devassa na vida do homem. Fizeram tudo tão direitinho que descobriram não uma, mas duas mulheres na vida dele, além é claro da mulher com quem era casado havia vinte e poucos anos e de quem estava se divorciando. Todo moralista é safado, proclamou o líder do grupo, seguindo-se uma onda de protestos e aplausos.
No dia seguinte, o Alfredo César levantou o dedo, durante uma das preleções do professor, e perguntou com ar inocente se um pai que deixa a família por causa de outra mulher e nunca mais dá a mínima pros filhos deve ser assim tão enaltecido. Houve um silêncio geral e Solano o olhou de um modo engraçado – Isso aconteceu com você, meu filho? – e havia uma ponta de ironia na pergunta, ou seria simpatia? Não, respondeu o aluno, mas vejo acontecer com muita gente. Com certeza, respondeu o professor, mas por que vamos julgar uma pessoa sem conhecer bem seus motivos? — Só quero saber se os filhos devem idolatrar esse pai que esqueceu deles por egoísmo – e logo um zunzum tomou conta da sala, deixando o mestre meio vexado e logo um tanto zangado. “Um aspecto ideológico comum a qualquer classe média é a idéia de que os filhos possam ter uma vida melhor que seus pais”, declamou ele. “Essa esperança de que o futuro possa ser melhor que o presente ou o passado – em um contexto histórico que o sujeito avalia – é considerada por alguns autores sua [da classe média] principal marca”. Está na Wikipédia. — Bom, então esses pais deviam ter mais cuidado e ser mais coerentes com sua ideologia, disse alguém da última fileira, e logo outro acrescentou – Eu sei o que é ficar longe do pai que se mandou – e da mãe também, porque a coitada tem que trabalhar o dia inteiro pra aguentar sozinha a barra da casa e da família, enquanto o velho deita e rola com uma guria que podia ser filha dele.
Solano foi ficando avermelhado e fechou a cara, — Creio que vocês estão sendo extemamente desrespeitosos, meus jovens. Pegou suas coisas e saiu da sala sem dizer mais nada. A turma o acompanhou com os olhos até que a porta se fechou atrás dele e todos falaram ao mesmo tempo. Será que pegamos pesado demais? Sugeriu uma garota da primeira fila. Que nada, berraram lá do fundo, ele mereceu! Quem cala consente. Vá ser fingidão assim na sala do diretor.
Gente, disse Sofia, a menina mais charmosa e cobiçada da sala, tenho uma coisa pra contar a vocês – e o silêncio foi instantâneo. Sofia olhou em volta e fruiu a atenção geral – Esse cara já me passou várias cantadas e tentou me pegar lá no vestiário da piscina na semana passada. Uau, fez um coro de olhos bem abertos, conta, conta! Ela se levantou e se encaminhou para a porta. — Eu não. Vou agora mesmo dar queixa dele lá na coordenação. A turma se levantou em massa e foi atrás dela.
Nunca se teve certeza se Sofia disse a verdade ou não.
Quanto a Solano, foi demitido da escola em setembro sem maiores explicações.

(Trecho de Memórias da classe média)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O mar de nosso tempo




Contornados pela luz amarela do sol que sumia, os dois acompanhavam o movimento das embarcações diante dos antigos armazéns do cais do porto, então transformados em galpões usados em eventos esparsos e depósitos de guardados. Era a hora do crepúsculo, que naquele dia não estava particularmente arrebatador. Quando deram conta da presença um do outro, trocaram um sorriso. Ele falou primeiro.
— Já pensou se não existisse o mar? Se não fosse essa massa de água salgada que nos une, alimenta, diverte, refresca e ameaça, estaríamos ainda mais separados sobre o planeta – cada povo em sua terra seca no meio do nada, isolado por fossos abissais, habitando o quê? No mínimo não seríamos os humanos de hoje.
— Não dá para imaginar, ela disse.
— Mas esse mar que a gente está vendo não é o mesmo de Ulisses nem o do caos primordial.
Ela ficou à espera de uma continuação, mas ele caminhou alguns metros pelo cais. Depois voltou e olhou-a com uma expressão de ironia, mas logo sorriu.
— Imagina se no tempo do caos primordial ou na antiguidade grega você ia usar uma calça jeans de joelho desfiado e uma blusa top. No tempo do caos nós seríamos, na melhor das hipóteses, duas jovens amebas de beira de praia. Ulisses andou navegando no meio das sereias, esteve numa ilha em que nada mudava, até não agüentar mais de tédio, e vivia cercado de monstros e ameaças de que só ouvimos falar. Hoje os monstros mais assustadores que se conhecem são os escamosos fabricados por efeitos especiais no cinema. Ninguém mais acredita em sereias, e ilhas da fantasia só existem nas revistas de celebridades.
— Bom, o imaginário pode não ser o mesmo, mas o acidente físico, a massa de água salgada está aí.
— A diferença é que hoje em dia os homens já navegaram por todos os mares, não existem mais mistérios nem ameaças desconhecidas. As ameaças de agora são bem conhecidas... e sem graça. Já esperamos por elas.
Ficaram alguns segundos, talvez minutos, em silêncio.
— Mas ainda hoje existem navegantes aventureiros, ela disse – mais para dizer alguma coisa, porque o silêncio a incomodava um pouco, e também por curiosidade –, e muitas viagens continuam a ser tão ou mais perigosas quanto no tempo de Ulisses. Que é que você faz?
— Eu? Nada. Quer dizer, qualquer coisa. Sou um engenheiro desempregado, navegando no mar do mercado atrás de uma colocação.
— E os monstros são muitos? – ela perguntou, rindo.
— Nem me fale. E esses são de verdade. E você, faz o quê?
— Pinto e bordo, ela respondeu, um pouco provocativa. Estudo tecelagem e pintura. Enquanto isso vendo minhas mantas e uns quadros de vez em quando.
Ele chegou mais perto e olhou seu rosto com muita atenção. Ajeitou uma mecha do cabelo dela que o vento jogava sobre seus olhos e sorriu.
— Que foi? – ela perguntou.
— Nada. Seus olhos são muito bonitos. E por um momento você me pareceu familiar. Como é seu nome? Pode ser que a gente já tenha se visto em algum lugar...
— Penélope. Meu nome é Penélope – ela disse, e os dois ficaram se olhando. Hoje em dia esse nome soa estranho. Meus amigos me chamam de Pepê.
Ele pegou seu braço e quase a forçou a segui-lo.
— Vem comigo. Vamos tomar um café – e correu para pegar uma mesinha que acabara de vagar no deque. Senta, disse afinal, puxando a cadeira e se acomodando a sua frente. Que é que você quer tomar?
Agia como quem se prepara para uma boa conversa.
— Então você se interessa por poemas gregos, histórias da antiguidade e lendas dos mares?
— Bom, não sou entendida no assunto... Gosto dessas histórias porque meu pai tinha uma coleção de poemas épicos e o primeiro que li foi a Odisséia.
— Sim, e aí?
— Como assim, e aí?
— Gostou do livro?
— Claro, por quê?
Ele olhou o mar com uma expressão indecifrável.
“Meu Deus”, ela pensou, “será que estou sentada com um maluco?”
Quando se voltou, seus olhos, antes meio distraídos, estavam intensos, como se quisessem ver alguma coisa que ela não sabia o que era.
— Que coisas a vida nos prepara – ele disse, tão baixo que ela perguntou “o quê?”. Se eu te disser uma coisa incrível, você acredita?
— Não sei.
— Pois é. Também tenho um nome fora de moda. Me chamo Ulisses.
— Mas você não é aquele da guerra de Tróia, é? – ela disse, rindo.
— Ulisses encontra Penélope, que vive tecendo à espera dele diante do mar.
— Coincidência.
— Houve um momento no cais em que você me pareceu uma pessoa íntima, dessas com quem se quer ficar em todas as horas, boas ou más. Alguém pra partilhar a vida, entende, Penélope? Penélope! Que delícia encontrar você – e dizendo isso puxou a mão dela e a beijou.
Penélope se sentia amolecer e tentava conter o calor que lhe subia pelo plexo.
— E você se chama mesmo Ulisses? – perguntou, meio enrouquecida.
— Claro, claro – ele disse, e tirou do bolso uma carteira de motorista. Ulisses Batista Franco. Viu?
Penélope estava hipnotizada.
— E então? Ulisses encontra sua Penélope. Vamos comemorar isso?
Levantou e saiu com ela pela mão.
— Onde?
— Você vai ver.
Não é todo dia que se fisga um homem como aquele. Ainda por cima tinham os mesmos gostos. Seguiram no carro dele até Ipanema, jantaram num restaurante japonês que ela não conhecia, conversaram horas sobre suas vidas, sobre cinema, livros, as respectivas famílias. Saíram para uma cafeteria no Leblon, onde Ulisses se mostrou um entendido em variedades de café e a fez provar os mais deliciosos que ela poderia imaginar. Passearam pela praia, namoraram num banco do calçadão e trocaram um beijo que foi como se suas vísceras se unissem pela boca. Convencida de que tinha encontrado o homem de sua vida, Pepê se deixou levar para a Glória, onde subiram ao apartamento dele, tomaram champanhe e dançaram uns blues sublimes, muito juntos, quase sem sair do lugar, dali passando ao quarto à meia-luz e à cama imensa para uma noite digna da volta de um guerreiro.
Ainda se encontraram três vezes memoráveis nesse mesmo apartamento. Depois Ulisses – que na verdade se chamava Ramiro – sumiu. A carteira, assim como o carro, era emprestada de um primo, o que ela nunca ficou sabendo.
Penélope voltou ao tear e às telas. Pensa nele todos os dias e nunca mais quis saber de outro homem.

sábado, 4 de outubro de 2008

Caso em close



Moema viu Luís Carlos pela primeira vez e se lembrou dele. Só podia ser um atavismo, esse jeito de amar de repente e sem apelação. O tempo transbordava das mãos e se perdia. Era como se devesse decidir a direção dos ventos, a hora das marés e tudo que estava fora de seu alcance. Ficava onipotente senhora da terra e do céu, mas vivia o tempo da flor. E sabia com tanta certeza, meu Deus, quem era ele.
A corrida do tempo já conhecia, mas a história só se repete nas aparências. O importante é o que fica invisível aos olhos, como a carne tenra por trás da pele dura da lagosta. Há tanta coisa que se experimenta e é impossível avaliar. Uma sonata não arruma as estrelas nem as explica, é uma eventualidade que acontece depois que alguém as percebe e é percorrido por sua música.
Ele despertava um sentimento de laços de família. Tentava ser natural com aquele estranho que tornava difícil equilibrar a realidade com sua vertigem. Era como se tivesse estado desde sempre envolvida com ele, esperando sabe Deus desde que fevereiro. O próprio cheiro daquele homem lembrava um passado que se escondia sob o dela. As coisas ganhavam uma espécie de consciência na presença dele. O dia se tornava um tipo de confusa festa em preparo, como quando alguém chega de uma longa viagem. Longe dele tudo era como se preparar para o encontro.
Trabalhavam juntos, um em frente ao outro. Ele chegara depois dela e ocupara um lugar na firma com a naturalidade de quem cumpre um destino. Quando uma presença afeta ou desafia demais, as coisas ganham poder, instigam e corroem. É um sol no meio do mundo. A presença e a ausência dele remoíam Moema. Delirava em sua presença, e era uma amante abandonada longe dele. Todo dia era demais. Ele não podia ser diferente dos outros, e era. Ele era uma transgressão, um ciclo de sol e agonia, um tempo solto do relógio. Carregava um passado que não conhecia, o passado dele. Mas naqueles momentos de carne viva queria esse papel, estava bêbada dele como um profeta misturando dor e prazer na missão que vinha de algum lugar desconhecido embora estivesse dentro dela.
Luís Carlos não manifestava estranheza por ser tratado como se devesse saber coisas que não sabia. Sem conhecer as regras do jogo, não percebia onde e quando deveria mostrar-se mais hábil. Condescendia às vezes e nisso era muito cruel. Tudo que ele dissesse devia ser acreditado, porque o que viesse dele indicava o caminho para chegar a ele. Às vezes tudo ficava muito engraçado, o mundo virava um amontoado de absurdos; tinha senso de humor, e ele percebeu que havia mais a fazer que divertir aquela mulher. Entravam no supermercado na hora do almoço e roubavam biscoitos, enchiam o carrinho de produtos importados que não iriam levar, só para ver a cara impressionada das pessoas. Paravam para olhar os edifícios mais altos quando as nuvens corriam por trás deles, e ela ficava completamente tonta e tinha que se apoiar nele para não cair. Olhavam as vitrines do shopping, faziam planos virtuais, falavam de qualquer coisa, e a voz do outro era um prazer de sobremesa predileta. Viviam acima de todo mal. Iam à lanchonete, andavam pela cidade e de repente estavam de mãos dadas até cair de cansaço num banco de jardim. Um dia esqueceram da hora e pela primeira vez Luís ficou realmente perdido em Moema.
Ela não recusava nada, nem mesmo o lado sombrio da tempestade que havia de vir. Sozinha em casa, ouvia música de fossa e premeditava o sofrimento com uma volúpia quase sublime. Sobressaltava-se pensando em algum erro imaginário que o tiraria para sempre dela, mas para sempre no caso deles acabava no dia seguinte, quando se encontrassem. Tudo tão incerto e até quando. Tentando dormir, premeditava os sonhos que desejava ter, começava a sonhar antes do sono e acendia o abajur para ler um livro qualquer que não chegaria a entender direito, porque seu pensamento perdia as forças, minado pelo desejo. O quarto vazio lhe parecia às vezes hostil, abraçada ao travesseiro, o pensamento concentrado nele. Sozinha, carregava seu segredo de espuma e sal e às vezes tropeçava numa saudade prematura que era como um filho que se rejeita. Sentia-se protegida com ele. Fazia-lhe um pouco de medo, às vezes, porque a atraía como um abismo. Ficava pequena, sem resistência, sensação de queda. Ele falava de modo a não admitir contestação e nunca era prepotente, porque dizia o que ela queria ouvir. Ele seria sempre e só presente. Já o havia amado antes, em algum passado desta ou de outra vida, em outra encarnação em que não acreditava. Não queria promessas, qualquer miragem além da realidade. O toque de sua mão era tudo. Morrer de sua morte. Dois pássaros tontos nas tardes de início de outono, e às vezes lhes doíam palavras de fazer a tarde mais triste. Não sabiam até quando. Não há o que se possa fazer, melhor calar e permitir o gesto, o olhar, o riso. Embora tudo lhes parecesse tão prestes a doer.
Nunca estaria preparada para aquela alegria assustada de perder cada instante para sempre. Um dia pensou que nada sobraria daqueles momentos porque nada lhes faltava. As palavras às vezes viram seu gume contra quem as pronuncia. Viver faz o sentido completo: esse medo adstringente de quem prepara alguma coisa ainda sem nome. Na beleza casual das coisas a que ninguém presta muita atenção, criaram asas para o vôo obscuro e turbulento e se encontraram no pequeno hotel do centro para conjugar-se de vez no incondicional.

domingo, 22 de junho de 2008

A vocação de Dora

A morte desceu sobre a casa dos Angeli cedo demais. Dezesseis anos, saúde aparentemente perfeita, boa forma física, Eduardo era um rapaz inteligente, herdeiro de uma fortuna razoável. Sem qualquer aviso, sem sintomas nem susto, a não ser o que veio depois, quando o susto já não tem qualquer utilidade, Dora, a irmã mais velha, estranhou a demora dele, foi ao quarto e o encontrou caído junto da cama.
Dora tinha um namorado, rapaz estudioso, educadíssimo, prestativo e discreto. Trabalhava com um tio numa empresa de editoração e era um tradutor competente. Ganhava o suficiente para sustentar uma pequena família, mas não ousara ainda pedi-la em casamento porque, antes da morte de Eduardo, esperava que o relacionamento deles se tornasse mais seguro, mais estável, e que Dora desse alguma demonstração inequívoca de querer casar com ele. Sabia que os Angeli eram pessoas conservadoras, exigentes, e não queria se expor sem essa certeza. Mas queria muito bem a Dora, e a insegurança o fazia sofrer. Depois da morte do irmão dela, teve medo de ser inconveniente, de magoar alguém na família, e foi adiando o momento do pedido.
A casa mergulhara na penumbra, e à noite os aposentos ficavam sempre à meia-luz. A mãe já não bordava, não ouvia ópera nem saía mais com as amigas para fazer compras e jogar bridge, uma verdadeira tradição preservada há mais de dez anos. Não dava ordens às empregadas, não se interessava pela lista do mercado, não ligava para ninguém. O pai andava como um sonâmbulo, esquecido de seus negócios e dos amigos do clube. Dora não saía mais, olhando os retratos no aparador da sala e na lareira.
Passou a missa de sétimo dia, igreja cheia, os três no primeiro banco chorando em silêncio. Passaram a de trigésimo dia, a de três meses, a de seis meses. Passou a missa de um ano e a vida não voltou ao normal. O pai perdia dinheiro em negócios fechados sem sua interferência. A mãe se tornara melancólica, doentia e sem sono, sempre de olhos inchados e distantes.
Dora passara a tratá-lo como se fosse um amigo de ombros largos e peito quente onde podia chorar e cultivar sua dor. Waltinho sofria com a transformação, mas não reclamava. Sentia falta dos beijos na varanda, que pareciam em extinção. Deixara de ir à faculdade e dera para assistir à missa todos os dias às sete da manhã. Waltinho não tinha nada contra a dor, mas tinha muito contra a igreja e a missa – Dora desconfiava que ele fosse maçom – e se chateava com a interrupção dos estudos dela. Numa tarde, depois de um chá meio aguado e morno que a empregada servira na sala, Dora lhe comunicou a decisão de entrar para o convento.
Waltinho se sentiu escorregar da cadeira e teve que se empertigar para recuperar o equilíbrio. Tentou argumentar, gaguejando um pouco, o que lhe acontecia toda vez que se sentia muito embaraçado ou tenso.
— Mas afinal, disse ele, em que século você pensa que nós estamos? A algumas décadas do terceiro milênio, e você quer — nem terminou a frase.
Ela deixou a xícara sobre a mesinha de centro.
— Você também não é um rapaz moderno, não pode estranhar tanto assim minha decisão. Além disso é bastante sensível para entender. Não acredito mais na felicidade deste mundo.
Waltinho tentou mudar o tom da conversa.
— Olha, Dora, quem morreu foi seu irmão. Eu sei que foi uma perda irreparável...
— Vi meu irmão crescer, tinha tanto orgulho dele, tanta esperança...
— Sei, eu sei. Mas a vida tem que continuar. Você é muito moça, merece viver, ser feliz. Isso não o traz de volta. E nós dois, como é que ficamos?
Waltinho se irritava com aquele luto eterno. Voltou para casa arrasado. Ia perder Dora. Mas se isso tinha que acontecer, que pelo menos fosse para outro homem ou para uma opção de vida que não aquela coisa de convento.
Foi ao se deitar que um lampejo inesperado o fez saltar da cama e pegar o telefone.
— Alô, é Cíntia? Podemos nos ver agora?
Tornou a se vestir e saiu rumo à casa da ex-namorada. O que eles conversaram não se sabe. Mas alguns dias depois o celular de Waltinho chamou com o toque que ele bem conhecia.
— Que foi que aconteceu? Você sumiu...
Silêncio.
— Waltinho? Você está me ouvindo?
Demorou a responder, e quando falou foi com uma voz quase risonha.
— Ah, Dorinha! É você. Estou te ouvindo sim.
— É verdade que você saiu com a Cíntia?
— É, saí sim. Nós reatamos, Dora.
No dia seguinte se encontraram a pedido dela. Mais que pedido, uma súplica com lágrimas e tudo. Dora o cobriu de carinhos e perguntas. Tinha voltado a ser a namorada de antes. Marcaram o casamento para dali a dois meses.
O que Dora não podia suportar – e Waltinho entendeu de repente, naquela noite em que ela o dispensara com a história do convento – era perder alguém. E como ele estava vivo, tinha uma vantagem sobre o irmão.
Dora e Waltinho tiveram três filhos e completam amanhã quarenta e cinco anos de casados. Na cômoda do quarto deles, o retrato de Eduardo permanece jovem e sorridente.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Oh Deus



Oh Deus, tira essa figura inimiga de dentro de mim. Esquizinha me atrapalha muito a vida. Ela pensa diferente, entende?
Quê? Se ela sair de repente eu caio quebrada em duas, metade pra cada lado? Mas se você me ajudar eu chego junto. Você não tem nada com isso? Como não tem? Então eu acredito em você e você não tem nada com isso? Misturando as coisas, eu? Mas se eu vivo misturada com ela, eu puxo pra um lado e ela pro outro! Cacilda, você não é onipotente? Hein?
Ah, isso é jurisdição do psiquiatra? Ele não é onisciente que nem você. E se ele erra a mão? E se me enche de remédio e eu fico lesa? Você nem se incomoda? Me livra dela, deus, me livra dela.
Ah, ela também é sua filha? E ela não quer se ver livre de mim que nem eu dela? Hein, Deus? Fala com ela então. Eu tapo os ouvidos, não vou me meter na conversa, juro.
Ela não te ouve, né? Tá contente da vida, acomodadinha aqui ni mim, bem no quentinho. E eu tentando arrastar a bicha pra fora, pra tomar ar, inventar coisas novas, e ela ali, numa boa vida de fazer raiva, me puxando pra dentro. Ela quer que eu enferruje, percebe? Quer me zerar pra poder reinar sozinha.
Tá bom, Deus, se você se recusa a fazer a cirurgia, vou ter que continuar arrastando Esquizinha pra todo lado, e ela vai continuar me azucrinando as idéias, reclamando de tudo, azedando as conversas e tentando me convencer a ficar em casa lavando e cozinhando. Ela é machista, você sabe.
Uma curiosidade: se você me separasse dela, com qual das duas ficava o meu marido?

terça-feira, 17 de junho de 2008

Corola

A rua estava inusitadamente quieta naquela manhã, como se os habitantes da cidade houvessem tirado férias coletivas. Seria uma boa oportunidade de caminhar sentindo o sol ainda morno àquela hora, no melhor do verão, mas não estava muito disposta. Tinha sono, a noite fora inquieta e cheia de sonhos que mal terminavam davam início a outros. Entrou numa lanchonete nova, perto da esquina de sua rua, e pediu um suco de pêssego com gelo. Tomou-o em pequenos goles, deixando que o sabor se espalhasse devagar na boca, olhando as pessoas, agora mais numerosas, como se não tivesse nenhum compromisso, inventando uma ficção. O frio da bebida esôfago abaixo despertou nela alguma sinapse adormecida até então. Pagou o suco e saiu, olhando as vitrines e o movimento da rua.
Tinha a sensação de guardar um segredo, a semente ainda fechada de algum desejo que ela mesma não identificava. O suco era filho da sede, do dia inexplicavelmente leve, do discreto delírio em que vivia desde a madrugada. Era o concentrado de uma fruta vinda da terra, de dentro de algum lugar invisível para os homens, assim como tinha consciência de ser ela mesma, naquele momento. O sabor do pêssego a levava de volta aos tempos da casa da avó, a uma das sobremesas infalíveis nos dias de festa. Mas quase de surpresa a lembrou de um restaurante no centro da cidade, grandes painéis antigos pintados em tons azulados no alto das paredes, e essa lembrança iluminou o resto de seu dia. Uma nostalgia divertida trouxe de volta o amigo descolado que a acompanhava naquele dia, o sorvete que haviam tomado, e depois do sorvete o refrigerante, um café, uma volta pelo parque em frente e...
Uma freada violenta desfez as imagens da memória. O carro girou no meio das pistas, deslizou junto ao meio-fio do outro lado da rua, embicou em sua direção ziguezagueando e por pouco não virou sobre as rodas da esquerda. Parou de encontro a um poste bem próximo. Juntava gente que vinha correndo e esbarrava nela. Estava bem ao lado e viu de relance que não havia feridos graves: eram três dentro do carro, só o motorista machucara um pouco o rosto, mas não era sério; o pára-brisa estava intacto.
Seguiu seu caminho, agora com pressa, como se de repente se lembrasse do horário de trabalho, do que a esperava sobre a escrivaninha branca com um botão de rosa amarela na jarra, da cara do chefe vendo-a chegar fora de hora. Mas quase simultaneamente o mundo sofreu um abalo. As pessoas ficaram distantes. Um frio sem explicação circulou de repente entre os corpos em movimento e os rostos se tornaram sombrios. Apertou o passo ainda mais, como se quisesse ficar fora daquela súbita neblina invisível e úmida que a impregnava até os ossos sem que o sol de verão tivesse deixado de brilhar. Desejou intensamente estar na sala de trabalho, ver os colegas, ouvir suas vozes, receber o cotidiano olhar tão eloqüente que um entre todos reservava para ela e era como uma confissão.
Teve vontade de se benzer; a imagem um pouco vaga do Deus de sua infância ameaçava surgir de trás de alguma nuvem no mais alto dos céus. Precisava muito de consolação. Voltou-se mais uma vez para olhar de longe o ajuntamento em volta do carro acidentado, viu que algumas pessoas esticavam o pescoço e outros já se dispersavam. Entrou num ônibus que parou a sua frente. Só depois iria conferir se ia no rumo certo, mas naquele momento qualquer coisa que a tirasse dali teria servido. Olhou a rua pelo vidro traseiro e só então deixou que se manifestasse a sensação de ter escapado de um terrível perigo. Então passou pela roleta apertada levantando a grande bolsa de couro e se equilibrou até um banco no meio do ônibus onde havia um lugar, apesar de várias pessoas viajarem de pé. Examinou o assento com discreta atenção, não fosse sentar-se em cima de uma sujeira qualquer com a saia rosa pêssego, mas o assento estava limpo, bem limpo até para um banco de ônibus, e ela se acomodou com a bolsa no colo para começar a outra viagem que fazia sempre a bordo de algum veículo.
Entrou mentalmente pela sala de trabalho e encontrou algum indesejado imaginário em sua mesa falando ao telefone. Era como entrar em casa e encontrar um estranho sentado na sala comendo pipocas diante da televisão. Não estava sendo uma viagem agradável e isso a desgostava, porque era um vício inocente esse de imaginar histórias durante a ida e a volta do trabalho. Não era justo que só conseguisse pensar sobressaltos, instigada por um sentimento parecido com a morte que a envolvia e não a deixava retomar o controle dos pensamentos. “Que será isso, meu Deus”, pensava aflita.
Depois olhou para fora e viu as vitrines de todos os dias em seus lugares de sempre. Entendeu que as coisas reais têm um modo próprio e secreto de ser que não entenderemos nunca e que nada tem a ver com o que nos parece, embora sempre nos pareçam de algum modo diferentes a cada vez que as vemos e experimentamos. E que talvez seja melhor conceder um pouco mais ao que está do lado de lá para sentir-se menos responsável ou menos ferida, mais liberta, capaz de ver e sentir com alguma isenção. Porque já chega ter que conviver com a rotina e o desencanto das lembranças, e ter que existir como uma corola que teima em não se fechar e fica recebendo o mundo no coração.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A terapia de Nestor

Nestor chegou cansado. Vinha do hospital público, tinha passado em casa do Pinheiro, paciente de quase dez anos de análise, psicótico manso, triste e riquíssimo, responsável por um terço de sua renda. Ligou a cafeteira, olhou a correspondência; quase tudo contas, como acontece a noventa e nove por cento dos mortais. Entrou no banheiro, fez um xixi aliviador, lavou as mãos, o rosto, tirou o jaleco e parou na bancada que servia de copa-cozinha para tomar um café. Acendeu um cigarro e começou a ouvir o falatório dos operários da obra de manutenção da fachada. Faziam muito barulho, falavam sem parar. Pretendia trocar aquelas janelas que deixavam passar o som e o impediam de atender com a devida concentração. Os cheiros de tinta e solvente também entravam pelas frestas mal vedadas, atrapalhavam o ambiente neutro e embalador de que precisava para trabalhar em paz.
Ligou o ar-condicionado, que não resolvia o problema. Pensou em chegar à janela para reclamar, mas achou que só ia piorar a situação, despertando a má vontade dos caras. Depois, estavam trabalhando lá na tarefa deles, nada impedia que falassem para aliviar a tensão daquelas horas num andaime sem nenhuma segurança.
Mas a hora avançava, quase três e meia, hora do Lauro, seu paciente mais recente (já era tempo, seis meses sem aumentar a clientela).
Na verdade, as pessoas vêm quando já não agüentam a pressão, mas fora os pacientes de fé – que são como os poetas, raros e preciosos – e alguns poucos afortunados que não se preocupam com tempo e dinheiro, os outros, os adventícios, vêm um pouco a contragosto.
Embevecido nesses pensamentos, não percebeu logo o ruído excessivo. O que seria aquilo? Entre as vozes alteradas, ouviu golpes violentos que vinham de fora e logo uma régua de alumínio se soltava e um pé de cabra apareceu a seus olhos incrédulos. Pegou o telefone e discou um, nove, zero, mas ninguém atendeu. Foi até a porta e abriu a chave de segurança que havia fechado. Ganhou o corredor e desceu pelas escadas mesmo, de dois em dois degraus. Lá embaixo, os porteiros conversavam alegremente e o segurança do prédio não estava à vista.
- Estão entrando no consultório pela janela, avisou, acelerado, mas os homens o olharam como se não houvessem entendido. Repetiu mais alto, e o chefe dos porteiros levantou de seu banco por trás da recepção.
- Ele disse que estão entrando pela janela, explicou o Cícero, com forte sotaque nordestino.
- Quem? – perguntou o chefe.
- Imagino que seja um ladrão, disse Nestor, impaciente. Meus clientes não costumam entrar desse jeito.
- Vou chamar a patrulha, disse o chefe, correndo para a porta.
Veio a patrulha, dois guardas subiram de arma em punho e umas moças que saíam do elevador correram dando gritinhos. Juntava gente na porta do prédio. Nestor então se lembrou de sair e da calçada olhar a janela forçada. O andaime estava vazio e a janela parecia intacta. Tornou a entrar e subiu os dois lances de escada, mas os policiais desciam de volta.
- Tinha alguém lá dentro? – perguntou o analista, desconfiado.
- Lá dentro, onde? – quis saber um dos guardas.
- Ora, no consultório...
- Que consultório? – disse um dos PMs.
- No corredor não tinha ninguém, disse o outro. O moço aí da portaria falou que...
Nestor ia explicar, mas preferiu conferir pessoalmente. Entrou e viu o Lauro na sala de espera. Devia ter entrado pelo elevador dos fundos. Abriu a porta do consultório e tudo lhe pareceu em ordem. Foi até a janela. Os operários tinham voltado ao andaime e trabalhavam calados. Um deles lhe lançou um olhar ressabiado e logo outro parou o que estava fazendo e se dirigiu a ele.
- O senhor desculpe, doutor, a gente conserta a janela. Foi sem querer, pode acreditar.
Entendeu então que os golpes e o estrago na esquadria não tinham passado de um erro, provavelmente uma distração de um dos caras, mais desastrado, que não olhara onde estava batendo. Ainda quis perguntar quem fizera aquilo, mas não quis agravar o mal-estar.
- Mas dá um jeito nisso, porque assim minha janela ficou destrancada e você sabe, com tanto ladrão solto por aí...
O homem tratou de remendar a janela como pôde. Não chegava a ficar perfeito, mas ao menos dava a impressão de estar trancada. Despediu-se rapidamente do rapaz, que parecia muito jovem e frágil, pensando na vida que ele devia levar. Chamou então o paciente e esqueceu da janela, porque os homens não incomodavam mais.
No dia seguinte voltou às duas, doido pelo café de depois do almoço. Entrou de um jato e estacou diante da porta do consultório. O computador tinha sumido. A impressora também. O fax. O som. O ar-condicionado deixara um buraco acima da janela, cujo lado esquerdo estava escancarado. A cafeteira, a lata dos biscoitos, a estatueta de mármore da estante e a jarra de cristal da mesinha. Olhou para a escrivaninha, afastada de seu lugar no canto junto à janela: as gavetas estavam no chão, reviradas, e o cofre tinha desaparecido do fundo falso por trás do móvel.
Desenvolveu toda uma linha de deduções, analisou todas as possibilidades, ajudou nas investigações policiais, pesquisou por conta própria, e descobriu – não o ladrão, mas uma vocação até então insuspeitada. Prepara o lançamento de seu quarto romance policial. Ano passado deixou o consultório e não sai da lista dos mais vendidos.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Doce ultimato


Foto H. Cartier-Bresson.


— E então? – perguntou Luana, assim que ele chegou.
Lopes olhou para ela como quem tem muita coisa a dizer, mas não disse nada. Chamou-a para irem à cafeteria de costume, na torre do shopping, ela ansiosa, ele um pouco misterioso. Mas logo que sentaram para conversar ele sorriu.
— Está tudo bem, garantiu. Ele entendeu.
— Entendeu? Como assim? O que foi que ele disse?
— Que sim, que entendia, que essas coisas podem acontecer...
— Logo que você falou? O que foi que você disse a ele?
Lopes franziu a testa e acendeu um cigarro.
— Eu só expus a situação, o que estava acontecendo entre nós. A princípio ele ficou calado, sério, e eu pensei que fosse reagir mal. Mas uns minutos depois começou a fazer perguntas.
— Perguntas? Que perguntas?
— Ah, bobagens, banalidades... Eu até estranhei a reação dele, mas depois percebi que estava ganhando tempo para se controlar.
Luana desviou os olhos para um ponto indeterminado. Parecia meio decepcionada e ele notou.
— Pensei, disse ela lentamente, que fosse ficar bravo, enlouquecido, furioso. Ele é mesmo imprevisível. Estamos casados há onze anos. Sempre pensei que fosse louco por mim...
— Estão casados?
— É, quer dizer, ainda não nos divorciamos, você sabe.
Lopes apagou o cigarro com uma ruga na testa.
— Se você quer muito saber, acho que ele ainda é mesmo louco por você. Ficou falando abobrinhas enquanto eu esperava uma resposta mais clara, uma solução para o impasse...
— Impasse? Você chama nosso caso de impasse?
Ele sorriu de leve e teve vontade de beijá-la ali mesmo, mas se conteve.
— Não, bobinha, não estou falando do nosso caso, estou falando da situação. Ele demorou a se definir, acho que não queria bancar o troglodita. Ou então segurou a onda pra não parecer um fraco, manter uma atitude digna. Houve um momento em que pensei que ia desmontar, ficou de cabeça baixa...
— O Luan? – Ela perguntou com um leve sorriso.
— O Luan. Ficou parado olhando para o chão como quem procura uma saída. Mas depois voltou a me encarar e começou a falar da vida de vocês, de como andavam distantes ultimamente.
— Culpa dele, que está sempre viajando para o pai, tratando de negócios em outros países. Deus sabe quantas vezes desejei um homem perto de mim...
— Agora você tem um em tempo integral.
Ela ignorou a dica.
— Mas foi só isso que ele disse?
— Quase só isso.
Outro silêncio embaraçoso.
— Eu devia ir ao encontro dele, você não acha?
— Se você acha que deve, vá – Lopes respondeu de cara fechada.
— Tenho que voltar lá para pegar minhas coisas, tomar minhas providências.
— Claro. Quer ajuda?
— Pode parecer afrontoso voltar lá com você para fazer a mudança. Não quero que ele fique ofendido, magoado. Chega a separação, que ele nunca esperou. É, tenho que conversar com ele, afinal ainda é meu marido.
— Ainda? Me diga uma coisa, você está arrependida?
Durante uns segundos, houve um silêncio cheio de ambigüidade. Depois ela olhou nos olhos dele e fez um afago em sua mão.
— Você é o homem mais inteligente e mais sensível que já encontrei em minha vida. – E levantando-se acrescentou: — Te ligo mais tarde.
Lopes pagou a conta e foi ao cinema. Precisava muito de um happy end.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Tudo para dar certo

O anúncio dizia bem claramente: experiência mínima de um ano. Tinha até mais. Graduação completa, inglês fluente. Boa aparência. Boa aparência? O espelho dizia que sim. Tinha sim. Discreta, até classuda, que é que eles iam querer mais?
Entrou no ônibus com o moral elevado, salto alto, cabelos pra cima, nariz e tudo mais de direito devidamente arrebitado. Pontualidade, atenção. Discreto perfume natural, nada de cheiros bulímicos. Nem vinte minutos viajando, tão perto, que sorte. O corredor entre as divisórias, a luz fria, o vidro das baias vazias. Ninguém ainda, muito cedo. O segurança apontou a cadeira junto à bancada do computador mais próximo e fez um sinal para que aguardasse. Olhou para cima, para os lados, para o chão. Ambiente moderno, clean, cinza e aço, móveis claros, azul mortiço nos estofados. As estantes embutidas, janelas enormes, o ar já frio demais àquela hora.
Em sua cabeça começava uma espécie de pingue-pongue sem mesa e sem rede, em que a bolinha zanzava pra todos os lados quase sem tocar as raquetes. Endireitou-se bem na cadeira, não fosse agora perder o controle da situação. Aliás, que situação que nada, aquilo devia ser um teste. Imaginou que alguém estaria espiando, procurou câmeras pelos cantos, nas luminárias do teto, nas esquadrias. Algum desses vidros espelhados que as delegacias têm para que a vítima reconheça seu algoz sem ser vista. Olhou de novo em volta, dessa vez à procura do homem de terno azul escuro. Que tinha sumido, se esvaído, na certa lá na porta da rua, na portaria, à espera de outros candidatos. Candidatas. Serviço pra mulher, só deviam aparecer...
Entra na sala uma mocinha com cara de caipira, ela ainda vê a mão de punho branco do segurança. A mocinha dá uns passos e se dirige à cadeira da outra ponta da bancada. Fica de lado para ela, que dá de ombros. É bonitinha, tem um jeito meigo. Mas vai ver nunca trabalhou.
Depois da mocinha, entraram duas mulheres maduras, louras de farmácia, saias muito curtas para o estado das pernas, pneus marcados dentro das blusas muito justas. Daí em diante os candidatos foram chegando aos magotes, e ela era apenas um olhar crítico examinando os rapazes, jovens ou bobos demais; a moça de enormes argolas e tatuagem na nuca (ainda não sabe que não se vai procurar emprego com tatuagem aparecendo, coitada); a senhora de cabelos grisalhos, cara de aposentada, talvez muito idosa para ser aceita. Não se sentia ameaçada por aquela gente. Muito menos pela mulher de mechas descoloridas e unhas pretas, enormes garras e gestos vulgares, equilibrando as ancas sobre saltos quinze.
Continuou sentada, costas retas, ombros para baixo, só os olhos em movimento. Cruzara as pernas e balançava a ponta do pé num movimento discreto e ritmado. Uma ligeira náusea se instalava em seu plexo e ela suspirou. Agora entrava um homem, um cara tão alto que foi preciso esperar um pouco para conseguir ver seu rosto. As pessoas se retraíram, fez-se um silêncio mais acentuado quando ele passou. Imaginou que devia ser algum figurão perdido por ali. Não tinha cara de candidato a emprego, muito menos de secretário. Mas teve que reavaliar o bonitão depois que viu em sua mão bem desenhada um envelope com uma etiqueta de letras nítidas: Hélio M. Siqueira – Curriculum Vitae.
Além de vistoso, o rapaz era comunicativo, e foi logo puxando assunto com uns e outros. Fazia comentários, reclamava da demora, ouvia atentamente o que cada um dizia e acabou por conquistar a simpatia de todos. Com isso o tempo pareceu passar mais depressa. Ainda bem, porque chamaram os candidatos por ordem alfabética, e Zilah – era esse o nome dela – saiu do prédio horas depois.
Os cabelos tinham perdido a linha, os pés doíam e o perfume há muito tinha sumido do corpo e da roupa. O estômago agora se ocupava de consumir a si mesmo, e a pose estava desfeita. Arrastou-se até sua casa e pôs para esquentar o feijão da véspera e o arroz que preparara de manhã, antes de sair para a entrevista. Fritou dois ovos e sentou para almoçar.
Enquanto satisfazia a fome, ia pensando. Um homem como aquele devia aparecer na vida de uma mulher como uma promessa, uma paixão à primeira vista. Mas não. Tinha que aparecer para competir, para tirar dela a chance que já considerava ganha, com tudo pra dar certo. Lavou o prato e os talheres sentindo-se um lixo. Escovou os dentes, tirou o sutiã e deitou no sofá da sala para olhar um pouco a tevê, mas adormeceu.
Sonhou que Hélio M. Siqueira era uma espécie de observador encarregado de passar à chefia uma primeira impressão sobre os candidatos. Não havia câmeras nem vidro espelhado de delegacia, mas Hélio dava conta desse serviço. No sonho, ele a indicava como a melhor figura e a melhor atitude dentre os pretendentes. Falava de sua aparência cuidada, dos modos polidos e da postura correta que mantivera todo o tempo. Num desses redutos obscuros que os sonhos engendram, Hélio e sua mãe eram a mesma pessoa, usando as mesmas palavras que tinha ouvido tantas vezes nas conversas da adolescência. Isso facilitava enormemente as coisas, porque além de conquistar o cargo, sentia crescer a atração e a confiança naquele homem ambivalente, que no momento indicado voltou a ser somente Hélio M. Siqueira e olhava para ela com olhos de gula.
Acordou lânguida e úmida, com o telefone tocando.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Pavana da velha senhora


Wdrum. Decoração. 1997.


Agora tudo nos lugares e ninguém para desarrumar. Da porta de entrada até as poltronas, o piso lustroso de desenhos bonitos que um dia temera tanto ver arranhado. Os cinzeiros no lugar certo, os pés da mesinha bem alinhados com o sofá. Os badulaques do lustre desenhando triângulos no teto em nítidas linhas de luz. As cortinas ameaçam uma solenidade despropositada. O espelho alto traz para dentro a vista da janela – a lagoa, o verde, o céu cruzado de improvisos.
Examinou o rosto com cuidado: as imagens do espelho guardam sempre um traço de falsidade, mas a pele cansada estava nítida. Uma senhora extraordinariamente respeitável, no entanto; bolsas debaixo dos olhos, sorriso impassível. Um certo ar de enigma lhe cairia bem, mas já não havia motivo para isso. Em lento desconsolo, os ombros descaídos, notou entre o corpo que envergava e a imagem uma nota dissonante, e foi como se alguém a olhasse no fundo dos olhos em um momento crítico.
Pratas e cristais a sua volta se tornaram presenças agravantes, como se lhe virassem a cara. Não há de ser difícil conseguir a paz, tentou convencer-se a caminho da janela, e teve a sensação de pisar sobre pequenas flores murchas. A tarde ia escurecendo ligeira, numa dança de luzes e trevas, e uns sons abafados chegavam a seus ouvidos.
Lembrou de tanta coisa de repente – as lutas sem fim, as crianças, os adultos em que haviam se transformado, uma certa indiferença nos olhos deles – agora com certeza não mais os mesmos. Onde estariam nessa noite de sábado?
Pouco importaria a quem quer que fosse se a casa estava ou não arrumada. Nem mesmo a ela. Mas era preciso tentar.
Entreabriu a vidraça. O ar novo no rosto e a súbita fisgada romperam o equilíbrio precário, construído como um mosaico de peças trazidas de fora, que não respondiam a nenhum de seus apelos. Cravou os olhos no lado mais escuro do céu e se aprumou diante da noite. Um vento indiscreto e atrevido ameaçava seu penteado.
Voltou para dentro da sala. Do sofá olhou devagar para tudo, lembrando o tempo em que a sala não parava arrumada, o espelho respingado, marcado de dedos, até uma boca de batom tinha encontrado. A indignação daquele dia era uma lembrança alegre. O tapete, a franja sempre embaraçada, a ponta virada. A luminária de opalina em mil cacos. A cortina comprida com os fios da barra repuxados pelas unhas da gata Clotilde, os olhos fosforescentes no canto escuro junto ao sofá. As paredes, ora acetinadas em creme, naquele dia encardidas, manchadas de mostarda do sanduíche de Marquinhos, dedos sujos de tinta de carimbo do jogo de Maria Isabel.
Tinha afinal alcançado a perfeição sonhada durante todos aqueles anos. Mas tinha sido há tanto tempo...
As lágrimas lhe desenharam linhas sinuosas e negras rosto abaixo.

domingo, 1 de junho de 2008

Reencontro

Naquele dia, precisava assistir ao jornal das quatro, que ia transmitir uma entrevista do Cosme, meu amigo dos tempos heróicos de faculdade. Naquele tempo Cosme era um adolescente muito magro, moreno, descendente de índios do Amazonas. Filho de um deputado amazonense, viera estudar no Rio de Janeiro por conta própria. Não aceitava as idéias do pai. Era rebelde, inquieto, os olhos negros rasgados, um líder natural que redesenhou boa parte da história de vida de seu grupo.
Sabia que ele estava encarregado da curadoria do MAM carioca (sempre tinha sido um aficcionado por cinema, que conhecia e curtia como ninguém). Naquela tarde, pude ver que tornara um caboclo cheio de corpo, de barbas grisalhas. Não seria justo deixar de vê-lo, não aproveitar até o fim a meia hora em que ele falava de sua posição e de suas atividades. Porque talvez ele não vivesse muito mais. Ou talvez eu não tivesse muito mais para viver. Nossas vidas tinham tomado rumos tão diferentes, que seria bem difícil nos encontrarmos de novo para um daqueles papos de mesa de bar depois do cinema ou para uma das discussões eletrizantes dos tempos da FNF.
Por tudo isso, cinco minutos antes das quatro horas saí furtivamente de minha sala, deixando para trás alguns textos urgentes e um telefone sem resposta. Subi pelas escadas para não encontrar ninguém e entrei clandestina na sala da associação de servidores da empresa onde trabalhava. Era a homenagem mínima que poderia prestar à antiga amizade que tinha mudado tanta coisa em minha vida. Uma pequena rebeldia, diante de tudo que ele havia feito, do que tinha sofrido no DOI-Codi durante aqueles dias sombrios, de sua coragem para livrar a cara dos amigos.
Tive sorte, a porta estava sem chave. Fiquei de pé diante da tv me deliciando com o sotaque meio cantado, o olhar direto, a crítica um pouco ferina com que respondia às perguntas meio canhestras da jornalista. Apesar de tudo, conservava um traço da antiga doçura, que só quem conviveu com ele saberia identificar. Nunca me arrependeria da desobediência, ainda que tivesse me prejudicado de algum modo.
Um mês depois recebi a notícia de sua morte.

sábado, 31 de maio de 2008

Um mecanismo tão delicado

"Contei pra minha colega, patroa boa é assim" –, disse ela, com um pequeno trejeito de boca, e Lenita não disse nada, mas sorriu um sorrisinho de Mona Lisa.
Graciete então desviou os olhos e procurou um ponto de apoio que a socorresse.
O Natal se aproximava. Graciete ainda não tinha um décimo-terceiro para receber; Lenita, a patroa, imaginou que seria útil para ela ter um dinheirinho extra, e no dia anterior lhe dissera, colocando em sua mão uma nota de cinqüenta: "Toma, é pra você comprar uma lembrancinha". Só isso. Tão pouca coisa, e agora vinha essa bobagem de "contei pra minha colega", como se tivesse essa importância toda. Cheirava a babujice, hipocrisia, e se havia coisa que ela não suportava era hipocrisia. Tinha despedido a última ajudante por causa disso: ficava fazendo mesuras, babando a seus pés o tempo inteiro, e trapaceava na hora de trabalhar, deixava as tarefas pela metade, limpava só onde se via. Fingimento puro.
Graciete voltou para a cozinha e abriu a porta do armário para pegar o óleo e o sal. A meio caminho parou com o saleiro na mão direita e a garrafa de plástico na outra. Os movimentos ficaram lentos como se tivesse desanimado, como se alguma coisa a travasse. Ficou assim um bom minuto, pensativa, e de repente sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Engoliu a saliva com certa dificuldade. Olhou para o relógio e continuou a trabalhar, porque já estava ficando tarde e o almoço não podia sair atrasado, o doutor Gérson tinha hora para voltar ao escritório.
Droga, por que essa coisa agora? Quando tratou o serviço com dona Lenita, três semanas antes, achou que tinha encontrado a casa ideal, a patroa dos sonhos. A moça era simpática, educada, ofereceu logo um café que tinha passado na hora. O apartamento bonito, claro, tudo novinho. Imaginou como seria bom trabalhar ali, inda mais depois que conheceu o patrão, novo ainda, tratando empregada como uma pessoa da casa.
Agora isso. Sua alegria tinha murchado como um balão diante daquele sorrisinho de Lenita. E nem ao menos podia pedir as contas, que nem contas tinha pra pedir.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Alice

A paz do lugar para onde mudara induzia a refletir. Nunca se cansava de acompanhar os vôos dos pássaros e a dança dos galhos e folhas, que lhe pareciam meio mágicos. Na verdade era uma atração desproporcional à singeleza dos acontecimentos. Mas o que mais atiçava sua imaginação era mesmo a vizinhança, famílias que pareciam ter uma vida rotineira, mas de vez em quando davam indícios de que, por trás de tanto sossego, talvez os acontecimentos não fossem tão pacatos quanto o dia-a-dia do lugar.
O filho do senhor do terceiro andar do pequeno prédio vizinho, por exemplo, aparecia de vez em quando, sempre muito tarde da noite, acompanhado de uma mulher muito esbelta, cuja silhueta dava impressão de ser bem mais jovem que ele. Alice, sua própria mulher, classificou laconicamente a moça de “perua engomada”. Curiosamente, o barbudo rapaz e sua acompanhante não entravam no apartamento do pai dele, e sim no apartamento de baixo, ainda vago. O casal entrava discretamente, com muito cuidado para não se deixar ver, e saía horas mais tarde, às vezes pouco antes do amanhecer.
Com sua insônia habitual e uma varanda de vista estratégica, ele acompanhava seus movimentos sem ser visto. Deduziu que na certa o filho do vizinho estava tendo um caso com a moça e não desejava aproximá-la do velho.
— Só não entendo – comentou certa vez com Alice –, é por que não vão a um hotel do Rio, onde moram, em vez de vir para tão longe.
Ela fez sua expressão mais marota.
— Ora, ora, você está mesmo ficando fora de forma – disse. Não te passa pela cabeça que aqui é o lugar onde mora o pai dele, e por isso ele tem um álibi perfeito para ficar indo e vindo a esse lugar? Ninguém pode estranhar, nem mesmo a mulher dele...
Olhou-a com muda admiração. E enquanto a olhava, lembrou muito nitidamente dos anos em que ela visitara a mãe em Arraial do Cabo com admirável assiduidade, chegando às vezes a passar dias em sua companhia, enquanto ele ralava na empresa de transportes que havia herdado do pai. Uma pergunta chegou até seus lábios, mas achou melhor não a articular, e preferiu mudar de assunto.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Epaminondas e seu Coisa



Epaminondas foi detetive particular. Hoje é um desses velhotes magrinhos, de olhar esperto a que nada escapa. Mora num edifício de classe média, parecido com tantos outros de tantos bairros do Rio. Confortável, mas sem luxo, e com uma garagem que obriga às vezes a manobrar para retirar um carro que fica preso por outro. Dos quatro porteiros, três são manobristas. O quarto, o famoso pau-pra-toda-obra, acumula as funções de faxineiro e jardineiro. Não dirige, mas rende o porteiro-chefe na hora do almoço ou em qualquer necessidade. Durante esses períodos, o condômino tem que ser chamado para retirar seu veículo, se for necessário.
Parece simples questão de bom senso. No entanto tem sido fonte de desentendimentos. Seu Coisa, da cobertura, implica com o porteiro-faxineiro, que é um pouco lerdo. Se alguém precisa sair e seu Coisa é chamado, reage com irritação e se nega a descer, alegando que o edifício tem manobristas. É de opinião que todo porteiro tem por obrigação manobrar os carros, e quem não o faz deve ser demitido e substituído por outro que possa dirigir. Quando alguém mencionou o desacerto que seria para o rapaz ficar sem emprego, deu de ombros com ar superior. Não era problema dele.
Seu Coisa leva muito a sério a hierarquia social. Segundo costuma afirmar diante de todo mundo, tirando ele, sua família e seus amigos, o resto é o resto. Também não se acha na obrigação de cumprimentar vizinhos no elevador ou nas áreas de circulação. Já o ouviram declarar que o fato de ser vizinho e morar no mesmo prédio não quer dizer nada, já que não se sabe de que buraco terá saído o fulano nem que espécie de gente ele é.
Seu Coisa não tolera barulho de criança, e como não existe um playground no edifício, acha que devia ser proibido deixar crianças à vista na ampla área de entrada. Brincando então, nem pensar, é reclamação na certa, ainda que do regulamento não conste qualquer proibição desse tipo.
De tanto presenciar o comportamento do vizinho – que acabou arrastando dona Maria-vai-com-as-outras do sétimo e o doutor Ib do quinto andar, um neonazista que parece ter engolido um cabo de vassoura e viver com torcicolo, tal a rigidez de seu porte – seu Epaminondas decidiu pesquisar de que baronato descenderia o sobranceiro morador da cobertura. Uma vez detetive, sempre detetive. Tá bom, vamos conceder: uma dosezinha de curiosidade fofoqueira ajudou. Procura daqui, procura dali, bisbilhotou até na empresa onde seu Coisa exerce função menos nobre do que seria de esperar de sua pose: calculista, auxiliar de contador – profissão das mais dignas, é claro, mas que não o coloca nos píncaros da pirâmide nem explica o desdém que nutre por todo mundo.
Com eficiência e discrição, Epaminondas descobriu ainda que ele é sustentado por um tio generoso, que enricou e distribuiu apartamentos e casas de veraneio pelos dois filhos e o sobrinho, com os quais divide os rendimentos que não consegue gastar; que a residência de origem de seu Coisa tinha sido um apartamento mofado junto à favela do Rato Molhado; que madame Coisa fugira com o dono da padaria, cansada da megalomania do marido; que o pai de seu Coisa tinha sido ajudante do tráfico de drogas.
Por fim, Epaminondas descobriu que o ilustre cidadão era mantido na rédea curta pela atual mulher, antiga vizinha da favela, que ameaçava espalhar pra todo mundo o passado inglório, inclusive as atividades paternas de Coisa, caso ele pisasse na bola.
O ex-detetive não conseguiria calar tantas surpresas. Em caráter reservado, contou tudo à síndica, sua amiga de muitos anos. “O que me deixa encafifada é como um sujeito desses anda por aí como se arrastasse um manto real, o fajuto” – ela comentou. “Pois é”, ele respondeu com ar meditativo. “A arrogância é a máscara preferida dos medíocres.”

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Ana Angélica

Fala de tanta coisa ao mesmo tempo que no fim não sobra nada.
Ana Angélica, um nome assim tipo arrebatador. Não que ela faça o gênero – um pouco tosquinha, simpática e boa pessoa. Impossível é seguir o fio de seus pensamentos ou manter uma conversa coerente que dure mais de três minutos. O pensamento de Ana Angélica é como um tobogã transparente por onde deslizam incontáveis pedaços de assunto, nomes que não se sabe de onde vêm, lembranças e sensações mal definidas, misturadas como meadas de várias cores. Ana Angélica não conta uma história, conta várias ao mesmo tempo, e no fim é preciso fazer múltipla escolha entre os trechos de enredo e os finais. Por qualquer motivo ela ri, ri muito, o que torna suas falas uma colagem de palavras incompletas.
Não, não é doida nem passa perto disso. É alegre e adora se divertir. Ninguém a encontra em casa nas noites de sexta ou a qualquer hora nos sábados, sendo que aos domingos vai à missa – diz que se faltar à missa alguma coisa muito ruim sempre acontece durante a semana – e dali parte para a praia se não chover. Depois almoça um churrasco em casa de amigos ou amigos de amigos, toma todas que aparecerem e vai dormir cedo porque segunda é dia de voltar ao posto de recepcionista de uma clínica de estética na Barra.
Tem um círculo de amizades surpreendentemente grande, variado e flutuante. Tem orkut, adora sexo na internet e faz questão de espalhar suas fotos em todos os sites de relacionamento. Já fez dois abortos, porque diz que só quer filhos depois dos trinta e cinco e ainda tem vinte e oito. Fica, namora, sai sempre com alguém, faz qualquer coisa para não ficar sozinha, mas nunca demora mais de quinze dias com o mesmo cara.
Acredito que isso acontece porque uma vez passou uns meses com um sujeito que a trocou por outra e fez de seu coração risonho uma gruta escura. Caiu em depressão, parou de comer, quase morreu sozinha em seu canto. Os amigos a salvaram do desespero, mas depois do luto pelo amor falecido, voltou à rotina de variedades que a mantém sempre com o olhar brilhando e os dentes bonitos de fora.
Ana Angélica não quer servir de exemplo pra ninguém. Não se responsabiliza, e como tem o coração fácil de derreter, chora com facilidade, mas logo se distrai e esquece. Vive cada momento, não pensa no futuro nem pára em lugar nenhum do passado. Alguém já disse que ela é como espuma, sempre efervescente e renovada. Ana Angélica se especializou em esquecer.

sábado, 24 de maio de 2008

Irmanados


Imagem Mordillo.


Neste natal o Toninho, meu filho mais novo, só ganhou um pião e uma álbum de figurinhas.
Festa de fim de ano quase sempre é um porre. Em vários sentidos. Mas eu até que gostava das festas da companhia onde trabalhei. Havia desde faxineiros até os diretores, “irmanados no mesmo sentimento”, dizia todo ano o doutor Farinha Pessoa, com cara de padre pedindo contribuição pras obras da igreja.
Em criança ficava muito impressionado com essas coisas, tinha até vontade de chorar sem nem saber por quê. Mas quando descobri que o padre lá da igreja onde ia com minha mãe era um grande fingido, que o sermão dele era uma mentira só, passei a detestar gente que faz esse tipo de média com as pessoas. Alguma coisa eles estão querendo, e em geral conseguem. De tanto fazer cara de santo, levantar os olhinhos pro céu e falar coisas bonitas, amolecem o coração e abrem a bolsa das pessoas.
Claro que o doutor Farinha Pessoa não precisava de esmola de ninguém pra levar a vida folgada dele com a mulher de nariz de gancho e os dois filhos com cara de retardados. No caso dele era diferente, ele lucrava de outro jeito. Com o tempo cheguei à conclusão de que todo fingimento rende algum dividendo. A grana do doutor Farinha estava garantida, aquele salário em dezenas de milhares e mais os projetos que ele fazia com mais dois ou três dos chefões e ninguém ficava sabendo direito pra que serviam.
A gente sabia dessas coisas porque a Raquel da financeira era nossa chapinha e informava tudo. Só que pra ganhar aquilo ele tinha que contar com o suor do rosto dos outros, e quem eram os outros? Os otários que marcavam cartão de ponto, faziam hora extra sem retorno nem satisfação e viviam querendo agradar à chefia pra não perder pontos, porque mesmo entrando na justiça depois e conseguindo uns trocados, o certo que segurava nossa barra todo mês ia se perder e era difícil conseguir outro emprego. Se o cara não fosse muito atarrachado das idéias, acabava que nem o Nilo do elevador, andando bêbado pela rua, sem casa nem mulher, ou a Venilda faxineira, que teve que virar puta pra conseguir comprar comida e remédio pra mãe velhinha.
Eu até gostava da festa, porque o Toninho, meu garoto mais novo, sempre ganhava um brinquedo bonito e colorido, e com ele todos os filhos menores de cinco anos que viessem participar. Num ano tentei levar o Tico, filho de um irmão mais fudido que eu, mas os seguranças tinham o cadastro das crianças e barraram. Tive que voltar com ele de Botafogo até Benfica e quase perco o presente do Toninho.
A mentira do “irmanados” é que ficava atravessada na minha garganta. Ficava a arraia miúda espalhada pelas cadeiras de plástico do salão no meio da maior bagunça, crianças correndo, salgadinhos pelo chão, copos de plástico espalhados por todo lado, e o som arranhava os ouvidos da gente. Tinha quem gostasse, esse pessoal não sabe distinguir o bom do mau, o bonito do barulhento, o chato do cafona. No fundo do salão plantavam uma árvore de natal de plástico com uns enfeites que de ano pra ano iam ficando mais caídos e um monte de embrulho de mentira, tudo caixa vazia, só pra criar o clima natalino, ainda segundo a Raquel, que tinha explicação pra tudo.
Os diretores e o presidente, alguns com as respectivas mulheres, todas sorrindo de nariz em pé, ficavam um tempinho depois dos discursos numas mesas mais bonitinhas lá da frente, arrumadas de jeito que a criançada não conseguisse chegar perto. Quando o Clodoaldo, o gordo do RH, chegava vestido de papai Noel, puxando um saco todo enfeitado, e sentava perto da árvore pra distribuir os brinquedos, o pessoal das chefias ria como se estivesse muito contente e ia logo batendo palmas como quem está louco pra se livrar daquilo tudo e voltar pra suas piscinas. Até dá pra entender, se eu tivesse uma daquelas também ia querer voltar depressa. Agora, podiam bem dispensar aquela besteira de irmanados.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Laudelino


Imagem René Magritte.


Era um iluminado. Alguém – e ele sabia Quem! – o havia enviado ao mundo, para esclarecer a confusa população que caminha sem outro objetivo que conseguir bens materiais e honrarias terrenas. Na cabeça, um turbilhão de idéias, palavras e certezas definitivas; no corpo, muita energia; o coração delirante do entusiasmo de quem tem uma missão e faz dela sua razão de viver.
O problema estava em que as pessoas ouviam, mas não entendiam nada. Essa particularidade, que poderia ser desanimadora para um simples mortal, era para ele um estímulo. Os obstáculos são a provação maior de que necessita aquele que tem uma missão na Terra para confirmar seu destino. Jesus Cristo foi provado até a morte; há mais de três mil anos o grande Buda Sakyamuni, filho de reis, abandonou o palácio e as riquezas para aliviar e sofrimento humano; Maomé, um simples analfabeto, aguentou perseguições sem fim. Todo portador de verdades transcendentais sofre por causa de sua missão, que é maior que ele enquanto indivíduo. Afinal, o que é um indivíduo diante da verdade última?
Seu discurso erudito impressionava muita gente; mas quando começava a expor sua doutrina, as pessoas iam ficando constrangidas ou faziam ar de troça, até dar um jeito de sair de fininho.
— Laudinho – disse um dia a noiva, antiga colega do curso de filosofia que agora cursava a pós-graduação –, você não acha que está usando de modo errado seu cabedal de cultura?
Ele, nem tchum. Limitou-se a sorrir e acariciar os cabelos dourados dela, murmurando palavras ternas como se falasse com uma criança.
Em geral aproveitava alguma reunião festiva, encontros de pais e professores na escola em que lecionava. Chegou a participar de um seminário e dar uma palestra no sindicato. O fato de não o convidarem de novo lhe dava mais força.
Começava a preleção falando dos persas de quatro mil anos. Declamava de cor fragmentos de Zaratustra. Até que era interessante: em geral as pessoas gostam de aprender e se sentem valorizadas com tanta sabedoria. Depois vinham os gregos, e aí ele começava a se empolgar e partia para um vôo solo:
— Não devemos nos iludir. Prudente é quem põe em prática a sabedora dos antigos, hoje esquecida de quase todos. Porque, no momento em que pusemos de lado os fragmentos do mármore para contar sem seu auxílio, abandonamos também a realidade do planeta que nos foi dado e acreditamos que as coisas são perenes como aparecem em nossa memória. Ledo engano! Nossa memória, amigos, não tem lembranças de outras realidades, cujo respaldo só existe nas cavernas do saber mais vetusto: tudo flui e nada permanece. A vida deve ser vivida como tal. Sem que nunca esqueçamos, no entanto, a natureza eterna do que está por trás de tudo. Fora com a idéia de uma existência restrita ao que vai morrer. É preciso universalizar o saber, a evolução, as atitudes decisivas da história. Conhecer a divindade em seus detalhes para destruir os falsos deuses. A verdade está no grão de areia e nos vegetais, nos gases da camada da Terra, na floresta como verdade composta.
A essa altura algumas pessoas se entreolhavam ou trocavam algumas palavras.
— Saber que o homem é vário, extirpar toda noção sacralizante e abrir as portas à ciência. Ela será nossa estreita passagem ao perene laicizado, essência de toda verdade humana. Por isso vos digo: nada existe em todo o universo que possa se opor à natureza, mas ao contrário, sereis cada vez mais fortes e longevos à medida que a fruição e a espontaneidade nortear vossas vidas. Mas nunca vos deixeis levar pelos impulsos imprevidentes inspirados por uma essência malévola da qual falavam os grandes profetas e os antigos. Ele não configura um ente material, mas um ser que se infiltra...
Já então metade dos ouvintes tomava um rumo menos abstrato e queria mesmo era ir tratar da vida, mas só uns dois ou três iam logo embora. Os outros aos poucos iam se afastando e saindo de fininho. Ainda assim, alguns ficavam, curiosos de ver como aquilo iria acabar.
Afinal foi-se a noiva, que pediu um tempo e devolveu a aliança depois que ele tentou por meia hora doutrinar seis professores que o deixaram falando sozinho, loucos para voltar para casa no fim de um dia de trabalho.
O verdadeiro problema porém começou no dia em que ele perdeu o controle, não só dentro do trem do metrô, mas nos ônibus, na sala de espera do dentista, no pátio do recreio e na calçada onde os transeuntes se juntavam para esperar o sinal e atravessar a rua.
Os pais e a irmã mais nova custaram a convencê-lo de que precisava procurar um médico. Afinal, com um sorrisinho condescendente e irônico, ele lhes disse que marcassem a consulta.
No dia seguinte, entrou no consultório e com um olhar percuciente avaliou o septuagenário que lhe sorria discreto, apontando a poltrona onde devia sentar. Pigarreou de leve e, antes que o psiquiatra lhe dissesse alguma coisa, empertigou-se e começou a falar:
— Com que então o senhor se julga apto a curar mentes humanas. Muito me admira que alguém com seu nível de instrução e supostamente experimentado na lida com as pessoas tenha ainda tal veleidade. Sabe o senhor o segredo do funcionamento da psiquê?
O homem fez menção de abrir a boca, mas Laudinho atropelou sua tentativa:
— Quem lhe conferiu tamanho poder? Que espécie de homem seria capaz de autorizar outro homem a percorrer os labirintos da mente e da vontade? Quem lhe ensinaria os princípios básicos de tal ciência inalcançável até pelo próprio Deus, que nos confere o livre arbítrio e jamais se põe a corrigir nossas ações, mas as respeita, visto que somos seres pensantes – e isso por sua própria vontade soberana, que poderia acachapar todo poder, todo saber terreno?
O médico se recostou na cadeira e fixou os olhos nele, que não parecia disposto a se calar.
— Quanta arrogância desta ciência incerta, inexata, insegura a que o senhor se dedicou! E dizer que só agora vai perceber que perdeu sua vida brincando de Deus, aplicando medicamentos criminosos, capazes de anular os mais brilhantes impulsos, atar as mãos de possíveis benfeitores da humanidade! Lembre-se das trepanações dos maias! Pense nas monstruosas lobotomias com que há poucos anos se estropiavam cérebros privilegiados, exercendo desse modo o mais cruel dos arbítrios em nome dessa mesma ciência amaldiçoada, falsa ciência que nada mais é que um instrumento de poder legitimado por ignorantes unidos a velhacos e vilipendiadores.
Parou para suspirar, mas o médico permaneceu calado e quieto. Laudinho balançou a cabeça e disse, com inflexões de baixo na voz:
— Apagar uma inteligência é como apagar uma estrela que brilha límpida no espaço trevoso do universo.
— Muito bem – disse o médico. Estou de pleno acordo com sua opinião sobre tais práticas.
Laudinho ergueu de novo a cabeça.
— Quero marcar minhas consultas para as quartas e sextas às quinze horas. São os dias mais livres na escola. Até mais ver, doutor.
Quando lhe perguntaram sobre a consulta, abriu um sorriso exultante:
— Um ouvinte à altura. Acho que em três consultas terei feito um discípulo fiel.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A volta

Maura abriu a porta da sala e deu com Murilo, de pijama listrado e olhos hostis.
— Puxa, pensei que fosse dormir lá na casa da tal colega.
A voz dele arranhava seus ouvidos.
— Eu disse que ia chegar antes das nove e cheguei.
— Para um lanche, acabou bem tarde, ele disse encolhendo os ombros, os lábios roçando os seus. Vamos jantar logo, já estou ficando com sono.
Ela virou o rosto para não responder. Não era de agora que a voz dele lhe deixava aquele gosto ruim na boca, uma impressão de que tinha levado um golpe no peito. Uma dor quase física, como se a angústia já estivesse incrustada tão fundo que suas raízes tivessem se tornado reais.
— Tinha muita gente lá? O pessoal do trabalho?
Olhou a grande palmeira no canto da sala e sua imagem duplicada no espelho. Pareceu-lhe que também ela estava envelhecida além da conta. Sua vida se resumia agora em comer, dormir, trabalhar como um autômato, porque era preciso e era isso que se esperava dela. As saídas, visitas, diversões se tornavam cada vez mais raras, difíceis. Toda vez que voltava para casa precisava explicar pormenores do que fizera, o que tinha dito, quais os assuntos, as pessoas que tinha encontrado. Ele nunca estava disposto a lhe fazer companhia, sempre dava a impressão de que ia impedir que saísse. Mas assim que a via de volta parecia querer sugar dela qualquer alegria, qualquer bem-estar que tivesse conseguido lá fora. Parecia querer viver de sua vida como um vampiro, Maura pensava muitas vezes, e isso lhe dava náuseas.
Tinha decidido ignorar as coisas amargas e ambíguas que ele dizia, as recriminações. Tentou várias vezes conversar sobre a vida dos dois, mas Murilo parecia ter entrado num processo de rápida degradação física e mental. Tinha mudado tanto depois que ela o aceitou de volta, era quase inacreditável. Incapaz de qualquer sutileza, incapaz de alegria. Aquele homem esguio e mortalmente ciumento, por quem tinha chorado tanto, estava transformado num velhote de barriga saliente aos quarenta e poucos anos. Do cavalheirismo então não tinha sobrado nada.
Agora reclamava o jantar como um nobre ofendido em seus direitos. Maura largou a bolsa sobre o sofá e se encaminhou para a cozinha. A empregada lhe sorriu e comunicou que estava tudo pronto e que desejava sair naquela noite. Sentiu inveja do sorriso radiante da outra. Teve saudade do próprio sorriso, de seu olhar antigo, do amor à vida, de sua cintura.
“A culpa é toda minha”, pensou enquanto subia para o quarto. “Devia ter adivinhado, não devia ter deixado que a jaula se fechasse, não devia ter entrado de novo.” Murilo a convencera a recomeçar. Voltava tão triste, tão doce, assim abatido. O amor foi tão bom naquela noite da reconciliação que ela acreditou no reencontro, na velha paixão de tanto tempo. Mas agora sabia que tudo estava perdido e sentia falta de estar sozinha, da liberdade, da sensação de independência.
A voz dele chegava lá de baixo, alterada, irritada. Jurou a si mesma que no dia seguinte ia acabar com aquilo. Preparou-se para dormir e se trancou no quarto. Queria ao menos chorar em paz.
Mas estava com raiva demais para chorar; percebeu que era preciso agir e resolveu descer de novo.
— Vem comer –, ele disse, já sentado, sem levantar os olhos.
— Não –, ela respondeu sem maiores explicações.
Ele a olhou demoradamente, mas Maura não reparou. Foi até a janela olhar a rua e deixou passar um tempo. Depois se voltou e viu que Murilo terminava a sobremesa. Notou que como de hábito deixara pingar calda no pijama. Foi até a mesa e disse, olhando para ele com a expressão mais dura de sua ira como uma estátua indignada, alta e furiosa, as narinas meio dilatadas:
— Odeio sua mania de jantar de pijama. Odeio essas porcarias que você deixa cair na roupa quando come. Quero que você traga suas coisas para dormir no divã da sala. Vou deixar tudo do lado de fora do quarto. E amanhã quero que vá embora de vez. Deu pra entender?
Murilo olhou incrédulo para a mulher e não disse nada durante uns segundos. Depois foi se erguendo aos poucos, devagar, um resto de pudim largado no prato. De repente a abraçou e beijou com uma paixão que ela não teria esperado nem nos primeiros tempos. O momento foi tão fulminante que Maura ficou sem ação. Fizeram amor ali mesmo, no divã da sala, depois no tapete e de novo no quarto, para o qual ele a levou em transe. Depois dessa noite, Murilo nunca mais vestiu o pijama antes do jantar.
Completaram vinte e cinco anos de casados mês passado. Comemoraram com uma viagem à Europa. Dizem que no fundo do armário do closet, em casa deles, há uma caixa preta onde guardam algemas, um chicote e uma corrente. Mas pode ser pura fofoca de amigos maldosos.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Sic transit – ainda bem

Imensa, a casa; imensa de intimidar. A porta do elevador é uma grade de cadeia, grossa, cilíndricas barras de ferro nem ao menos enfeitadas de formas vegetais, como as da varanda. As vidraças, altivas como um sonho do qual se prefere acordar.
Mas lá dentro não há mais fruteira de opalina, castiçais de prata, cristais e palavras adversas. Tios prepotentes, toalhas de linho cheirando a naftalina. Diamantes cintilando em dedos artríticos. A bicicleta de cravos folheados a ouro – ah, se os ladrões tivessem sido mais espertos – e os chaveiros da coleção de tio Nininho como uma ala de museu no Vaticano.
Todos afetados pelo morbo da riqueza desmedida, diferente da loucura às vezes salvadora que pode afetar qualquer pessoa e é como uma artéria que estoura de repente – uma loucura de dentro pra fora, um AVC da alma, fruto daquela plantinha canibal que cresce no íntimo de cada ser humano e em alguns fica maior do que devia e devora os controles. A loucura da riqueza, ao contrário, triplica os controles; é de fora pra dentro, não admite promiscuidade de nenhuma espécie e cria seres supra-reais.
Todo rico desmedido é um espectador do mundo. Às vezes orgástico, mas sempre espectador, porque paga pra ver tudo. Até o gato imensamente gordo, até ele era um voyeur nato.
Tia Aurora fugiu, e do convento trapista dividiu sua parte da herança com três instituições de caridade. O capelão de uma delas imediatamente encheu a igreja de novos paramentos rebordados a fios de prata, lustres de cristal veneziano e comprou uma casa de dois andares para a família em Jacarepaguá. Georgina, filha de uma copeira sem juízo que acreditou no patrão, ganhou o jogo de prata com cinzeiros de marfim que tia Eurídice detestava. Vendeu o jogo e foi morar com a mãe numa casinha própria no subúrbio, feliz da vida. Os nomes ilustres da vizinhança consternaram-se com a ausência de finesse da menina, que se formou em contabilidade e casou com o chefe no primeiro emprego.
Orellana, o velho cachorro da casa, havia morrido duas semanas antes, cego e arrastando os quartos, dormindo ainda junto à cama de tia Eurídice no quarto empestado, todo forrado de seda adamascada. Tia Eurídice prendeu Orellana no quarto durante seis anos porque tio Benício jurou decapitá-lo com a foice do jardineiro quando um de seus canteiros de dálias apareceu cavado.
Revoadas de primos e primas jovens mantinham-se admiravelmente limpos nas horas convenientes, mas ninguém se lembrava deles nas outras horas. A coorte dos anjos esperava que os mais velhos se recolhessem, depois da sobremesa, do café e dos licores, para fazer das suas.
Primo Ricardo era um menino ardente e sofria de demência precoce – nome bonito para uma doença. Foi ele a primeira paixão de Luciana, a prima de treze anos com quem se fechou dentro do enorme armário da despensa onde Rico passava boa parte de seus dias. Os dois se casaram dois anos depois e tiveram cinco filhos, todos ardentes e esquizofrênicos, e uma filha pianista chamada Arabela, que casou com um maestro e foi morar na Alemanha. “Não sou louca de ter filhos”, ela avisou no dia do noivado.
A casa ainda está de pé, no meio de uma elevação do terreno, cercada por uma névoa esbranquiçada. Os vitrais foram vendidos e levaram consigo os segredos de leitos improváveis e os gemidos de apego dos mortos da família, os banhos de espuma de Luciana e o óculo de vidro verde por onde Rico a espiava.
Lanço a última olhada ao contorno do lago vazio do jardim, onde três pombos de mármore tentam levantar vôo através dos anos. Podiam ter sido transladados para o jazigo perpétuo do São João Batista como símbolo da existência da família.
A partir de amanhã faço outro percurso na caminhada de todas as manhãs.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O causo de Espírito




Tudo aconteceu depois da chegada do homenzinho magro e encardido chamado Espírito.
Na primeira manhã em que entrou no boteco de seu Júlio – cara nova, que ninguém tinha visto desembarcar na rodoviária –, um leve zunzum correu as mesinhas de madeira seguido de um silêncio consistente como um pudim de mandioca. Ali ninguém facilitava a vida de forasteiro. Ao menos até que se tornasse um forasteiro familiar e provasse ser pessoa de bem e temperamento afável, tinha que se haver com as regras locais. Depois que o Fulo, empregado do português, não se conteve e perguntou o nome dele, ninguém disse nada, mas também ninguém acreditou. Espírito. Isso era lá nome de gente? Os homens se entreolharam e depois fixaram o sujeitinho, que pediu uma cerveja e nem parecia dar pela coisa.
Só uns minutos depois é que os três ou quatro grupinhos tornaram a suas bebidas e beliscos e o silêncio voltou à indiferença de sempre. Era quase hora do almoço. Um velho hábito levava alguns empregados das lojas do centro e da fábrica de vassouras a se reunir ali pelas onze e meia para um aperitivo. Coisa do pessoal mais velho, já que a nova geração preferia se bandear para cidades próximas onde houvesse mais postos de trabalho.
Aquele que se nomeava Espírito terminou sua cerveja, pagou com umas moedas e uma nota amassada e saiu como tinha chegado, sem que se soubesse bem que direção teria tomado. Sua presença em Aurora Vermelha foi sendo notada aos poucos e sem nenhuma simpatia. Além dos homens do boteco que o viram pela primeira vez, alguns dos quais falaram dele em casa ou no trabalho, fazendo piadas sobre seu nome ou criticando sua esquisitice, foi visto na venda comprando fumo; na casa de tecidos, de onde levou dois carretéis de linha preta e uma agulha, e no bazar do Isaque, bisbilhotando tudo e afinal comprando um binóculo e um baralho. Em três dias era um dos principais assuntos do lugarejo, embora raramente fosse visto. A curiosidade a seu respeito crescia porque ninguém conseguia descobrir onde estaria alojado, de modo que todos faziam gracinhas sobre a classe a que poderia pertencer um espírito daqueles ou de onde teria vindo. Havia mesmo, principalmente entre as mulheres (entre os homens nunca se sabe, porque eles ficariam calados a respeito), certo temor de que não fosse uma pessoa como qualquer outra – ou, como dizia dona Aldeílde, a moradora mais antiga da cidade, que fosse algum espírito de espécie indesejável. Sua filha caçula de oitenta e dois anos, dona Aldina, cognominou o forasteiro O Molesto. O apelido começava a pegar na vizinhança, mencionado a meia-voz, como se o indigitado pudesse estar invisível em algum canto.
A coisa aconteceu no sétimo dia. A madrugada fora inquieta para todos. Desde o bebê dos Antonazzi, com horas de nascido, até a citada dona Aldeíde, ninguém pregou os olhos. Desde a véspera um vento áspero, hostil e frio incomodava as pessoas, fazia voar folhas e papéis e tornava suja a cidade, famosa pelo capricho de seus habitantes e pela limpeza das ruas. Às cinco horas, como o vento se tornasse assustador, todos cuidaram de fechar bem as casas, passar cadeados e trancas em portas e janelas. Telhas e chapas de zinco começavam a voar e uma árvore tombou na praça diante da igreja. Às cinco e quarenta um muro ruiu com parte do barranco junto à estrada, interrompendo o trânsito. Em pouco tempo, uma fila de caminhões se formava a perder de vista depois da curva que levava a Aurora Branca, cidade gêmea onde se faziam os melhores chinelos do estado. Logo depois das seis, a paisagem familiar se desfazia, e um estrondo se fez ouvir, seguido de um silêncio que assustou os moradores e provocou falta de ar no senhor Bastide, cardíaco tradicional de idade avançada.
Outros estrondos viriam logo a seguir. Da fresta de sua janela, seu Júlio, que ocupava com a mulher e um filho demente o sobrado por cima do boteco, arregalava os olhos e se punha a rezar agarrado à cabeceira da cama maciça, porque a rua se abria em duas metades desiguais como se um raio se houvesse deitado em seu leito. Aldozinda, filha mais velha de dona Aldeíde, chorava e se mantinha a custo diante do oratório do quarto, as mãos enroladas pelo rosário, enquanto a mãe revirava os olhos, sacudida em sua cadeira de balanço. “Meu Pai”, rezava ela em altos brados, tentando evitar que a vela se apagasse, “não permitais que essa mulher histórica se acabe hoje. Mãe de Deus, Senhora minha, protegei-nos, que temos sido filhos fervorosos! Santos anjos da guarda, valei-nos! Não nos abandoneis ao espírito do Molesto!”, enquanto a irmã emudecia, trêmula e vacilante junto à mãe.
O terremoto durou quase quatro minutos. Um tremor de terra como nunca se havia visto naquele lugar virgem de acontecimentos catastróficos. Um terremoto cego, impiedoso, implacável, que só se aquietou quando metade das casas havia ruído e uma paisagem caótica compunha um novo cenário para Aurora Vermelha.
Às seis e meia da manhã, um crepúsculo negro baixara sobre a cidade, envolta em poeira e umas cinzas que ninguém sabia de onde viriam. Pouco a pouco os habitantes ousaram pôr o nariz para fora. Das casas que haviam restado, brotavam figuras desgrenhadas, vermelhas, chorosas e desengonçadas, querendo saber afinal o que tinha acontecido, onde teriam ido parar todos, que construções ainda se mantinham de pé. A confusão foi se formando em torno da praça, nas esquinas arruinadas. Quem salvara um lampião ou uma lanterna estava em vantagem sobre os vizinhos e se propunha a prestar socorro aos desabrigados e feridos que foram aparecendo, se arrastando ou gritando por socorro de dentro das casas semidestruídas. Em algumas delas, as pessoas chamavam, procurando sobreviventes, e a reposta era um silêncio trágico.
Um pequeno grupo de homens começava a providenciar enxadas e pás, e alguns começavam já a cavar suas buscas, quando alguém do meio da rua principal gritou: “Olha o Espírito!”
Foi como uma voz de comando. Quem estava cavando, parou e se voltou na direção do grito; quem estava parado, correu; quem procurava, deixou de procurar e se encaminhou para o ponto em questão. Em segundos, excetuando-se o bebê Antonazzi e sua mãe, a macróbia Aldeíde, suas filhas e o senhor Bastide, todos os moradores vivos e válidos, homens e mulheres, marchavam para lá, aos gritos de “pega, pega”. O homenzinho, nem mais nem menos franzino e encardido que no primeiro dia, pôs-se a correr quando viu o povo vindo em sua direção. E como era de seu estilo, desapareceu sem deixar rastros depois da curva.
Ainda o procuraram pelas imediações, mas nada – o sujeito tinha sumido tão completamente que ainda hoje se fala dele como de um verdadeiro espírito, coisa de que ninguém mais duvida. A estradinha lateral por onde ele poderia ter se evaporado, chamada Caminho do Tomate por causa do sítio de uma família de lavradores do ramo, mudou de nome – apesar do voto contra de um vereador, filho do dono do sítio – e agora se chama Caminho do Espírito.

domingo, 18 de maio de 2008

Laila


Foto Antônio Paim.


Estremeceu ouvindo o ruído da bicicleta no jardim. Devia ser a mãe chegando da feira no centro do povoado. Tentou fazer uma cara despreocupada, pegou o livro largado no sofá e Luís Cláudio se escondeu rápido. Bem a tempo, porque foi só ele pular para trás do sofá e a porta da sala se abrir. A mãe vinha corada e sorridente, e Laila foi ao encontro dela e ajudou-a a levar as compras para a cozinha, que ficava na outra ponta da casa.
— Essa casa velha só dá dor de cabeça pra gente, mãe. Não sei por que vocês não procuram um apartamento, um lugar mais confortável, com entrada de serviço e menos poeira pra limpar todo dia. Depois, aqui é tão longe de tudo, não se vê quase ninguém. Nem televisão a gente tem.
A mãe levantou de leve os ombros e acabou de guardar tudo na geladeira, na fruteira de vidro furta-cor que estava na família havia duas gerações e na cesta das batatas. Deixou a alface sobre a bancada da pia junto com dois tomates e um ramo de manjericão e foi até o quarto trocar a roupa suada e as sandálias antes de começar a fazer o almoço.
Laila olhava para ela pensando em Luís Cláudio. Já devia ter ido embora, esperava que sim. Mas e se tivesse dado um daqueles acessos de falsa bravura nele? Luís Cláudio sempre a surpreendia, e vai ver era por isso que estava tão apaixonada. Foi até a sala e deu uma rápida olhada atrás do sofá. Ninguém. Melhor assim, não se arriscar à toa. Fechou os olhos e o viu a sua frente, alto, moreno, aqueles cabelos rebeldes, os olhos que brilhavam cheios de alegria. Ainda sentia o cheiro dele no sofá onde tinham se beijado tanto que ela estava até suada, e só de pensar seu coração palpitava pelo corpo todo.
Entrou no banheiro, estava na hora de se aprontar para a escola. Lá dentro, como sempre acontecia, encontraria Talita, a amiga imaginária a quem contava todos os detalhes de seus encontros com ele. Só Talita sabia que ele era do Rio, que trabalhava para a polícia e tinha prometido que a levaria com ele logo que terminasse a missão de que estava encarregado. Uma missão secreta que não podia contar nem a ela. Juntas debaixo do chuveiro, ela mostrava à outra onde ele tinha posto a mão e as duas riam e se abraçavam de alegria. Talita iria para a escola com ela e ficariam juntas diante de dona Cacilda, que ensinava todas as tardes para quatro ou cinco alunas, na escola instalada numa pequena construção do quintal.
— Não quero você ignorante só porque mora longe de tudo, aqui neste interiorzão, brincava a mãe. Ao menos você vai saber tudo que os outros sabem e vai poder arrumar um bom emprego quando crescer.
— E eu já não sou crescida, mãe? – ela perguntava, do alto de seus quatorze anos.
— É, mas não pode trabalhar ainda, não está preparada. Só depois que sair daqui e for estudar na faculdade no Rio de Janeiro.
— E quanto tempo falta?
— Pergunta à professora, meu anjo. E agora come logo pra não perder a hora da aula.
“Eu e Talita”, ela pensou. “E ele? Ele também vai comigo, vamos nos casar e viver no Rio”.
A mãe a beijou assim que acabou de escovar os dentes e pegou a mochila. “Não queria que ela crescesse tão sozinha”, pensava, olhando a menina virar a curva da estrada de terra. Sumira o ar de alegria que mantinha diante de Laila. “Há quatro anos ela está aqui, perdendo uma parte tão boa da vida, perdendo a juventude no meio do nada, sem ao menos uma amiga, nem um menino para namorar. Ainda bem que tem esse temperamento alegre, sempre disposta a ajudar em casa. Não tem idade pra agüentar tanto isolamento. Nem tem culpa dos erros do pai, que agora nos obriga a viver enfurnados nesse lugar até que terminem o dinheiro do assalto e o prazo do mandado de prisão.”
Sacudiu a cabeça e voltou à cozinha, que ainda estava por arrumar.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Retrato de Búzios

Lembrava Búzios de outro tempo, do tempo com ele. Daquele ponto de onde só viam o mar e o céu, os rochedos envolvidos em espuma e a imensa placidez ondulando de leve. O vento era um clima, dava vida à música, levava e trazia, falava entre os cabelos. Um tempo de paixão e irreverência, langores e jogos movidos a ansiedade. O tempo da paixão é também um tempo de angústia, porque se tem tudo a perder. Mas quando ficavam sozinhos, isolados do mundo no jipe de capota aberta ao vento como jovens deuses pagãos – então tinham tudo e nada no mundo seria capaz de atingi-los.

Da colina só se viam mar e céu, espuma nos rochedos, a imensa placidez a ondular a nossos pés lá embaixo e o vento tecia palavras entre os cabelos. Tudo a ganhar.

Naquelas noites, o brilho avermelhado de Marte parecia prestes a escorrer sobre suas cabeças. Ainda não conheciam toda a extensão da guerra em que se envolveriam. Do horizonte a lua atirava ao mar suas escamas e alagava o mundo com seu desvario misterioso. Reviu o pequeno terraço de mesas brancas, as duas taças esguias da comemoração, ele sussurrava tanta coisa em seu ouvido, o coração da festa, os dois a sós, donos de toda a beleza da terra e meio altos por causa da bebida gelada e dourada, o riso silencioso e o beijo em que tinham se perdido noite adentro. Na varanda da pousada, o café da manhã, rindo do grupo que haviam deixado sem avisar ninguém. A descida pela encosta até a Prainha, os mergulhos na tarde morna, idílios no banquinho de madeira carcomida olhando os barcos no ancoradouro dos Ossos.

O tempo da paixão é quando se tem tudo a perder.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sandra

Só depois de uma semana notou o braço tão bem torneado, de cotovelo arredondado e breve. Outros encantos mais evidentes tinha notado logo ao primeiro olhar.
Sonhava com ela todas as noites. Da primeira vez, caminhando como se fosse diluir-se em fumaça, os olhos azuis brilhando por trás da neblina. Chegava a ouvir sua voz, íntima e distante ao mesmo tempo, com a sensação de estar sendo alagado pelos poros como se fosse uma esponja em água morna. Em outro sonho, ela ao alcance de sua mão, seus dedos tinham deslizado pelo contorno do corpo quentinho. Não vira o rosto, mas a pele era a dela, tinha certeza.
O desejo intenso o consumia há três meses. Andava pela rua com o pensamento longe. Esbarrava nas pessoas, nos postes, um dia até sangrou a testa numa ponta de caixa de telefone daquelas bem antigas, que só existem nos bairros esquecidos da cidade. O colega de quarto ria dele, fazia piadas, mas ele nem ouvia. Andava ausente, obstinado em seus pensamentos que iam do umbigo ao pescoço ou à curvinha da sola do pé de sua amada.
Ia para o escritório muito cedo, e ansioso abria a gaveta para conferir: ela o esperava, nua, as coxas roliças de leve cruzadas, pesinhos rosados, as mãos acariciando o quadril direito – e ele imaginava como se sentiria ela se visse seu corpo peludo, ossudo demais. E se não gostasse dele?
Não fazia idéia sobre onde encontrá-la, mas não descansaria enquanto não conseguisse ao menos uma pista. Era uma foto sem letras, sem nomes, nada que o ajudasse, nenhuma dica. Achara a folha num banco de praça, milagrosamente intacta. Procurou em bancas, lojinhas que vendem revistas velhas, camelôs, nada. Mostrou a folha ao jornaleiro da banca enorme da esquina, que tinha de tudo, mas o jornaleiro não soube informar quem seria a musa.
Até então não tinha sido de grandes entusiasmos. Era metódico, pacato, caladão e bom funcionário, elogiado pelos chefes. Mas a mulher da revista crescia dentro dele como massa fermentada. Não fazia idéia do quanto estava dominado pela imagem, até que um dia um companheiro lhe bateu no ombro – “peitim bom de chupar, né?” – e ele se congestionou todo, vermelho, quente, prestes a explodir. Cravou as unhas nas palmas até doer, e aí foi para o banheiro e chorou de raiva e frustração. Era uma crise de ciúme descontrolada, como se aquela mulher da foto fosse sua.
Foi então que começou a masturbar-se pensando nela. Emagrecia, pálido, olheiras se arriando pelas faces, cigarros emendados. Já não comia nem dormia direito. Deixou-a no fundo da última gaveta vazia, com medo de dobras ou marcas, com medo que o papel se rasgasse. A foto cabia direitinho na tábua da gaveta de seu tormento. Chamou-a de Sandra. Diante da imagem perdia a noção da realidade – os olhos azuis olhando em seus olhos, ela o chamava, lisa e nua, parecia às vezes se mover para mostrar detalhes que a foto ocultava. O sangue gelava, a vista escurecia, a cabeça confundia as coisas.
Um dia não voltou para seu quartinho no subúrbio. Ficou até todo mundo ir embora e o prédio fechar. Sozinho com ela, a noite foi um delírio. Estava obcecado pela idéia de ficar ali todo o tempo, com Sandra olhando para ele. A idéia veio de repente: batalhou a vaga do Miguel, o vigia, que tinha voltado para o Ceará. Ia ganhar menos, o que pouco lhe importava, porque afinal gastava cada vez menos também. O pedido foi recebido com estranheza, mas ninguém pensaria mal dele, funcionário antigo e confiável.
Passou a viver noites inenarráveis naquela sala vazia e escura com Sandra iluminada pela lâmpada de mesa. Entre uma e outra marca no cartão de ponto, a corrida para a contemplação que o deixaria de novo em transe até chegar ao êxtase: sem tocar na imagem – tinha medo de gastar ou amassar o papel – vivia as fantasias de sua pequena orgia solitária de voyeur desenfreado. Pela manhã, cada vez mais esquelético e abatido, ia ao bar da esquina para um café tomado às pressas, só os olhos brilhando, vermelhos da vigília, sem papo para ninguém. Nas horas em que devia estar se refazendo com um bom sono, sonhava com ela de olhos abertos no quartinho fedorento, transfigurado em quarto de motel com espelhos que a refletiam por todos os lados enquanto ele se consumia.
Numa de suas corridas à gaveta, uma noite de chuva e frio, demorou a voltar à ronda e ao ponto. Dedicava-se ao amor de Sandra, que imaginava montada em seu colo, e lhe parecia mais sedenta do que nunca. Esquecido da vida monótona e sem graça daquela grande caixa de vidro e cimento onde passava mais de dois terços de suas horas, em algumas noites se deixava tomar pela alucinação de dormir abraçado com ela e despertava cedinho, com um raio de sol nos olhos.
Mas naquela noite não conseguiu dormir. A chuva batia forte na vidraça. Notou luzes acesas na parte da frente do galpão. Onde ele estava, na penumbra, percebeu um movimento e se virou para ver de onde vinha: era Sandra, sentada à beira de sua mesa, olhando para ele com aqueles olhos cintilantes de água-marinha. Não conseguiu se mover, o coração estalando na garganta. O susto e o êxtase se misturaram em seu corpo, sentiu calor e frio, e pensou que ia morrer naquele momento de um prazer feroz, quase insuportável. Ela se moveu em sua direção e parou a sua frente, exatamente como ele imaginava em seus devaneios toda madrugada. Deu um passo para ela, os braços estendidos, mas Sandra sorriu e o chamou para o corredor entre as mesas; foi andando atrás dela, que ondulava as curvas perfeitas em direção à porta. Mas antes de chegar ao saguão iluminado, um empurrão o atirou para trás. Ela se voltou e riu. Sua mão roçou numa pele que não era a dela; era uma pele áspera que por menos de um segundo se mostrou escura. Perdeu o equilíbrio e de repente viu tudo explodir num clarão e se desmanchar a sua volta.
Às seis e meia da manhã, um grupo friorento abriu espaço para a chegada do carro da polícia.
— Os ladrões entraram pela frente, fizeram tudo que quiseram e ainda deixaram um bilhetinho de gozação – explicou um senhor meio calvo, de casaco de moletom cinzento.
— E o vigia? – perguntou o policial de inexplicáveis óculos escuros e jaqueta de couro.
— Está morto lá em cima. O coitado devia estar fazendo a ronda. Acertaram ele bem no alto da testa, abriram um rombo deste tamanho.
Uma mulher com cara de sono resmungava contra a insegurança em que se vive hoje em dia.
— Tem um bilhete – tornou o senhor de casaco cinzento.
— Onde está? – quis saber o policial.
Estava ao lado do corpo magro, estendido entre as mesas. Numa delas, a gaveta aberta deixava ver um pôster com o retrato respingado de sangue de uma loura cheia de curvas. Na folha rasgada estava escrito em letra desigual: “MORREU FELIZ – GOSTAVA MESMO É DE UMA LOIRA”.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Turbulência




Foi como se alguém tivesse morrido, mas sem cadáver para enterrar, e tudo ficara em suspenso: ela preencheu os dias com pequenos afazeres, cuidou que não sobrasse tempo livre, chorou escondido. Depois passou o tempo do luto e o morto-sem-cadáver adormeceu de vez em algum limbo indeterminado. Não queria saber com quem estaria, para onde teria ido ou o que pretendia fazer.
Ela vivia uma vida sem muito entusiasmo, mas em todo caso uma vida. Saía, deixava-se levar, deixava os olhos acompanharem as histórias de outros personagens no teatro ou no cinema. Chegou até a dançar de novo, mas era como se seu corpo fosse de outra pessoa. Ou como quem perdeu um membro e continua a sentir sua presença. E nem se importava quando os amigos lhe elogiavam a roupa ou o penteado: não faziam mais que a obrigação deles. Pois não eram amigos? Achavam que ela melhorava a olhos vistos. Pois que achassem. Não ia azucrinar seus ouvidos com lamentações. Fazia tudo que os outros faziam, pronto. Se ninguém a chamasse, dormia cedo, junto com o menino. Dormiria pelo resto da vida sem se dar conta e sem lamentar o tempo perdido.
Mas havia o filho. Não queria que pesasse para ele também. Era muita coisa para uma criança tão pequena, ter uma mãe assim desesperançada da vida que só despertava por obrigação, para cuidar dele. Policiava o próprio olhar para que fosse um olhar de mãe, para não se perdesse além do pequeno e o deixasse desamparado e sem rumo. Não que fosse forte. Era uma forma de preservar o filho. O filho, que era outra pessoa, uma vida independente dela mesma, que nada tinha a ver com a solidão que Murilo havia lhe deixado nem com essa, interior, que ela mesma se havia imposto (e eram duas solidões diferentes). Sabia o que fazer para que ele fosse feliz. Crescia desanuviado e de bem com sua vidinha, sempre alegre, gorjeando pela casa e até seu choro era o choro das crianças felizes. Tinha medo de pedir mais do que ele poderia lhe dar. Por isso reaprendia a sorrir, reaprendia o próprio prazer por esse caminho da inocência.
Quando começava a se equilibrar com mais segurança na corda esticada de sua vida, o telefonema de Murilo. “Oi, Maura” –, ele dissera, e ela emudeceu sentindo uma queda por dentro. Não achou o que dizer e ele interpretou o silêncio como uma repreensão. “Eu sei, você tem o que censurar.”
A voz de Murilo acendeu a consciência clara do que havia esperado durante esses quatro anos: viu a si mesma como uma Penélope maternal e paciente. As lágrimas começaram a correr.
“Queria tanto ver você, falar com você”, ele dizia.
Ela deixou escapar um som desarticulado, porque nenhuma palavra expressaria o que estava sentindo e menos ainda o que estava deixando de sentir. Vazia, o coração aos saltos como um eco de tambor, um frio subindo das mãos e dos pés e correndo pelas veias.
“Você está bem? Está no Rio?” – ouviu-se dizer, e as palavras ecoavam num grande vazio.
Uma onda de cólera a assaltou, independente de sua vontade. Como ousava ele distorcer as coisas desse jeito? Quatro anos, e à última hora ele dizia “eu suportei demais”. Não sabia de nada. Como podia ser assim tão leviano? “Tentei refazer a minha vida enquanto você estava refazendo a sua” – não sabia o que dizia! Só conseguiu responder que muita coisa tinha mudado, e tentava com isso defender um espaço que era seu, não deixar que a enchente chegasse até o último reduto. Embora não estivesse certa se haveria mesmo um último reduto.
Ele nem sabia da existência do filho. As coisas que não podia mais controlar iam acontecer apesar de tudo. “O que mudou, Maura?” – ele insistia como se engasgasse. “Era verdade então?” “A verdade”, ela disse lentamente como se alguém lhe ditasse as palavras, “a verdade são quatro anos que você deixou passar entre nós sem ao menos explicar por que tinha ido embora.” Ele calou um pouco. “E isso foi tudo o que mudou?” “Foi pouco?” “Foi menos do que eu imaginava.”
Murilo tinha sofrido, ela sabia. Tinha fugido sem coragem de perguntar o que realmente estava acontecendo entre ela e o melhor amigo, que nunca fora mais que isso: o melhor amigo. “Minha vida está refeita em um sentido que você desconhece”, disse ela, e ele suspirou do outro lado como se a resposta o tivesse aliviado, e parecia sorrir brandamente quando falou: “O que é que eu desconheço?”
Pensara ainda em se fazer difícil, mas isso seria brincar. Pensou no menino, imaginou como se sentiria diferente das outras crianças. Pensou na inutilidade de tentar suprir aquela ausência. Percebeu na modulação de sua própria voz a voz de outro tempo. Não era a ele que devia outra oportunidade, mas a si mesma e ao filho. À vida. Não lhe cabia impedir isso.
Marcou encontro com Murilo para aquela noite. E foi de vestido decotado, argolas nas orelhas e sandálias de salto, sem esquecer seu perfume predileto que – agora sabia por quê – nunca tinha deixado de usar.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Senha perdida

Norinha tem aquela mania de chegar em casa e ir logo se metendo naqueles vestidos compridos que deixam mais imaginar do que ver alguma coisa. Capaz de estar agora usando o rosa-bombom que eu gosto. Com tempo e espaço para esbanjar, com certeza se estira no sofá, fecha os olhos, deixa o silêncio ir tomando conta dela como água e solta as fantasias, que ela tem muitas, cada qual mais apetitosa. Parece que estou vendo, ela desce o decote para conferir. Quando não tem ninguém olhando ela tem que inventar. Se tiver gente ouvindo começa a falar da vida das gueixas. Tem gente que gosta de carros, outros de comida. Norinha gosta de gueixas, tem coleção de gravuras e um leque cafona que ela ama. Acha que daria uma ótima gueixa.
(De cima da mesa de centro, um maço de papéis espera, em desordem. Era o ensaio sobre rituais, repressão e suas razões. A essa hora, já fumou trinta e sete cigarros, contando-os compulsivamente. Propalou a deus e ao mundo que tinha vencido o vício. Recebeu elogios, incentivos. Cada tragada uma infringência. Pega mais um.
O espelho da sala inerte o dia inteiro. Um desperdício de espelho.)

Agora entra no banho, com certeza, outra mania. Aquele, de espuma, e põe as pernas para cima cheias de flocos brancos, leves, leves, os flocos contornando seu colo, flutuando das mãos. Ficava sempre muito excitado diante daquele banho de espuma. Podia tão bem estar aqui no meu banheiro, meu banheiro tão frio, desembocando no meu quarto sem graça.
Eu comendo ovo frito com pão na sala azulada. Ao menos um cachorro, que cheiro de vazio. Por que não, um cachorrão grande e forte, animal de sangue quente para espantar fantasmas, lamber meu pé e me aporrinhar um pouco. Nunca pensei que fosse tão ruim não ter quem aporrinhasse um pouco. Bebendo água na tigela branca, linguão rosado estalando. Cachorro toma leite? Norinha adora leite, parece uma gata diante daquela xícara cor de caramelo. Diz que foi a tia que deu, que é de estimação. Não conheço nenhuma tia dela.
(Ao contrário do que acontece com a esmagadora maioria, fumar lhe dava uma fome quase cruel. E no fundo do prato só restam duas migalhas de pão e uma lasquinha de clara queimada que não comeria em outras circunstâncias, mas agora lhe parece uma delícia.)
E se eu telefonar?
(Problemas às dúzias, trabalho com data de entrega, o ensaio alinhavado, ia perder o fio das idéias. As imagens parecendo tão fora de foco, parecia um sonho desses que não acabam mas que a gente sabe que são sonhos. Telefonar seria decente. Mas dizer o quê? Nada do que pudesse dizer pareceria decente. Perdeu a senha do sésamo, perdeu, perdeu, perdeu. O sésamo está fechado. Tentando pôr em ordem as coisas da mesa da cozinha perdeu também a fome, quase de repente. Olhou a laranja cortada ao meio, juntou as metades e devolveu à geladeira.)
O telefone parece um bicho cochilando em cima do sofá. Gosto mais de ver o jeito dele fora do gancho: fica aberto, indefeso, zunindo como se sofresse de algum padecimento secreto que não quer contar a ninguém. Pedindo um ouvido amigo, uma voz qualquer. Disco como quem não quer nada e espero para ver o resultado. Pode ser que não responda, que não ligue, que esteja ocupado. Ou pode ser que outra pessoa atenda, mas quem? Será que Norinha já tem outro? Também pode ser que ela atenda, mas por enquanto melhor seria não pensar em nada, encostar aqui no fundo do vazio e esperar. Parece que perdi. Minha mão suando frio, que é isso? Só pode ser fome.
(Esticou o pé o atingiu o telefone. Ergueu-se com uma praga e pôs o aparelho no chão. Três noites de insônia, teias nos olhos, a cabeça oca. Há dois dias e meio que cada gesto, cada ato é uma violência, um incômodo, uma impostura que o obriga a pôr seu primeiro plano em segundo e o deixa de mau humor.
Acordou noite fechada, custou a lembrar o que estava acontecendo. O corpo todo em estado de dor. Do fundo da memória foi chegando uma confusão, coisas destacadas e logo misturadas, e no meio de tudo uma dúvida: a porta ficou aberta?
Acordou horas mais tarde com a campainha do telefone e não entendia que barulho era aquele, mas teve o reflexo de pegar o fone e levar ao ouvido. Taquicardia. A voz da secretária no meio de um torvelinho, a cabeça explodindo em um ofuscamento como se estourassem flashes a sua frente. Sobressalto, pressa, pulo da cama: tinha uma reunião daí a quinze minutos. O ensaio, onde estaria o ensaio? A voz da secretária fazia perguntas – sim, estou aqui, se não estivesse não estaria falando com você, porra.)

Entrou no banheiro apressado e ouviu um ruído na entrada. Esticou-se de dentro do boxe para entreabrir a porta e a porta resistiu, havia alguém passando atrás. Saiu agarrado na toalha, o coração aos pulos.
— Norinha?
— Você dormiu de porta aberta, sabia? Escancarada. Levei até um susto, pensei em assalto. Mas era só lerdeza tua mesmo, você também dorme de boca aberta – ela riu e virou a cara, se esgueirando para chegar até o armário sem roçar nele.
Fez uma tentativa de falar com ela, mas não conseguiu. Estava hirto, inteiriçado, e começou a gaguejar.
— Não posso demorar não, estão me esperando lá embaixo. Acho que meu xale branco ficou aqui.
— Viu, se você deixou alguma coisa é porque estava pensando em voltar – disse e se arrependeu na mesma hora.
Nem resposta. Nem um olhar. Voltou ao banheiro e deu com a própria cara no espelho. Escorou a porta com a mão e mordeu o braço cabeludo até doer.
— Quando sair, não esquece de bater a porta – e acrescentou, abrindo uma fresta para que ela ouvisse bem: – sua filha-da-puta.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Três personagens à procura de um Aguinaldo Silva



Karina, de quinze anos, mora no Andaraí, é morena, tem um metro e sessenta e cinco, é alegre, tem os olhos puxados e usa os cabelos (que são lisos, lustrosos e muito negros) soltos, dançando sobre os ombros. Adora um pagode e um baile funk, mas também participa das festas de hip-hop do clube do bairro. No aniversário ganhou dos amigos da escola uma mensagem de alto-falante que durou mais de uma hora, mas os vizinhos não se chatearam, ao contrário: vieram para a porta da vila onde ela mora e ajudaram a cantar parabéns. Ano que vem entra no cursinho e vai tentar o Enem. Está indecisa entre educação física e pedagogia. Fuma escondido desde os doze anos (“era meio gordinha, depois emagreci, mas me acostumei e agora não dá pra largar”). Não perde as novelas da tarde e a das oito. Lê a Caras e a Quem toda semana. Acabou um namoro de dois anos (“o amor acabou”) e atualmente fica com uns colegas que costuma encontrar no clube. Quer casar de véu e grinalda e ter dois filhos.

Antônia, dezesseis, é uma loura bronzeada de olhos verdes do Leme. Acorda às nove (menos aos sábados e domingos), vai à praia e caminha no calçadão todo dia. Malha três vezes por semana na academia e estuda dança moderna. Diz que quer ser modelo, mas quer mesmo é tentar o cinema. Estuda artes cênicas e já fez pontas em várias peças de teatro. Faz o gênero panterinha, esguia, um metro e setenta e dois, tem um andar que atrai todos os olhares. Escapou de ficar anoréxica por puro modismo. Adora cinema. Dança duas ou três vezes por semana nas boates da zona Sul – gosta da Baronetti, vai às vezes às festas da Brazooka e da Paradiso na Casa da Matriz, mas já dançou tango no Ballroom. Gosta de variar um pouco, e tem uma boate pequena que ela adora na Barra, mas também vai aos shows do Circo Voador e da Fundição. Lê a Caras e é sócia de três locadoras. Namorou um cara da pesada, mas agora só quer ficar e curtir. Quer viajar muito e conquistar o mundo.

Leandro Mauro, de dezenove anos, é mulato, alto e bem magro. Tem um rosto expressivo, grandes olhos castanhos e lábios sensuais, mas é tímido com as meninas. Mora em Copacabana, mas foi criado no Méier, de onde se mudou há três anos. O pai dele, administrador regional no bairro de origem, foi nomeado assessor de um deputado federal e atualmente está lotado em Brasília, mas às vezes passa meses seguidos no Rio. Leandro passou para a PUC, paisagismo, embora o pai preferisse direito. Sente falta dos colegas do Méier, substituídos por um grupo de rapazes da classe média alta para cima. Ele não surfa, não pega pesado na academia nem freqüenta boates. É amarrado numa menina do prédio onde morava, mas agora ela namora um ex-colega. Está aprendendo a nadar e a dançar – o que detesta – e tem aulas de etiqueta com um personal trainer, sente-se ridículo por isso, mas não reclama. Ainda gosta de jogar botão e assiste ao futebol de domingo, ao Chaves e ao Pânico na tevê. A mãe vive dizendo que ele precisa se formar, amadurecer e refinar o gosto para impressionar as meninas.

Se você fosse um autor de novelas, quantas histórias inventaria a partir desses três personagens?

domingo, 11 de maio de 2008

Nem sempre tão formosas, as rosas

— Paulo César, se alguém me procurar estou em reunião na sala do Heloneido.
Heloneido o recebeu de cara mais amarrada que de costume.
— Senta aí, Rodrigo. Sabe me explicar o que está acontecendo?
Rodrigo olhou em volta. As cestas de lixo estavam abarrotadas. Eram rosas de todas as tonalidades, idades e tamanhos.
— Nem se podia andar, quando eu entrei.
A sala cheirava a velório. Rodrigo cruzou as pernas nauseado.
— Quem fez isso?
— Sei tanto quanto você.
— Heloneido! Olha aqui!
Era a secretária, entrando esbaforida. Os dois correram para ver. Diante de um armário escancarado, a menina magrinha do café estava semi-soterrada por uma avalanche de pétalas de cores vivas.
— Abri o armário e caiu tudo em cima de mim. Mas que perfume, o senhor tem que ver. Não são lindas?
Heloneido resmungou alguma coisa a respeito de recolher tudo e voltou a sua sala. Dessa vez fechou a porta para não ser perturbado. Dois botões brancos caíram não se sabe de onde sobre sua cabeça. Não chegou a concluir a conversa, porque cinco minutos depois entrava o chefe do departamento, espavorido. O telefone tinha enguiçado logo cedo e ele chamou o rapaz encarregado de consertos, não deu outra: abriram o aparelho e descobriram um botão todo esmagado dentro do bocal. O que seria aquilo?
Resolveram chamar a Camila, já que ela parecia saber algo a respeito daquela calamidade. Ela entrou circunspecta, expressão carregada. Cheio de dedos, Heloneido pediu licença para retirar de seus cabelos negros e lustrosos uma pétala rosa-pálido. Sentaram-se para conversar.
— Não quero acusar ninguém...
— Mas há alguém para acusar? Em outras ocasiões, você nunca hesitou...
— ...mas uma colega nossa tem o hábito de conservar sempre uma rosa em cima da mesa, numa jarrinha de plástico azul, disse ela, ignorando a intervenção do outro.
— E quem é?
Camila pronunciou um nome bem baixo, como se lhe custasse mencionar o possível culpado por aquela hecatombe floral. Depois levantou os olhos com ar casto, e acrescentou:
— Além disso, ela tem atitudes estranhas. Vive às voltas com livros esotéricos, escreve coisas misteriosas, e quando se chega perto dela ouve-se uma música exótica que vem do radinho guardado na gaveta de baixo. Foi a única que não se espantou com essa... coisa das rosas. Parecia estar até se divertindo muito com o tumulto que provocou...
— Provocou? Tem certeza de que foi ela que desencadeou essa mixórdia? Quem sabe você não está aproveitando a deixa para embaraçar um pouco a vida de uma desafeta? Nada do que você disse prova coisa nenhuma.
Heloneido fingia não ouvir nada, absorto num ponto qualquer do teto.
— Pode ser uma pista, disse ele, depois de alguns momentos, mas não é o suficiente para...
Alguém batia com força e Heloneido abriu. Era a secretária de novo, os olhos arregalados.
— Heloneido, o Genival do depósito endoidou, surtou, tá enlouquecido, rolando pelo chão às gargalhadas. Já derrubou pilhas e pilhas e agora está rasgando um monte de papel e arrancando a roupa.
— E ninguém fez nada?
— Não conseguem segurar ele. Dizem que os loucos...
— Genival nunca foi louco.
— Mas agora está. Vai lá ver com seus próprios olhos, vai.
Chegava um alarido lá de fora. Heloneido fez um gesto chamando os outros e partiu em direção ao depósito, onde o Genival, seminu, repetia coisas sem nexo em cima de uma pilha de papel rasgado. A sua volta, uma mistura repulsiva de trapos, lixo e flores murchas se misturava com rosas rubras. Dos bolsos meio arrancados da calça de brim escapavam botões. Heloneido assistia à cena imóvel, uma ruga profunda na testa, a mandíbula triturando sem parar. Rodrigo sorria. Preocupada, a secretária confabulava pelos cantos, imaginando medidas cabíveis para um caso como aquele. Uma tonteira começava a se apoderar dela, que passou a desenhar nas paredes do corredor com a pilot que arrancara do quadro de avisos.
O cheiro era tão sufocante que alguns empregados desmaiavam e outros corriam para a rua. Um grupo de funcionárias enfeitava a cabeça com guirlandas, outras faziam buquês e brincavam de noivas. Pelas escadas se formavam casais sentados sobre rosas e cobertos delas, aparentemente alheios ao ambiente de confusão e esquecidos de onde estavam. Afrânio, o mais competente e compenetrado dos supervisores, brincava de mal-me-quer com infindáveis rosas repolhudas que se empilhavam sobre sua mesa. Margarida, a equilibrada arquivista, moça pacata e bem-vista na empresa, vestira-se apenas de rosas brancas e lilases e desfilava pelos corredores, onde a essa altura o espetáculo era do mais absoluto surrealismo. A um canto, perto do bebedouro, o olhar parado, hirta, quase roxa, Camila espumava e repetia chavões moralizantes. Heloneido olhou em volta, pegou uma flor e a estendeu para ela, enquanto Rodrigo valsava com a supervisora. No alto da escada o gerente de vendas e o chefe almoçavam príncipes-negros.

sábado, 10 de maio de 2008

Palavras ao mar


Foto Sérgio Zalis.


Estranha relação aquela com o mar. Se ao menos fosse coisa do astral, se tivesse nascido em Peixes, Aquário, Câncer... Mas que nada, era de fogo, fogo duplo: Leão com ascendente em Sagitário – embora um Leão-quase-Virgem, que lhe rendera uns vestígios de obsessividade e a fizera fã de histórias de detetive. Não era um motivo de origem – além das origens aquáticas de todos nós, é claro –, mas um traço debussiano aprendido muito cedo nos discos que o pai ouvia a toda hora. E mais: ainda que nascida no Rio, sempre havia morado na Tijuca, longe do mar. Não conhecia senão de ouvir falar a aporrinhação dos metais oxidados, da umidade, do cheiro de maresia.
Aprendeu o mar em contatos encantados nas praias da infância, e as recomendações dos adultos a maravilhavam: então muito perigoso, e perigoso passou a ser sinônimo de bonito, inefável, de não ter muita certeza de nada e olhar com uma desconfiança arrebatadora todas as coisas desconhecidas. Com o mar aprendeu o mistério das palavras – vá alguém confiar nas palavras, mutantes como o mar. Aprendeu com o mar a ver as coisas pela luz que transforma tudo, das cores ao sentido. Entrar no mar a deixou "séria de ventura e aventura", como diz Clarice, e lhe ensinou que se pode experimentar uma ausência de limites sem se diluir no nada, ficando criança para sempre.
Nunca mais deixaria de ser criança, mesmo quando a maturidade lhe ensinasse a dura lição das impossibilidades. Aprendeu a vida embalada pela marola da calmaria, espancada pelo caixote inesperado, lutando contra a corrente e furando a onda verde para sair meio torta do outro lado, mais forte e mais humilde. Mergulhou na vida para confirmar o que já previa: para a vida como para o mar somos pouco mais que uma bolinha de pinball.
A diferença é que a bolinha vai e vem sem dizer nada e, tanto quanto se sabe, sem se alterar em sua natureza de bolinha. Mas com gente é diferente, já dizia Geraldo Vandré. Gente às vezes não consegue ficar à tona e pode mesmo escolher não ficar.
Deve ter acreditado que entrando no mar daquele jeito voltaria ao perigo inefável, ao desconhecido arrebatador. Deve ter ido em busca, quando não havia mais nada para buscar em terra firme. Tinha mesmo fortes motivos para preferir o mar.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Remo e a loba



— Você me parece mais disposta hoje do que ontem, disse Remo, e ela confirmou.
— Ontem...
Cortou o que ele ia dizendo com uma notícia chegada pelo correio eletrônico.
— Olha que coisa mais maluca, vão mandar os textos do seminário para cá, querem que a gente editore tudo.
Ele parou ao lado dela e ficou olhando suas mãos no teclado, mas não disse nada. Detestava ser cortado daquela maneira, e Luba, logo ela, nunca prestava atenção às coisas mais importantes que ele tinha a dizer.
— Ela vive tudo no momento em que acontece, parece que não consegue guardar nada, fala das coisas nas horas mais despropositadas, ele diria mais tarde a Letícia, sua analista. Ela me invade...
— É mesmo? Ela invade você? Que interessante.
— Às vezes me deixa confuso. Depois continuou falando do Cachu (ela fala desse cachorro todo dia, não sei por que acha que eu me interesso pelo cachorro dela): "acho que ele não vai longe", como se estivéssemos falando disso há horas. "É pena", eu ainda resmunguei, mas dei as costas e parti para a sala do Monteiro, onde de fato havia uns dados a pegar para amanhã.
— O que é esse cachorro, na sua opinião? perguntou Letícia desdobrando as pernas e trocando de posição na poltrona.
— É um cachorro como qualquer outro.
— Ele te irrita?
— Quando se intromete...
— Em quê?
Remo ergueu meio-corpo e pegou o maço de cigarros no bolso da camisa.
— Durante o banho de hoje pensei em como seria agradável poder conversar durante pelo menos meia hora sobre o mesmo assunto, sem precisar partir ao chamado do dever. Esse é um dos tormentos de quem trabalha em prol do dinheiro, próprio e dos outros. Pensei em bonequinhos apressados, gravatas voando ao vento, cabelos em desalinho, mas não encontrei a chave ou o traço que faria deles uma charge, mesmo em pensamento – afinal, tudo existe primeiro em pensamento, e que pensamento é esse? Pensei também em cifrões esvoaçantes, coisas parecidas com moedas que podiam ser de papel dourado, notas verdes caindo como num outono, embora as folhas do outono não sejam verdes e essas sejam notas de primavera, véspera de um verão de sol de ouro puro e em barras.
— Hum, hum, fez Letícia.
— Pensei numa decoração menos séria para minha sala, uma coisa mais clara. Desisti, não dá pra estofar o sofá de amarelo canário, Luba me convenceu. Os números do pôster em frente a minha mesa são muito bonitos, podem até mesmo incentivar alguém a trabalhar, mas acho que sinto falta de sol. Mas de repente me dei conta de que estava pensando num cachorro bóxer agonizante, cor de conhaque e agonizante, babando, arquejando, e esfreguei com força os olhos porque, porra, tinha entrado um pingo de xampu num deles. Por que pensaria num cachorro que tinha visto uma vez em fotografia, e em nome de que entraria ele debaixo do meu chuveiro e naquele estado?
Remo fez uma pausa, e logo continuou:
— Com a água do banho sai muita gordura, uma gordura insuspeitada de nossa pele. A gordura às vezes corre pelo fundo do boxe como pétalas pequenas e esbranquiçadas, acinzentadas, quase como uma espuma, pétalas de espuma, inacreditáveis, nunca pensaria nelas a não ser debaixo do chuveiro. É como despetalar – e pigarreou. Isso parece coisa de bicha.
Remo se calou e Letícia suspirou levemente.
— Por que de bicha?
— Depois veio Jesse e disse: "Remo, telefone. É o Marcondes." E o que é que o filho-da-puta queria? Nem tomar banho em paz eu posso mais! Algum dia, algum dia eu ainda chego lá.
— Chega aonde?
Ouviu Letícia dizer isso e olhou o relógio.
Ainda havia tempo de pegar um cinema, mas em vez disso voltou para a companhia. Encontrou Luba e o Monteiro na cantina, diante de duas xícaras fumegantes de café.
— Viva, disse o Monteiro, se chegue, estamos mesmo falando de você.
Sentou com um ar enternecido que ela notou.
— Não entendo por que a gente toma café num calor desses.
Depois se virou para o balcão e pediu outro café.

(Trecho de Cachorro morto.)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O amor na rua das Marrecas

Não tinha certeza de nada. Sabia apenas que estava inquieta demais para ficar em casa e já não conseguia trabalhar direito, o pensamento voando longe. Por que Aloísio a procuraria agora, que se transformara numa mulher madura e responsável, casada com um homem em quem confiava com tanta ternura? Se realmente estava disposto a voltar – meu Deus, tinha desejado tanto essa volta, mas depois de dez anos talvez fosse tarde –, não era justo que voltasse para destruir nada. Precisava vê-lo, entender melhor o que sentia. A antiga cumplicidade ainda a empurrava para ele, mas a dúvida a imobilizava. Queria mais que tudo olhar em seus olhos, ouvir o que tinha a dizer, e quando tomava a decisão de partir em direção ao Jardim Botânico parecia travada, impedida não saberia dizer por que força invisível. Chegou a esquecer Renato durante algumas horas, e a lembrança dele trouxe uma onda de rubor a seu rosto: o que lhe parecera tão estável era frágil a ponto de lhe causar vergonha.


Imagem E. Hopper.


Achou melhor sair, espairecer, ver vitrines, tomar um chope. Queria tempo e espaço para olhar de novo o mundo com olhos de liberdade. Rodou um pouco pela cidade e afinal parou na Lavradio, olhou as lojas de móveis e coisas antigas que tanto a fascinavam. Voltou ao carro pacificada como quem afinal aceita a vida como pode ser. Aquele mobiliário evocava gente de outros tempos e hábitos diferentes, no entanto também passível de amar, sofrer e morrer, ser feliz ou mentir. Como acontecia agora com eles três, que um dia seriam também gente de antigamente.
Renato pertencia a um momento mais recente de sua vida. Perder Aloísio fora como ter perdido a esperança de amar de novo. Com Renato, o amor chegara sem o arrebatamento da paixão. Eram vizinhos do mesmo andar – ele solteiro, pintor, inspirado acima de tudo pelas luzes e cores do Rio; ela, solitária, vivendo ainda por aquele homem com quem tinha partilhado alguns anos de uma felicidade impossível de descrever. Renato se revelara um amigo constante e atento, um confidente sempre à disposição até embarcar para a Europa em viagem de estudos. Pensou na cômoda colonial que comprara pela então exorbitante quantia de dezoito mil cruzeiros num antiquário da Glória numa manhã de chuva de abril, ao chegar do aeroporto onde o deixara. No mesmo antiquário, três anos depois, o encontraria de novo, voltando de uma exposição na Espanha – olheiras acinzentadas, a barba em desalinho, bigodes manchados de nicotina e cabelos compridos à la Jesus Cristo. Dali sairiam para um almoço comemorativo do reencontro e seis meses depois estariam casados. Foram tranqüilamente felizes durante oito anos, trabalhando com paixão – ele em suas pinturas, ela em uma revista de arte.
Agora Aloísio ressurgira, e só de pensar nele seu coração disparava enlouquecido. Os pensamentos se emaranhavam. Estava cansada demais para continuar rodando pela cidade, mas não voltaria para casa do jeito que estava, indecisa e amarrotada. Ansiou por um bom banho, quis descansar um pouco. Pensou em um hotel no centro da cidade, desses que servem de refúgio a encontros furtivos ou a solitários, e que sempre a deixavam curiosa. Os dois primeiros em que entrou, na rua do Senado, lhe pareceram barulhentos demais para permitir um pouco de sossego. As aventuras de fim de expediente seriam sempre assim tumultuadas? No terceiro, na Visconde do Rio Branco, o homenzinho da recepção a olhou de má vontade e disse que a casa estava lotada. Talvez não fizesse o tipo que costumava se hospedar ali e levantasse a suspeita de ser uma fiscal. Na rua das Marrecas encontrou um quartinho de fundos, distante do ruído da rua, e se registrou, embora os dois sujeitos da portaria tivessem sorrido e se entreolhado quando ela entrou.
O quarto lhe pareceu acolhedor, e apesar da pobreza a roupa de cama estava limpa. Compreendeu que o banho teria que ficar para mais tarde. Lavou-se como pôde na pia instalada a um canto e tirou a roupa para deitar. Um som de piano chegava de fora e o ar fresco entrava pelas persianas descascadas. Deixou os postigos abertos. Da cama olhava o teto alto, original da construção, de pintura arruinada. Aninhada no vazio daquele momento, desligada de tudo, supressa do mundo e do cotidiano, estava solta para imaginar, lembrar ou esquecer. Fechou os olhos e em poucos minutos adormeceu. O sono não lhe deu muito descanso: sonhou com personagens que não chegavam a se consolidar, mas se desmanchavam no ar como fumaça e davam entrada a outros igualmente evanescentes. Entre um e outro daqueles fantasmas, o rosto de Aloísio lhe aparecia, triste ou amoroso, mas sempre inquietante.
Acordou no meio da madrugada sentindo fome e frio. Esperou a manhã encolhida debaixo da colcha de piquê meio puída. O que iria fazer naquele dia estava decidido: procurar Aloísio antes que ele saísse de casa e saber exatamente o que pretendia, falar daquele tempo de ausência, matar a saudade antiga. Antes das sete desceu, engoliu um café apressada num bar de esquina e pegou o carro no estacionamento a uma quadra dali. A rua fervia de gente a caminho do trabalho, garis, mendigos que prolongavam o sono debaixo das marquises. O trânsito já se complicava, buzinas estrugiam impacientes. Enquanto aguardava o sinal abrir, a boca seca e o coração desordenado, a lembrança de Renato lhe trouxe aquela espécie de relutância que prenuncia as certezas do coração.
Rumou para Laranjeiras em direção ao Rebouças. Estava quase feliz: o desejo afinal vencia a indecisão e se abria como uma flor. Tinha pressa, a maior pressa do mundo. Já não sentia medo de se decepcionar nem culpa em relação a Renato; ele entenderia, era capaz de entender, e percebeu de repente que por isso o amara e o amaria sempre. Amando-o assim olhou o retrovisor, diante do sinal vermelho. Um rosto familiar uns três carros atrás a fez se voltar: era o próprio. Na direção, uma morena de seus vinte e poucos anos. Abstraídos de tudo, ele afagava seus cabelos. O sinal abria e ela deu a saída fazendo cantar os pneus.
Aloísio estava em casa. Conversaram longamente, mas nem teria sido preciso, porque ambos sabiam que a paixão resistira ao tempo, que sempre seriam um do outro. Só fez um pedido que ele estranhou, mas ao qual acabaria atendendo: três dias de lua-de-mel num hotelzinho de terceira na rua das Marrecas.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Lembranças do laboratório

Enquanto o açúcar e o adoçante se acomodavam no fundo das xícaras, nossos olhares se concentravam nessa operação com toda a atenção de que éramos capazes, não fosse o café ficar destemperado ou doce demais. Em matéria de café nos esmerávamos em buscar a perfeição – bom, não só nisso.
O dia começava a rugir lá fora. Nosso apartamento recebia os ruídos diretamente da avenida arborizada, bonita de olhar e dura de ouvir. Nós, nem aí. Concentrados na mesa redonda que recendia a pão quentinho e café fresco - o meu clareado, o dele puro, café de macho. Queríamos assim, à luz da manhã no jardinzinho da varanda, mínimo divisor comum. Café com pão e manteiga, nem um queijo a mais, o gosto puro do pão crocante, umas marias-sem-vergonha nos olhando junto à grade com ar maroto.
A sala pequena, aberta para o lugar de dormir e trepar; de um lado a porta do banheiro, do outro a quitinete; uma bancada para o computador, uma estante e dois quadros – só reproduções dos extasiantes, em rodízio.
A casa, extensão do corpo, sem prescrições, sem moral da história, por favor: só a vida e uma alegria sem tropeços nem badulaques: o amor. Mais que suficiente.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O gato




Voltava do trabalho numa tarde de outubro quando vi o gato junto ao meio-fio. Tinha sido atropelado, com certeza, e parte de sua cabeça era uma pasta vermelha de sangue, pêlo e lama. Tinha o corpo esticado, rígido, devia estar ali há horas. A visão do bicho morto me sacudiu como um choque elétrico. Estremeci toda, e uma náusea forte me fez levar a mão à boca. Estranhamente, senti uma enorme necessidade de ter alguém para contar aquele choque, aquela visão horrível do gato morto junto ao meio-fio.
Achei que o mal-estar se explicava pelo cansaço do dia particularmente massacrante. Cheguei em casa louca por um bom banho e descanso, diante da televisão ligada em algum seriado bem-humorado. Mas isso não foi suficiente. Continuava inquieta e aflita. O seriado me pareceu um amontoado de bobagens sem sentido que me irritava em vez de divertir. Desliguei a televisão. Tentei ler alguma coisa, mas não passei das primeiras linhas, porque não chegava e me interessar pelo que estava lendo. Demorei horas para dormir, e quando consegui um sono leve e agitado, sonhei com o gato. Acordei no meio da madrugada, e pensei em ligar para alguém.
Olavo. Foi a primeira pessoa que me ocorreu, mas não tive coragem. Ele devia estar dormindo. Então fiquei pensando em amigos, em minha irmã, mas imaginava cada um deles e desanimava, imaginando o incômodo que seria acordar àquela hora da madrugada para ouvir uma história que afinal não tinha história nenhuma. Mesmo porque, apesar de já ser primavera, as noites ainda estavam bem frias.
A tristeza e a aflição pela morte do gato eram desproporcionais ao fato propriamente dito. Todos os dias devem morrer gatos, cachorros e até pombos acidentados na cidade. Sem falar nas pessoas. Estava claro que a visão do bicho tinha sido apenas o pretexto para que a angústia viesse à tona.
Minha cama era um ninho de agonia. Então levantei e fui à cozinha tomar um copo de leite morno, quem sabe, e as imagens em meu pensamento se atenuaram, perderam um pouco as cores fortes. Sentei diante da mesinha onde sempre tomava o café da manhã e deixei os pensamentos correrem.
Voltava a pensar em Olavo. Almoçamos juntos naquele dia, embora muito rapidamente, quase sem tempo de conversar. Imaginei que se estivesse abraçada com ele, como tantas vezes acontecia durante a semana, tudo seria diferente. A noite correria tranqüila depois do amor, da doce conversa debaixo das cobertas, e o sono desanuviado, profundo viria depois.
Levemente surpreendida, percebi que só por isso talvez não me apercebesse da angústia que me tomava durante aquela noite longe dele, o que não queria dizer que a angústia não existisse. Apenas seria adiada, mas continuaria esperando um momento para se manifestar. Demorei um pouco na pequena surpresa que isso me causou. Era novo para mim, era como ter restrições para Olavo. Eu não sabia, nunca tinha me apercebido claramente da solidão que o amor não destrói. Até ali tinha preferido ignorar tudo que não fosse o pensamento dele, e quando estávamos separados minha vida se resumia em esperar encontrá-lo de novo.
Inquieta, levantei e fui à gaveta de minha escrivaninha. Me acomodei na poltrona ao lado e acendi a luminária de pé sob a qual costumava ficar lendo. Protegi as mãos dentro das mangas largas do robe – estava realmente fria a noite – e pus os pés debaixo do corpo. Em meu colo, a foto de Olavo me acalmou um pouco, os olhos escuros alegres e vivos, um meio-sorriso que tornava o formato de sua boca ainda mais atraente.
Estava quase pacificada, já começava a sentir uma sonolência agradável e tudo que havia pensado até ali me pareceu a conseqüência natural de um dia particularmente exaustivo, em que a visão do bicho meio esmagado tinha me afetado além da conta. Beijei a foto de Olavo e ia repondo-a na gaveta para tornar a deitar, quando o telefone tocou. Àquela hora.
Crispada de novo, deixei a campainha repetir o chamado três, quatro, seis vezes. Esperei para ouvir o recado na secretária. “Helena” – era a voz dele. “Desculpa te ligar agora, é que estou sem sono… Atropelei um gato hoje, na volta do trabalho, e…”

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Poço sem fundo



Olhou o homem alto de cabelos grisalhos que se aproximava, fumando com tanto charme, absorto, os olhos perdidos em algum lugar de tristeza. Rapidamente fixou as mãos dele, os dedos longos e fortes segurando o cigarro.
“Não me viu” – pensou, e sem querer completou o pensamento – “e se visse não ia dar a mínima.”
Por quê? Por que tinha que ser assim? Os homens só olhavam para as outras. Nesses momentos era a imagem do cansaço, a boca descaía, as rugas do nariz se alongavam, os sulcos fininhos se acentuavam em volta dos olhos. Lembrou os cabelos sem brilho, tinha esquecido de novo de comprar aquele xampu que iria mudar tudo. Ou não?
O desalento tomou conta dela, e aí se viu refletida na vidraça da tinturaria antiga da Marquês de Abrantes. Num gesto reflexo levantou a cabeça, acendeu o olhar, ergueu os ombros. Encolheu a barriga o mais que pôde e deu em cheio com o olhar do porteiro do prédio ao lado. O homem percebeu sua confusão e deslizou os olhos sonsamente com um meio-sorriso. Achou que estava zombando dela. E se estivesse?
Pensamentos misturados e sem palavras a deixavam muito aflita, e acabou tropeçando numa rachadura da calçada. Por que tanta aflição? Sofria como se usasse seios postiços e um deles caísse de repente em plena rua no meio dos passantes. Nada tão grave, só tinha tentado uma postura que não era a dela, nunca ia ser. Só tinha criado um de seus momentos de ilusão, mas logo esqueceria e voltaria a ser ela mesma, curvada e sem jeito. Às vezes achava que sua vida era como uma dessas nuvenzinhas ralas que vagam pelo céu ao sabor dos ventos. Nuvens como as linhas indecisas de sua mão.
Não tinha sabido aproveitar as oportunidades. Queria tanto ajudar as pessoas, ser útil e querida que causava desconfiança ou desconforto aos outros. Vivia contando suas gafes às colegas – por que, se isso só reforçava a imagem que gostaria de desfazer? Precisava ter mais dignidade, parar de contar tudo para todos, de se expor assim ao julgamento de pessoas que nem a conheciam direito, parar de bancar a boba. Além disso pedia licença demais, desculpas demais, preocupava-se demais com o bem-estar dos outros, mesmo dos estranhos que cruzavam seu caminho. Isso não lhe dava nenhum prazer, ao contrário, era como uma obrigação, quase uma compulsão, passava por cima de sua vontade. Qualquer miúdo interesse dos outros era maior que os dela mesma. Sempre se exigia atitudes forçadas, excessivas, por isso vivia tão cansada.
Aí entendeu o miolo da coisa: a aflição era justamente ser essa coisa irremediável. Algumas supostas celebridades se sustentam enquanto conseguem viver na ilusão de ser quem na realidade nunca seriam se não fossem as câmeras. Mas não é fácil. “Primeiro é preciso a gente mesma acreditar e depois os outros vão se convencendo”, pensou, e de novo pisou em falso. O pensamento não lhe agradava, antes a fazia sentir-se ainda mais deplorável, como se estivesse recorrendo a expedientes de mentira.
Estava sozinha agora como sempre tinha estado, uma espécie de poço sem fundo. Nada viria em seu socorro. Só restava viver dos pequenos gestos de todo dia e esperar. Seria mesmo verdade que as melhores coisas só acontecem quando se está distraído?

sábado, 3 de maio de 2008

Mulher de verde

Uma menina vestida de branco se destacou da sombra das amendoeiras e caminhou até a beira do lago escuro. Não sabia que era o centro da paisagem. Se soubesse, teria achado engraçado e brincaria com isso, ou se intimidaria a ponto de fugir para perto da mãe. Mexia na água turva e esverdeada com uma fina varinha que o limo ia impregnando de seu verde pegajoso. Olhou durante alguns momentos os gansos esvoaçando na outra margem e contou-os com a varinha erguida em sua direção como quem regesse uma orquestra invisível. Depois correu rampa abaixo e foi chamar outra menina que deixara sentada no banco de pedra minutos antes. Falaram bem baixo, e depois correram para o lago. As vozes eram agora o som da manhã.
Verdes sombrios e luminosos, cores esmaecidas no espelho dágua. A outra menina seguiu a primeira, e agora atiravam pequenos pedaços de pão para os peixes. Os gansos haviam desaparecido e o sol leve aquecia pouco. Era bem cedo, muitos ruídos estavam por vir, o calor iria apertar. Por enquanto, era o allegro da sinfonia.
Logo começaria o intermezzo. Um grupo de crianças apareceu de uma das aléias laterais, acompanhado por duas mulheres vestidas de bermudas. Uma delas trazia um trabalho manual, a outra empurrava um carrinho de bebê. Sentaram-se lado a lado e começaram uma conversa embalada pelo vaivém do carrinho. O vozerio aumentou pelo ar ainda meio adormecido. Um pipoqueiro e uma carrocinha de sorvete se aproximaram, e uma grande bola de gomos coloridos pareceu florescer em pleno ar, saltando de mão em mão. Duas bicicletas contornaram a praça, e alguns corredores apareceram, vestidos de malhas e bermudas.


Imagem Man Ray. The rope dancer accompanies herself with her shadows.


Em meio à cena sinônima de todos os dias, a percussão explodindo em uma freada violenta que despertou as atenções e por alguns segundos centralizou o movimento do pequeno parque em uma só direção. Alguém havia sido atropelado, logo depois da curva fechada de que as amendoeiras tapavam parcialmente a visão.
Com algum esforço, uma mulher de verde que contemplava o parque, do quiosque de bambu e sapê sobre a rampa do lago, conseguiu enxergar o homem sobre o asfalto. De onde estava, estremeceu diante da quebra que aquele choque significava. A vida se desmantelava, e o que parecera certo e seguro alguns momentos antes era agora um punhado de sensações fugidias. As vozes mudaram de tom, e um grupo novo se formou no mesmo minuto, contemplando o corpo em posição fetal junto ao meio-fio. Recostado num carro, um homem de cabelos brancos parecia paralisado, enquanto outro, mais novo e mais forte, gesticulava intensamente no meio do círculo de curiosos, e o som de sua voz chegava até os ouvidos da mulher de verde. Alguém que ela não podia ver gritava por uma Isabel, e uma criança começou a chorar longe dali.
Virava o jogo dos espelhos, o caleidoscópio girava. A mulher se sentiu amavelmente impotente; resolveu seguir seu destino, entregando aos estranhos o corpo que não lhe pertencia.
O sol resvalava pelo toldo amarelo de uma loja e se derramava na calçada clara e larga. "Glória, glória, aleluia", ouviu a mulher, num coro de poucas vozes. Procurou o grupo com os olhos e afinal localizou, do outro lado da rua, na praça ensolarada, desafinando com todas as forças de seus oito pulmões. Teve a impressão de que uma bolha de sabão estourava dentro de sua cabeça, abrindo espaço para uma solidão límpida, soberana, em solo absoluto.
Enquanto subia a ladeira do Outeiro, ia pensando em coisas irrelevantes e inevitáveis, como tratar das unhas, ir ao dentista e tomar um bom banho, porque sentia o corpo pegajoso de suor e os pés cansados. Seguiu assim entregue a seus pensamentos durante algum tempo, até que as sirenes da ambulância e da polícia lhe trouxeram a súbita lembrança do corpo no asfalto, ainda tão perto, e lhe provocaram um estremecimento e uma sensação avassaladora como uma culpa. Procurou no fundo da bolsa um lenço de papel. Durante alguns segundos, a angústia tomou conta de seus gestos e confundiu seus pensamentos. Segurava a bolsa aberta quase inconsciente, e um sentimento de urgência incontrolável foi crescendo dentro dela e pôs sua memória em funcionamento frenético. E de repente se pôs a correr, porque havia pouco tempo, não saberia exatamente quanto, mas bem pouco, para encontrar as pessoas e provar a si mesma que a vida tinha valido a pena.

Trecho de "O escritor, o pintor e os dentes brancos do Morais"

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Paixão de mudar

É preciso saber perdoar porque nada do que se diz é definitivo. Eu queria uma casa de tijolinhos vermelhos (quem sabe brancos), muita madeira, vidro e verdes. Você sonhava com finas porcelanas e vitrais luminosos por trás de imensos gramados. O céu da rua antiga absorvia todos os desvios e tudo era uma névoa prateada e muito enganadora, mas pelos ires-e-vires nossa vida luzia mais que teus vitrais.
O trem cor de sujo, tão cansado em seus trilhos imutáveis, me dá a entender que meus desejos verdes eram sintomas de uma paixão de mudar. O mundo em geral nada tem a ver com nossos sonhos mais queridos. E você, eu acreditava, eu confiava acima de tudo, nunca passaria a integrar o mundo em geral, seus trens imundos e suas passarelas enferrujadas. Perplexa, tento assimilar essa estranha percepção de você externo a mim. Porque você continua em carne e osso, e o que ficou em mim foi marca, lembrança de sensações. Nem mais uma secreção, nem uma célula morta ou fio de cabelo. Nem um calor. Bem que às vezes eu achava sua voz um contorno vazio, mas quando se ama é fácil desentocar os pressentimentos das dobras mais fundas do coração. Coloria teus contornos com cores quentes, satisfeita dessa tarefa como se estivesse muito segura do futuro.
Quando chove, emigro de onde estou – nunca muito perto. Flano por um mundo espúrio. Vejo, sinto, penso, sempre regravando a fita de minha memória, e fico programada de tal forma que às vezes me surpreendo com tão completo arquivo. Comporto-me como uma filha pródiga de mim mesma, e não me espanta estar sozinha. O que me espanta é não te encontrar. Parece que fui sozinha a teu lado. Construí demais sobre uma realidade rasa.
Fiquei com a cidade, que de resto sempre foi minha, e a empresto a você. Em cada praça você me oferece uma flor de algodoeiro-da-praia, em cada rua deserta nos olhamos e todos os cenários estão eternamente prontos para de repente. Vivo paralela à esperança do eventual, dos olhares que podem se encontrar. Bem-aventurados os espúrios, que podem criar uma infinitude que aos olhos dos outros se parece com o nada. Aceito sem medo a bebida que a infinitude me oferece, e há quem veja nisso um risco e uma imprudência. Mas ser prudente é estar sempre pensando na morte.
O que mais amei em nós foi que preenchemos o silêncio um do outro. Fomos dois sozinhos numa noite sempre estrelada. Presença que às vezes era como uma ausência, e por isso me extasiou desse silêncio pleno. A lembrança mais funda dispensa palavras porque não se explica. O passo amado pode ser leve e sutil, mas sempre será percebido porque é o que se deseja ouvir.
Você sonhava suntuosidades. Para mim, a estante da sala bastava. As sementes de fícus caídas na calçada para estalar sob os pés, a infância preservada nas manhãs. Pensei que tinha descoberto o sentido mais singelo de tua ambição com o mesmo ânimo com que um dia descobri um pedaço de sol dentro de teus olhos e a textura irrecusável de tua pele. O que me faz sentir a solidão é que não posso achar utilidade para minhas descobertas que nunca existiram, para o silêncio que me impregnou toda. Transgredi o limite onde é preciso deter-se, a partir do qual o mundo passa a te olhar com desconfiança e logo com desprezo. Depois desse limite fica o desterro. Do lado de lá falta o ar de alguma aprovação e a audácia é uma flor que nasce murcha.
No entanto ainda quero meu caramanchão de jasmim-estrela. Quero nosso amor de volta, com direito a parar no tempo. Quero a porta sem chave e a expectativa das ruas do presente. Mesmo o trem sujo de lama pode passar. Pode chover na memória, porque ainda me parece possível o estado inexplicavelmente venturoso de ser tua para nunca mais. Quero um vôo e um pacto de vida combinando: nós não vamos morrer. Ninguém promete nada nem se obriga. Porque uma vela que se apagou pode se reacender, por mais negro que esteja seu pavio, por mais derretida a cera. Que os trens prossigam nos trilhos. O homem foi feito para despertar amor e a história nunca se repete igual, assim como as árvores que florescem a cada primavera. Iguais são as convenções, a cegueira de respeitar o que não muda, a mentira de prescrever caminhos para o amor.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Nome de auditório

Acordou com a estranha sensação de estar resolvida. Estranha para ela, conhecida pela prudência e ponderação com que tratava de seus assuntos. Em família, entre os amigos ou no trabalho sempre tinha sido acima de tudo sensata e criteriosa. Nunca fazia concessões à pressa, nunca se precipitava. Mas naquela manhã de abril acordou de estalo, decidida e ativa, e fez em quinze minutos o que normalmente levava quarenta. Nada de meditação na cama, alongamento meticuloso antes de botar o pé no chão. Só uma espreguiçada das boas. Nada de creme, intervalo para que a pele absorvesse o creme e protetor solar por cima. Menos tempo diante do espelho antes de sair do quarto e começar o dia.
Mas aí começou a parte mais espantosa da coisa: na universidade, antes de entrar para a aula das sete – tinha chegado tão cedo naquele dia! – um mal-estar insuportável tomou conta dela quando cruzou com o professor Tadeu Lima no corredor. “Estrela ridícula”, surpreendeu-se resmungando. Olhou rapidamente para ver se alguém teria ouvido o comentário inconveniente, mas não se arrependeu. Sorriu confiante ao passar pelo grupo de alunos na cantina e notou certa surpresa em alguns rostos. Em vez de se perguntar por que estariam olhando tanto para ela, deu de ombros. “Estão acostumados a me ver reservada e distante, como se também eu fosse uma candidata a estrela”, explicou para si mesma e entrou na sala onde três alunos já a esperavam. O silêncio repentino com que a receberam era bem sintomático, mas sua reação foi bem-humorada e o sorriso os pegou de surpresa.
Mais tarde ficaria sabendo que havia sido apelidada Tadinha, por causa de sua amizade com Tadeu e porque os alunos desconfiavam que tivesse um caso com ele, o que era motivo de infindáveis piadas menos ou mais irreverentes. Mas naquele momento ainda não sabia disso. Por conta de uma intuição inexplicavelmente aguçada naquela manhã de abril, descobria coisas reveladoras sobre si mesma e sobre os outros. Mas o melhor mesmo era o bem-estar que isso lhe trazia. Achava graça nas coisas, via um lado alegre nos acontecimentos, interessava-se pelo que os alunos diziam, fazia perguntas, ria com eles. No fim da aula estava cercada de adolescentes barulhentos e – milagre! – isso não só não a irritava como a divertia.
O novo mood prosseguiu nos dias seguintes. Semanas e meses de bom humor e até de certa alegria descarada começaram a atuar em sua vida. Até então tinha reputação de pesquisadora zelosa e dedicada ao trabalho e de criatura tediosa cá fora. Para si mesma tinha sido sempre uma fonte de dúvidas, incertezas e inseguranças. Não tinha culpa de ter se cansado daquela eterna agonia, e se de um dia para o outro descobria um jeito de viver confortavelmente feliz, não desperdiçaria a oportunidade. Lia cada vez mais por prazer e menos por obrigação. Começava mesmo, com certo assombro que a divertia, a considerar a possibilidade de se desfazer de algumas dezenas dos livros acadêmicos que entulhavam sua estante e se empilhavam incomodamente junto a uma parede porque não tinha onde guardá-los no apartamento de sala e quarto onde morava. Saía mais agora, fazia amigos.
No departamento comentava-se aquela mudança espantosa com certa estranheza e algum despeito, por conta da irônica frieza com que Tadeu Lima, coordenador do departamento, professor emérito e catedrático internacionalmente respeitado, se referia a ela. Não só o comportamento dela tinha mudado, mas as angústias e aflições se desvaneciam como fumaça, e coisas que antes a teriam desgostado terrivelmente passavam à categoria de incidentes sem importância. A prova de fogo veio no dia em que Tadeu, até então seu reticente admirador, criticou o modo pelo qual ela estava conduzindo a orientação de um mestrando.
— Não compreendo o que está acontecendo, ele disse, e passou a ponta dos dedos no lugar do bigode raspado.
O gesto era sinal evidente de que vinha chumbo grosso.
— Como pode aceitar uma bibliografia tão pouco convencional? E que pobreza de idéias... Nem um conceito sofrivelmente importante, nem um autor digno de respeito citado nas referências. Não estou entendendo. Parece que o rigor acadêmico está um tanto frouxo por aqui – disse e fechou-se em copas, girando sobre os pés e saindo da sala.
Assombrada, não com a crítica, mas consigo mesma, ela tomou suas pastas, a bolsa e os livros. Saiu cantarolando e foi ao encontro do rapaz da monografia em questão. Um pouco mais velho que a média de seus alunos, quase da mesma idade que ela, o orientando desde o início tinha lhe passado serenidade e clareza na linha de sua pesquisa, embora não se enquadrasse muito nos padrões vigentes no departamento. Tinha decidido respeitar a direção escolhida por ele e ajudá-lo a alcançar seus objetivos. Não destruiria a originalidade para alimentar a vaidade de Tadeu. Sentou diante dele na sala de orientação e disse:
— Acho que vou perder meu emprego por causa do rumo que estou deixando você dar a seu trabalho. Se isso acontecer, você também terá perdido seu tempo. Quero que saiba que estou agindo assim porque acho que seu trabalho tem fundamento, que você está no rumo de uma visão inovadora do assunto e que acredito em sua capacidade de defender suas idéias.
Ouvia as próprias palavras com assombro crescente. Quando acabou de falar estava corada, o rosto pegando fogo e a visão meio enevoada. Mas notou que o rapaz, a princípio surpreso e meio atônito, aos poucos mostrava os dentes perfeitos num sorriso de pura alegria. Era isso. Não podia empanar a alegria, sua mais nova e querida aliada, tão evidente naquele sorriso, na originalidade isenta de contradições.
Não perdeu o emprego. Vendeu os livros que não lhe interessavam mais, exibidos muito mais por vaidade do que por necessidade ou prazer. Namorou o orientando enquanto lhe foi dado e desenvolveu com ele outra pesquisa, complemento da primeira, em que se questionava o caráter pouco democrático, anacrônico e de dúbia validade de alguns valores e procedimentos acadêmicos. Foi convidada para outro departamento, que acabaria coordenando anos mais tarde. Perdeu a fama de chata e conciliou com perfeição um desempenho quase brilhante com certo espírito dionisíaco.
Ah, ia esquecendo: a defesa da monografia foi um sucesso, e o orientando foi aprovado pela banca com três graus dez e um grau oito, que deram como média nove vírgula quatro, recomendada a publicação. O oito foi do Tadeu, é claro. O qual morreu no ano seguinte e virou nome de auditório do departamento.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

‘Para não falar de todas essas mulheres’


Matisse.


Luana saiu do restaurante convencida de que Juliano não passava de um menino mimado, incapaz de perceber as coisas em suas devidas proporções – e, pior que tudo, sem o mínimo senso de humor. Onde já se viu, fazer beicinho por causa de um fora dado em plena hora de almoço num quilo comercial?! Não devia nem ter começado, que aquele não era o lugar adequado. O que é que ele estava pensando? Por quem a tomaria, afinal? Devia ter percebido logo que daquele jeito conseguiria no máximo seu desdém, e que talvez mesmo esse já fosse demais. Na verdade, gostaria de nem estar mais remoendo essa historinha insossa.
Houve quem disfarçadamente acompanhasse o diálogo dos dois, e a olhasse com uma censura velada no olhar. Percebeu isso durante o trajeto em frente ao bufê, enquanto faziam seus pratos. Danem-se os outros. Tinha sido honesta, isso ninguém podia discutir. Dissera a ele tudo que fizera por ouvir. Como dizia sua avó, quem diz o que quer, ouve o que não quer. Um cara que mal tinha começado a fazer barba, estreando o primeiro emprego, imaginar que ela lhe daria atenção, era demais. Não se tocava, o Juliano, francamente. Depois, seus planos de futuro estavam traçados, e não havia de ser por causa de um fedelho daqueles que iria desistir de seus projetos. Crescesse e aparecesse. Que é que um carinha daqueles podia oferecer a uma mulher igual a ela, apta a fazer a felicidade de um homem maduro, experiente e realizado?
Trabalhou o resto da tarde tomada de certo mau humor, como se o almoço não lhe tivesse caído muito bem. Uma dorzinha de cabeça persistente piorava ainda mais seu mal-estar. E mesmo sem se aperceber disso, a presença de Juliano a incomodava como um sapato apertado. Acabou esquecendo o assunto com o telefonema de um amigo jornalista, recém-chegado de uma cidade do interior, cheio de novidades interessantes para contar. Combinaram almoçar no dia seguinte e isso restabeleceu sua disposição habitual.
Às sete chegou a seu apartamento, carregando um sanduíche natural da lanchonete ao lado do trabalho, como fazia quase sempre. Cheia de fome, ligou a secretária para ouvir os recados, enquanto largava os sapatos na área de serviço, deixava a bolsa no cabide do quarto e tirava o relógio e os anéis para lavar as mãos.
Pois não é que a primeira mensagem vinha na voz do boboca do Juliano? Num primeiro impulso, não quis escutar o recado. Deixou a torneira da pia toda aberta, e o ruído da água se misturou com a voz na fita. Só fechou torneira quando o recado chegou ao fim, para ouvir as outras mensagens gravadas. Eram só duas, uma de sua mãe e outra de uma amiga com quem conversava quase todas as noites. Tinha esperado outro recado numa outra voz, mas não havia mais nada para ouvir. Sentou à frente do sanduíche e percebeu que havia perdido a fome.
Desapontada, voltou à sala e tornou a ligar a secretária. Dessa vez ouviu a voz contida de Juliano como se estivessem sentados lado a lado. “Desculpe aquela história lá no restaurante. Não queria chatear você. Você tinha razão. Acho que até devo agradecer pela reação, mesmo que no momento tenha me parecido brusca demais. Foi como uma sacudida, que me abriu os olhos para o mundo que, na minha idade, está cheio de possibilidades que eu, feito um bobo, iria jogar fora. Afinal, ganhei o dia e talvez tenha ganho a minha vida. Obrigado mesmo, valeu, Luana.
Mas não me leve tão a sério. Mesmo que consiga fisgar seu velho milionário, nada impede que a gente possa se divertir juntos. Ainda não estou na idade de assumir compromissos, mas sou um cara cheio de saúde, com uma queda por mulheres gostosinhas. Além disso, você sabe, às vezes a idade e as preocupações que o dinheiro traz prejudicam um pouco o desempenho de um homem nas horas mais críticas.
Pense nisso, querida. Conte comigo. Beijos.”
Desligou a secretária e o clique da tecla pareceu estalar dentro de sua cabeça. A dor tinha voltado, o apetite fora embora de vez e ela empurrou a almofada do sofá para longe. Palhaço, rosnou, irritada. Palhaço, repetiu com menos força. Cafajeste, disse, um pouco mais alto, e repetiu lentamente, escandindo as sílabas.
Da janela chegava um resto da claridade do verão, que ainda não tinha terminado.


O texto acima é uma das continuações de um outro com o mesmo título, de Milton Ribeiro, e foi publicado por ele em seu blog da verbeat.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O mundo é um manicômio

Minha amiga Rima me pede para pegar uma bolsa esquecida em casa. Estou bem na hora de chegar ao trabalho, mas não tenho coragem de negar nada a ela, que está dando entrada numa clínica. Ligo para a secretária de meu chefe, mas o telefone dela não atende. Insisto, e uma vozinha fanhosa avisa que o telefone não recebe ligações a cobrar. Não estou ligando a cobrar, mas não há como discutir com uma gravação. Saio pisada e em pouco tempo chego ao edifício onde Rima reside, e que não conhecia ainda. Subo ao sexto andar, no elevador tento de novo o telefone, que dessa vez está ocupado.
Entro na sala e me ofusco de geometrias.
O centro de mesa está no centro da mesa. Não mais ou menos no centro, mas no centro exato, medido a compasso. Os enfeites do aparador foram dispostos em rígido paralelismo e a jarra de flores da mesinha colocada sobre um ponto medido a trena entre uma e outra extremidade do móvel. Quadros em simetria quase dolorosa, o relógio no preciso meio da parede entre uma e outra janela, e as cortinas – céus! As cortinas, que afinal são feitas de tecido, coisa flexível, de caimento gracioso e espontâneo – as cortinas foram milimetricamente pregueadas, dois pra lá, dois pra cá, e caem iguaizinhas feito clones escrupulosos. "Parece a casa do Monk", penso.
No parquê de losangos dois tapetes idênticos se repetem, eqüidistantes, medidos, cópias xerox um do outro, a iguais distâncias das paredes e do centro da sala. Para culminar, foi traçada uma cruz imaginária sobre a porta da entrada e, bem na interseção das duas retas, instalado um trinco meramente decorativo – porque nenhuma lingüeta atingiria tais proporções lineares. Custo a encontrar a fechadura, dissimulada sob uma lâmina de madeira para ficar invisível (com certeza um expediente para não dar o gostinho de fazer uma concessão gritante).
Vou até o quarto um tanto hesitante. O apartamento me faz sentir rejeitada. Há uma hostilidade latente no clima, nas coisas. Como se alguém quisesse me pegar pelo pé. Vou assim mesmo, mas antes não tivesse ido. Se a sala me parecera agressiva, no quarto nem cortinas havia, o espaço em preto e branco era severamente cortado ao meio por uma cama despojada e o único quadro, adivinha, bem no centro da parede diante da cama. Sobre cada uma das mesinhas laterais, uma pequena luminária de aço repetia a outra, ambas retas e centralizadas. Comecei a perder o fôlego. Fui até a pequena cômoda quadrada, laqueada de preto, bem debaixo da janela, e abri a terceira gaveta: lá estava, na mais completa exatidão central, a bolsa que eu tinha ido buscar. Fugi com o coração aos pulos, sufocada, as mãos suando frio. Aquilo não era um apartamento, era uma armadilha, uma prisão, um pesadelo.
Saí rapidamente do prédio, entrei no carro. Em vinte minutos entrava na clínica para doenças mentais onde Rima me esperava aflita. Quando me viu, sorriu aliviada e me estendeu os braços.
— Ah, que bom!
Abriu a bolsa avidamente e suspirou com um sorriso. Arrisquei uma olhada para dentro e não vi nada além do forro bege e dois ou três fechos ecler. Ela tornou a fechar com um estalido a bolsa vazia, que me estendeu de novo.
— Pode levar, por favor, e deixar na mesma gaveta e no mesmo lugar. Muito obrigada.
— Mas você não precisa da bolsa?
— Precisava, sim, precisava muito. Mas agora está tudo bem.
Chegou mais perto de mim e segredou:
— Tinha medo de ter esquecido alguma coisa dentro dela. Você sabe, não ia conseguir dormir se tivesse guardado uma bolsa com algum objeto dentro. Acho extremamente impróprio...
Não ouço mais o que ela ia dizer. Deixo-lhe um beijo nas bochechas, corro para o carro e jogo a bolsa no banco do carona. Tento outra ligação e nada, a vozinha dá seu aviso sem nexo. Começo a me preocupar seriamente, porque estamos em tempo de vacas magras e sou nova no emprego.
No segundo sinal, uma cara larga me assusta a meu lado. O pivete bate no vidro com o que me parece o cano de uma arma e está apressado, de cara feia. Não tenho como fugir, sinal fechado. Com gestos lentos, mãos à vista, desço o vidro.
— Passa a bolsa ou eu atiro!
Com gestos um pouco mais prestos, pego a bolsa bege de couro e entrego a ele. O sinal abre. Arranco, aproveitando um vazio deixado pelo carro da frente. Ainda vejo pelo retrovisor o gesto obsceno que ele me dirige, lá do meio da rua.

sábado, 26 de abril de 2008

Os doces pássaros



— Você gostou um bocado dele, não é, Nina?
A cara enigmática deu a entender que ela não ia falar do assunto e ele sorriu:
— Não precisa responder, se não quiser. Fico curioso de saber o que pensam e sentem agora os amigos daquele grupo antigo, separados e vivendo por conta própria há tanto tempo. Tenho a impressão de que só agora sei a dimensão e a importância para minha vida daquilo que vivemos juntos há vinte anos. Minha infância foi muito inexpressiva, não tinha noção das coisas até entrar para a faculdade e conhecer vocês e viver aquilo tudo que vivemos, que eu vivi – a militância, os sustos, as derrotas, mas também o orgulho e o entusiasmo, a certeza de que íamos mudar o mundo, a descoberta de quem eu era e do que podia ser. Eu me surpreendi comigo mesmo, se é que você me entende. Não imaginava que pudesse tanto, que fosse capaz de passar a perna em tanta gente, que tivesse coragem suficiente pra tudo que acabei fazendo e vivendo. E vocês foram a lenha para o fogo, o estímulo, vocês me ensinaram coisas, me fizeram ver a vida com outros olhos. Quando eu olhava para vocês, ouvia as conversas, via como agiam, aprendia que o mundo não é só o que nos oferecem em casa, que existem opiniões diferentes, gente preocupada com outras coisas, outra realidade de que a gente nem se dá conta enquanto vive como eu vivia entre quatro paredes, defendido do mundo como se não pudesse me misturar. Minha família era o que se pode chamar de pobres elitistas, achavam-se acima do resto da humanidade. À medida que fui crescendo e abrindo os olhos, percebi que estava respirando nada, vivendo num vazio, e que se quisesse conseguir alguma coisa na vida precisava me libertar, me misturar, começar a viver a vida que todo mundo vive, ser um com os outros. Em tempo percebi que o isolamento estava corroendo minhas potencialidades, minha vontade de me afirmar como alguém.
Parou meio engasgado, e Nina o incentivou.
— Acho tudo que nós fizemos muito importante. Se ninguém nunca se arriscasse para mudar o rumo da história, talvez a humanidade nem existisse mais na Terra ou ainda estivesse brigando pelo fogo. Agora pelo menos se briga pelo combustível, o que já é um progresso – falou, rindo. Mas não me refiro ao progresso da técnica e da ciência. Quando se acredita muito em alguma coisa e se age para melhorar condições perversas de vida, nos tornamos responsáveis por um refinamento do trato entre os homens, por um lado mais gostoso do viver, que se manifesta quando se abrem espaços de liberdade, independência, respeito pelas pessoas.
– É isso, ele confirmou com o olhar alegre. Mas nunca se pode querer ser mais do que um homem no meio dos homens, ou a gente se descaracteriza, começa a oprimir de alguma forma, senta em cima dos outros. Eu me refiro a uma qualidade interna, um sentimento que não pode ser abafado e que tem que ser ouvido porque é o que as pessoas têm de melhor. Mesmo que seja poderoso, rico e famoso, o cara tem que saber ser gente, entender que os outros têm os mesmos direitos que ele. E por incrível que pareça, há gente, muita gente, que reage a esse sentimento com unhas, dentes e armas. Levei uma sacudida com a morte do Alô. Ele se matou, não é mesmo? Não agüentou o tranco.
Nina fez um gesto rápido de assentimento, como se quisesse passar por cima desse item.
— Li a notícia. Percebi que por pouco eu não tinha feito o mesmo que ele em outro estilo, se tivesse continuado trancado dentro de mim. As razões dele podiam ser outras, mas o resultado ia ser o mesmo, só que teria sido uma morte lenta, consentida dia a dia. Quem se mata, eu acho, é porque fechou todas as saídas e ficou encurralado em um aposento acanhado demais onde não consegue mais respirar. Ele tinha vivido tão intensamente, e acabava com tudo de um golpe. Eu arrastei minha vida durante anos num marasmo completo até conviver com vocês e ver como exercitavam seus desejos, como se deixavam contaminar pela vida, pelas emoções, e como pareciam felizes e realizados. Até ser tocado pela febre do grupo. Na verdade, há várias maneiras de se matar – acrescentou um pouco pensativo. Mas estar vivo e não viver é pior que estar morto.
— O doce pássaro que não vai morrer nunca não é o do Tennessee Williams – Nina comentou, e trocaram um silêncio de cumplicidade.

Gentes

Mais ou menos às quatro e meia da tarde passa um padeiro em minha rua. A gente sabe que ele está chegando pela buzina poderosa, que se escuta por todo o quarteirão. Se estou em casa nessa hora, gosto de comprar uns franceses quentinhos para o lanche.
Mas há alguns dias passei a só descer se dona Carmita não estiver lá escolhendo seus pães doces e bolinhos, feitos pela mulher do padeiro, que são mesmo uma delícia. Mas se ela já tiver descido, fico bem quieta à espera de que entre em seu apartamento. Só então me aventuro a pegar o elevador. Porque dona Carmita fala tanto e tão alto, que já provocou incidentes desagradáveis no corredor do quinto andar e no elevador, segurando a porta enquanto comenta suas vicissitudes familiares, de saúde, e fala dos preços, dos netos rebeldes, do motorista do táxi que cobrou além do preço, do médico, da violência, e nunca termina o papo. Dona Carmita é dessas pessoas que começa a falar e esquece de acabar.

Tive um amigo assim. Era professor universitário, homem cultíssimo e de conversa bem mais agradável que a de dona Carmita. Mas não sabia como se pára de falar. Numa das inúmeras formaturas em que foi homenageado pelos alunos, meu amigo preparou um discurso escrito – ele, que sempre fazia lindos discursos quilométricos de improviso – e jurou a si mesmo que não passaria dos quinze minutos. Ensaiou na frente do espelho, pediu a mim e a meu marido que o ajudássemos a cronometrar o tempo da fala, e por fim chegou à tribuna todo seguro de si, as folhinhas arrumadas e numeradas, e começou a ler com sua bonita voz de barítono. Não resistiu, porém. Era mais forte que ele. Aos poucos as folhinhas começaram a ser esquecidas e, lá pela quinta, ele passou a ignorá-las solenemente. O discurso durou duas horas e quinze minutos. Mas foi um dos mais bonitos e comunicativos de sua carreira. Quando enfim acabou e desceu da tribuna, veio todo satisfeito em nossa direção. “Que boa idéia!” – disse. “Daqui em diante nunca mais deixo de escrever meu discurso.” Olhamos um para o outro e percebemos que o melhor era compartilhar a alegria dele, apertando sua mão e cumprimentando pelo desempenho.


Blue Molleskin. Auto-retrato.


Tenho um colega no Pilates, vítima de um AVC que lesou seriamente sua capacidade de locomoção e o deixou dependente de um par de bengalas ortopédicas. O braço esquerdo também ficou prejudicado, e só agora, depois de uns dois meses de exercícios regulares, começa a movimentá-lo e poder apoiar-se com ele na bengala. Tirando essa particularidade, é um homem ainda muito bonito. Deve andar pela casa dos sessenta, mas tem uma pele morena, sedosa e bem lisa, os olhos verdes e espertos e todos os cabelos na cabeça. Pois não é que o Alcides – esse é o nome que vou dar a ele – paquera todas as meninas que lhe passam por perto? Aninha, a fisioterapeuta, acha graça, todo mundo gosta dele, e o Alcides não perdoa: adora uma menininha malhada! Todo mundo tem um caso para contar sobre ele. O melhor de todos se passou dentro do elevador: quando eu ia entrando, esbarrei com uma lourinha de nariz arrebitado e músculos bem definidos, o rabo de cavalo balançando agitado, e ainda ouvi um “vai procurar alguém da sua idade, tio” que ela mandava para o único companheiro de descida. Adivinha quem era. Depois ficamos sabendo que o Alcides tinha convidado a loura pra o apartamento dele, aproveitando que a empregada estava de folga. Aninha se acabou de rir, e disse que o AVC dele foi mais leve do que parece, e só afetou mesmo dos joelhos pra baixo.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A carreira


Edvard Munch. A mãe morta.


Não sei o que dizer diante de tudo isso. Não estou bem preparada para luzes flores e aplausos. É uma novidade um pouco suspeita como um desconhecido. Melhor esperar alguém mais experiente para me orientar? Melhor ficar em casa e pensar bem antes de provocar uma avalanche da qual não sei se saio viva. Melhor parar. Não ter objetivo nenhum é como se concentrar em um só excluindo tudo mais, com a vantagem de não causar tanta tensão, porque não leva a lugar nenhum mesmo.
No espelho do fundo da sala às vezes vejo tia Matilde se penteando com aquele ar aparvalhado que a fazia tão ela-mesma. Não é um fantasma, apesar de tia Matilde estar morta há quatorze anos. É uma explicação. Ela nunca sonhou com alguma coisa que a afastasse do fogão, e por isso morreu feliz (mesmo), embora não causasse inveja a ninguém. Então imagino que desistir pode me levar de volta a tia Matilde. Mas – sabe o que é, ela nunca provou um palco. Sempre foi invisível e o maior elogio que recebeu na vida veio por tabela – “que delícia de empadão” ou então “ninguém faz uma lasanha igual à sua”.
Às vezes entra uma terceira imagem: sou eu, protagonista de um filme classe B, um policial americano em preto-e-branco desses que viram cult. Visto um tomara-que-caia de lantejoulas pretas e sapatos salto doze. Choro desconsolada num banco de praça. É madrugada. Sinto o gosto das lágrimas entrando pela boca e quero muito, mas muito-muito, entender o que estou fazendo ali, e quanto mais quero entender, mais choro e mais bebo as lágrimas. Nessa hora tia Matilde me olha com profunda satisfação, as sobrancelhas felpudas escondendo os olhos. Está orgulhosa da sobrinha.
Afinal, quero ou não quero cantar de novo naquele antro cheio de gente estranha? Eles parecem ter gostado, mas eu – nunca mais, the raven quote – por quê, por quê, por quê? É uma espécie de rancor que os leva a aplaudir e gritar e arrancar os cabelos, é isso? Estariam prontos a torcer por minha glória e por minha desventura. Tudo que me acontecer interessa a eles, mas querem novidades, boas ou más, isso não tem importância. Um ídolo tem que trazer sempre alguma novidade, depende dele, felicidade só não serve. Felicidade só serve mesmo para comparar com a desgraça que vem, tem que vir. As revistas precisam de assunto, os paparazzi têm que faturar.
Nada disso, argumento quase surtando, nada disso. Não é dessa massa que se faz a cultura? Sou quase cultura. Quase objeto de desejo. A dúvida se equilibra aí: não há como garantir nada. Não há seguro de desejo. Não quero ser quase coisa nenhuma.
Juntei as lágrimas num copo de cristal e fiquei olhando de encontro à luz. Brilham muito, isso me parece um mau agouro. Atirei longe os sapatos salto doze e tia Matilde faz um gesto como se fosse abaixar-se para recolhê-los. Adivinho que faz um jogo comigo e corro para tirar os sapatos de seu alcance.
Alguém me disse que Munch não teve modelo para pintar O Grito. Esse veio de dentro do próprio Munch. Fechei os olhos para só me ouvir. Ouvir o outro lado de mim. O outro lado da lua, da rua, do medo, do canto. Não canto só para uma platéia, canto para uma pessoa determinada da platéia, um canto que só eu ouço desejando que fosse ouvido só por uma pessoa. Canto para um canto da platéia. Um rosto da platéia. Um rosto que ultrapasse aquele momento, vá além e se desdobre em outros momentos que não têm nada a ver com a platéia que me ouve. Então ouvi uma voz no fundo do salão que me falava sem que aparentemente os outros ouvissem.
Canto para o que der e vier, e o cinema me envolve outra vez. Não choro mais. Agora caminho por uma rua na chuva, imagens em movimento no chão, faróis velozes riscando um plano duplo do asfalto. Agora uso um mantô cinzento mesclado, pesado, e as pontas de minha echarpe esvoaçam no vento cortante e hostil. Olho inexpressiva para frente, passo por latões de lixo e prostitutas semidespidas apesar do tempo. Começa a nevar. Sirenes chegam do fundo da rua, da esquina de um cruzamento fatal, onde quase todo mundo parece prestes a se acabar num acidente ao som de pneus derrapantes.
Mas quem sou eu – penso em plena projeção – para julgar uma personagem tão típica e tradicional, que ao se pentear depois de morta na frente de um espelho antigo expressa toda uma fase da civilização de um país, representa duas ou três gerações que me precederam, que nos precederam a mim e à platéia ululante, aos diretores de todos os meus filmes e aos autores de minhas canções? Tudo que posso dizer é que nossos filmes não são do tempo dela.
Bem sei o que posso esperar de meu classe B. Mas se eu ficar em casa esperando por alguém não tenho a menor chance de decolar. Melhor rumar para o fim da rua, já que entrei nela. Melhor seguir, melhor não prestar atenção em mais nada, tratar de ser feliz a meu jeito.
Os letreiros piscam e agora meu quarto é como uma janela de hotel barato perto da Broadway. Um tumulto do lado de fora me dá razão: é agora ou nunca. Com a garganta seca tento raciocinar. Recebo ou não recebo essa gente? Não pensei em tudo isso, mas quem pensa em tudo? Pensava num lado brilhante da coisa, refletores, flores, aplausos, e tudo isso se mistura agora com lembranças rebarbativas, vontades inexplicáveis de voltar atrás, a outros tempos, outros roteiros.
O rosto no canto da platéia é um destino incompatível com o meu, e a tal voz do fundo do salão a uma fantasia de mau gosto. O superego me faz voltar a um tempo falso como um alçapão no fundo do palco. Náuseas. Há flores espalhadas pelas tábuas do chão e alguém de um lado jogou um cravo vermelho bem em cima de meu pé. Tentei ver o rosto, esse rosto chamado desejo, mas logo a orquestra dá início a uma nova canção. Tia Matilde me sorri da primeira fila.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Assuntos de família


Gustavo Rosa. Cama-de-gato.


Dia Metral vivia mergulhado em suas lucubrações. Era um tipo radical, fechadão e de poucos amigos. Desde os tempos de escola, nunca admitiu ser contrariado ou desmentido em nada, embora sistematicamente contrariasse todo mundo.
Quando se apaixonou por uma vizinha, moça muito dócil, e decidiu que se casaria com ela, foi vapt-vupt: em dois meses eram marido e mulher. A senhora Metral, que se chamava Peri, agora Peri Metral, mantinha a calma em qualquer situação e tentava resolver tudo na conversa. Contornava as situações com muito tato e diplomacia. Evitava brigas com vizinhos que contrariavam Dia e amansava-o com jantares e sobremesas deliciosas.

A rabujice e a teimosia de Metral no entanto começavam a incomodar a pobre mulher além da conta. Tentou discutir a relação com ele, mas a resposta foi um taxativo vai pra cozinha. Peri, que nunca tomava decisões impensadas e contornava todas as dificuldades, foi ficando, como se diz por aí, cheia de tanto radicalismo e acabou pedindo o divórcio. Dia Metral ficou azul, roxo, vermelho e depois deu um murro na mesa. Peri correu para o quarto com medo dele, mas conseguiu o que queria: deixou de ser Peri Metral e voltou a usar o nome dos pais, senhor e senhora Frase.

Peri Frase não demorou muito a encontrar outro marido, o cordato Circunlóquio, que se tornou o homem de sua vida e com quem teve uma ninhada de filhos encantadores e prolixos.

Quanto a Dia Metral, após dez anos de solidão, encontrou enfim a musa de seus sonhos e não perdeu tempo: casou com ela e viveram brigando para sempre como cão e gato. A nova paixão se chamava O. Posta.

domingo, 20 de abril de 2008

Exercício da noite



Os longos pés de capim acompanhando a estrada do lado direito refletem um pouco da luz dos faróis. Fantasmagórico. À beira da estrada, imbatíveis muralhas. A vista da Barra iluminada em colares de lâmpadas, luzes enfileiradas, isoladas no meio de uma escuridão que de longe parece uma poça. Tudo visto de longe fica desprezível. Percepção – pensou –, percepção é tudo – e uma espécie de coro infantil em sustenido bem agudo espoca em sua cabeça. O engulho de silêncio desmorona, interrompido de repente como por um acesso de soluços.
Amanhã começo uma nova tela. Amanhã começo uma outra vida. Amanhã viro outra pessoa e deixo de me arrastar miseravelmente em dependências. Vou voar amanhã. Volto o rosto para fora e mergulho na noite, vento na pele secando os lábios, incomodando nos olhos. Abrir-se para a estrada como quem toma um novo rumo antes do amanhecer, bem cedinho ainda escuro. O que estou vendo agora é a embalagem do presente, o presente que chega amanhã para mim, que abro amanhã de manhã. Impossível ver através do papel de embrulho, mas é minha nova vida embrulhada em treva.
Nenhum prodígio. Nem tarô nem mapa astral. Tudo verdade, aqui e agora. Ai, que aperto no esterno, garganta em nó. Nem sequer posso dizer o que sou enquanto viajo a seu lado, e meu crânio pode explodir a qualquer momento e sujar o carro todo. “Tá com sono?” Você, desinteressado. “Já estive”, eu, enigmática.
Rio em silêncio sem mexer a boca. Rio dentro do plexo, do ventre à garganta. Toda direção não escolhida é um descaminho, podia ser outra, não podia? Então não é outro caminho, mas o caminho escolhido. Que se abre como uma serpente luminosa no escuro prestes a clarear.
“Que que aconteceu?” “Nada, até aqui não aconteceu nada.” Olhar de esguelha. “Cê tá calada. Fala alguma coisa aí.” “Então pára aí um pouco.” “Pra quê?”
Escolhi um terreno que não é aquele que me ofereceram. Capino o terreno que escolhi, pronto. Só cresce aqui o que eu quero e nem olho para os lados. Chegamos ao ponto em que falar ficou inútil, tanto nos embrenhamos no irremediável. Meus pecados prescreveram num azul distante de montanha, e agora preciso de pecados novos. Acordei balançando numa rede sobre o abismo. Já não há montanhas à vista e achei melhor descer. Caminho para a terra firme do vale que é onde gosto de viver. Não há mais leite morno que me salve da escuridão da noite.
Dores de parto na noite escura, dores provisórias como todas as dores de parto, definitivas como todo parto e seu produto. Como quero bem a mim, não posso querer bem a você que não é eu e quer me converter em você. Tentei mostrar, insinuei, expliquei com riqueza de detalhes e gritei até ficar rouca. E a resposta, única e cega: “mas por quê?” Se ao menos você pudesse, talvez também eu pudesse – mas é melhor esquecer. Teus planos só me incluem se eu for você e é nisso que você me aterroriza. Cabe alguém além de você mesmo nesses planos? A resposta tem por base repetidas experiências em que as variáveis foram mantidas e que se prolongaram por uma e meia década de um mundo alheio, alienante, alien. Ainda por cima com prazer. Mas com prazer todo mundo sabe o preço.
Capim busca o céu, coisa ordinária em exercício de alongamento, empertigadas criaturas sem nome. Criaturas sem nome podem ser felizes? Não vêem nem ouvem nem vibram nem choram. Às vezes penso que tudo, mas tudo mesmo, até as bactérias e os protozoários, são a seu modo réplicas do homem. Alguém já disse isso, não me lembro quem. Micróbios de bigode, camarões falantes, fibras lenhosas sentimentais, pedras que riem de rolar.
Eu nunca feliz contigo. Uma pedra teria sido mais. Um capim teria se alongado sem problemas a teu lado e nem ia querer ser percebido em sua liberdade de capim. Quando pensei que era livre, dei de cara com uma figura desprezível: era eu diante de um espelho assustado. Mas como, enquanto dentro das moitas até bichos noturnos orquestram suas vidinhas. Depois que descobri o que sou, só amanhã vou saber como ficam os bichos da noite e os do dia, os de perto e os de longe em sua natureza de bichos. Há uma diferença entre fruir as vozes da noite e se fundir com elas. Me percebi em diluição.
Amanhã começa outra vida. Uma vida que rói as vísceras, uma ansiedade florindo em redoma. A noite veloz só anuncia: coisas novas chegam amanhã. Como será te deixar para trás? Como será deixar de doer assim calada e passar a doer em liberdade rasgada? Será que brota desejo em terra mais fértil? A vida se adianta como miragem e renasce sempre mais adiante. Talvez descubra que chegou o fim e não haja mais nada a desejar, e poderei enfim viver de minha própria carne.
Mil vezes já passou esta noite. Mil vezes ela foi ensaiada em desespero e paciência e agora irrompe diante de mim e me deixa calada de saciedade. Um pouco de temor do desconhecido, é verdade. Uma felicidade corrosiva e difícil. Como será recomeçar do que nem se conheceu? Minha vida é uma trama oriental de muitos tapetes, e você me ajudou a tecer tantas agonias como grandes estofados bizantinos num palazzo veneziano alagado de medo.
Não me apresento bobamente para tua aprovação, não fujo como em outro tempo e também não suspiro mais por você. Não te consulto – eis a grande novidade. Estou em outra dimensão da vida, uma dimensão que você não conhece e não está autorizado a freqüentar. Agora preparo mosaicos em imensos painéis que podem se animar a qualquer momento e preencher o céu com desenhos sem utilidade prática. Posso me dar ao luxo.
A glória que você podia me oferecer é uma grande morte com que não conto. Vou voar em outra direção, talvez na direção do capim que se alonga, e minha imagem vai renascer disso. Ainda não conheço todas as imagens de meus painéis. O resto se abre como o céu e você não está nele.
Estradas esquecidas que o carro desperta, estados sonolentos que passam velozes, tempo quase ausente. Quero ter tempo para experimentar. Pressentimentos como flores invisíveis em copas muito altas. Como você é fútil. Pensa que sabe tudo. Pensa que já decidiu o destino do mundo e não tem sequer os diagnósticos, porque o espaço é pouco para o mundo e você.
Alguém vigia, há vida lá fora: um cão de guarda está prestes a atacar. A cólera se adiou até o limite. Um golpe traiçoeiro derrubou o dono da noite. Amanhã é outro dia. “Tá com enxaqueca outra vez?” Meu riso explode, escapa escandaloso. Pequeno gesto de reprovação: “que boba”, você diz. “Que é que você tem na cabeça?”

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Patético

Deste lado da cidade os edifícios são todos de concreto armado. Cinzentos. Sempre passo calado, seguindo esse alinhavo branco desenhado pelo chão do viaduto. Não há com quem falar enquanto corto caminho por aqui. Vou de encontro ao vento que vem dos corredores entre os prédios. Ninguém passa a pé por aqui, deve haver uma interdição qualquer que explique isso. Mas não costumo me preocupar com interdições, que são decisões alheias. Sou como o vento – quando é preciso fazer alguma coisa, faço e pronto.
Fujo do caminho que todo mundo usa. A rua lá embaixo tem calçadas cheias demais de gente que vai e vem, forçando passagem, se esbarrando, obrigando a desviar a todo momento. Quando não é a chuva entrando pelos poros, e a rua inteira vira uma sarjeta e a gente vira lixo molhado.


Foto Berenice Abbott. Nightview of New York. 1932.


Aqui de cima é o vento, menos ou mais forte, constante. O vento é impiedoso e julga a gente, porque é isento de culpa. Às vezes tenho a impressão de estar andando sobre uma roda sem sair do lugar como um hamster na gaiola, mas isso não me incomoda tanto como a calçada. E se houver chuva, posso me molhar quase sem testemunhas, porque os carros aqui em cima rarearam depois que abriram a via expressa para a zona do subúrbio.
Outra vantagem é que evito as esquinas, sempre uma ocasião de esbarrar com bêbados ou pessoas suspeitas. Além das esquinas e suas surpresas, os cachorros e gatos atropelados junto ao meio-fio me incomodam. Pedintes com criancinhas de colo ou mal andando, sujinhos e remelentos, os mendigos de feridas à mostra, aleijados, gente dormindo pelas calçadas. A desgraça é pior que o vento.
Por essas e outras, prefiro subir o viaduto e caminhar até o trabalho. O vento corta meu rosto, e mesmo no verão é preciso trazer um agasalho. Não ligo pra isso, não. Sou igualzinho ao vento, me entendo com ele.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Homem-sigla

Lembrei agora de um colega de faculdade, o João Otávio Tavares Ayres, que todo mundo chamava de Jota ou Sigla. Jota era militante de um partido de esquerda, e várias vezes andou sumido. Um cara alegre, grande amigo, desses que não deixa ninguém na mão. Era o rei do disfarce, daquele tipo que dá nó em pingo dágua, e conseguiu escapar vivo dos anos de chumbo usando óculos escuros de vários tipos, com e sem barba, e houve um período em que perdeu 30 quilos e raspou a cabeça. Desse jeito escapou da prisão e embarcou para o Chile com um passaporte falso, enganando até os cães amestrados do aeroporto.
Em 1999 estava eu com uma colega no restaurante do centro da cidade freqüentado pelos funcionários de minha empresa, por causa da comida simples mas muito boa e dos preços melhores ainda, quando avistei Jota atravessando o salão. Tinha recuperado a aparência antiga, cheio de corpo, cabelos meio alvoroçados, agora grisalhos. Fui a seu encontro toda alegre. “Oi, Jota! Que bom te ver!” Ele sorriu embaraçado. “Está falando comigo?” Achei que estava brincando, e ri também. “Não está me conhecendo? Sou a Nina, da faculdade.” Fez um gesto discreto e respondeu “desculpe, acho que está enganada”, andando em direção à mesa de canto. “João Otávio, não acredito que você...” “Olha, não conheço nenhuma Nina, não fiz faculdade e meu nome não é esse.” Sentou sem me olhar e se concentrou num pedaço de torta. Peguei o guardanapo a sua frente e anotei meu número de celular.
Nunca mais o vi. Durante anos esperei uma ligação. Agora meu número mudou e não almoço mais no centro.

(Publicado no blogQuem conta um conto, aumenta um ponto)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Quem foi mesmo Susan Hayward?

Parou no meio da manhã sem saber para onde ir. Não sairia como sempre, depois de um banho caprichado, bem arrumada e perfumada, rumo à sala feia que esperava uma reforma com quem ninguém mais contaria. Não mais as caras do dia-a-dia, os sorrisos-de-corredor, tudo bem? Nem a chatice do Zito, a camisa xadrez do Lulu, o ar entediado de Inês. Não sentiria fome a caminho do restaurante de cadeiras azuis. Não tremeria um pouco a cada parada inesperada do elevador entre dois andares, não sentiria o tédio dos caminhos de sempre.
Um dia sem dono. Olhou com desconforto o quarto ainda desarrumado e doeu uma dorzinha machucada no fundo do estômago. Vinte anos, aliás vinte e três e três meses, sob o poder da garatuja traçada em sua carteira de trabalho com aquele retrato com cara de Susan Hayward (quem se lembraria mais de Susan Hayward) e da tinta preta que arruçara com o tempo.
Coisa mais besta, o carrossel da memória e suas imagens inúteis.
Estendeu a mão para o jornal e abriu na página de programas. Livre para escolher, adiar, sofrer ou fruir a vida. Para começar, ia ao cinema.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O baú perdido



O doutor Laudelino Ancelmo de Molina y Márquez era um médico venerando, descendente de nobres espanhóis. Tratara dela em Búzios, onde passavam umas férias de fim de ano, ele com um filho, a nora e um neto em sua imensa casa de praia. Nina passara uma noite atroz com dores no ouvido e de manhã estava febril e abatida. A amiga com quem dividia o quarto na pousada de Geribá se lembrou que na casa da esquina havia um médico. O doutor Laudelino cuidou dela com um carinho especial e se empenhou em visitá-la duas vezes por dia até o fim da semana, trazendo toda a medicação necessária. Passada a crise, ele a acompanhava até a praia quase sempre, alegando que Nina era muito jovem para saber se cuidar sozinha e ele desejava preservá-la de outra otite naquelas férias. A princípio ela achou graça na elegância um pouco emproada do médico. Sua companhia a incomodava um pouco às vezes; ele limitava seus mergulhos com autoridade, e alguns dias mais tarde foi à pousada levar um par de protetores de ouvido. Era um cerco delicado, porém firme, que a fez pensar em como seria agradável tornar-se uma viúva rica ainda jovem. A essa altura ele a presenteava com flores e, como de vez em quando ainda a acompanhava na hora da praia, comprava-lhe biquínis, cangas e vestidinhos pelos quais ela manifestasse um mínimo de interesse. Acabara por se afeiçoar ao doutor, que não demorou a lhe propor casamento, com as mãos dela entre as suas, macias e bem-tratadas, apesar de algumas efélides. Gostava de seu cheiro discreto de rosas e continuou a recebê-lo em seu apartamento no Rio, preparando para ele biscoitinhos e trufas que ele devorava com um brilho de cupidez nos olhos.
Tudo parecia perfeito. Casariam dentro de três meses e iriam morar no Leblon, onde ele mantinha um vasto apartamento de cobertura em frente à praia, servido por três empregados, cultivando orquídeas no terraço e colecionando santos barrocos, ao lado de um velho gato angorá mal-humorado.
Faltavam só quinze dias para a data marcada quando o doutor Laudelino caiu fulminado por um ataque cardíaco no meio do luxuoso banheiro de mármore negro e rosa de sua suíte. Preparava-se para ir visitar a noiva, para quem levaria uma aliança cravejada de diamantes e rubis que Nina não chegaria a ver, porque desapareceu do quarto do morto sem que ninguém, exceto o mordomo, ficasse sabendo.

(Trecho de “O escritor, o pintor e os dentes brancos do Moraes”)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Relax, baby

A fila para tirar o passaporte era uma fábula. Nem acreditou, mas era verdade, era ali mesmo. Duas horas e pouco de sol na moleira. Agüentou firme, sem reclamar. Afinal, ia realizar o sonho de sua vida. Iam. Desde que se casaram planejavam cada detalhe, cada dia e hora que passariam em Paris. Na verdade, foi por causa do interesse pela cidade-luz que os dois começaram o namoro.
A tia, que morava no apartamento em frente ao deles, achava cafona sonhar com Paris. “Uma cidade que nem tem praia”, dizia desdenhosa, mas Moniquinha ria dela. “E você acha que eu quero ir a Paris pra pegar praia? Tá com inveja, tia?”
As passagens foram marcadas numa batalha para aproveitar os dias de folga que Leleco ia ter em julho. Saía caro o serviço da agência e a reserva do hotel, 10 vezes sem juros, oito dias e quatro noites. Iam ficar meio endividados. Paciência. Um sonho não tem preço. Era a alta temporada, a cidade devia estar uma glória, e ela ficou sabendo que fazia um calor senegalês na Europa, da Bélgica pra baixo.
Também ficou sabendo que no verão os hotéis ficam entupidos, um entra-e-sai dia e noite, barulho demais e serviço meio avacalhado, pontos turísticos prejudicados pelo excesso de povo nas ruas e corredores. Ouviu dizer que convertiam em quartos sem janela os ambientes do saguão de alguns hotéis, tacando uma divisória sem isolamento acústico, que às vezes nem ia até o teto, porque o térreo quase sempre tem o pé-direito alto. Nesse caso, podiam dizer adeus ao sono reparador depois de passar o dia batendo pernas pelos quartiers, museus e mercados. Os restaurantes teriam fila na porta como se fosse dia das mães no Rio, e os bares de calçada de seus devaneios estariam todos lotados, apenas permitindo o espetáculo de senhores parisienses de ar rabugento tomando uma taça de vinho ou famílias de americanos tagarelando deslumbrados. Gente à vera. Perigava até chegar lá e a reserva ter sido passada pra outro hóspede sem paradeiro.
Nada disso os faria vacilar. Paris valia todos os sacrifícios, e tinha que ser agora, porque no ano seguinte talvez já tivessem um bebê. Para registrar todos os momentos daquela aventura, trataram de comprar uma máquina novinha, digital, cheia de talento e comandos que se aplicaram em decorar. Roupas novas para o grande dia, a calça preta que vai com tudo, jeans, bermudas, blusas e camisetas criativas não podiam faltar; tênis e sandálias, um agasalho leve para o caso de, e um modelito mais ousado para a noite, quem sabe o que o destino pode nos trazer? Malas novas, um jogo leve, chega o peso que vão carregar, nécessaire e bolsa charmosa.
Na véspera ela tratou de fazer as unhas no capricho, bom corte nos cabelos, limpeza de pele e massagem. Conferiu os cosméticos, pinturas, cremes, protetor solar. A tia só olhando, balançando a cabeça enigmática, e não conseguia ficar calada: “de onde vocês tiraram dinheiro pra toda essa farra, Mô?” Leleco tinha feito um empréstimo no banco, mas Moniquinha não ia entregar o ouro àquela enxerida. “Se preocupe não, tia, a gente se vira.”
Saíram no dia seguinte bem cedo. As coisas andavam complicadas nos aeroportos, tinham acompanhado o noticiário dos últimos dias. Realmente, um caos. Gente gritando, querendo agredir os funcionários, estresse total. “Tem que ter paciência”, Leleco dizia, tentando acalmar a família que esbravejava no check-in, mas o que ele dizia ficava perdido no vozerio geral. O painel avisava que o avião para Paris estava atrasado. Durante duas horas encararam a coisa com espírito esportivo. Tomaram um suco e um café. As duas horas seguintes foram menos serenas, porque, além de um quebra-quebra em potencial, o painel mostrou que o vôo tinha sido cancelado. Mesmo assim ainda acreditavam que com paciência e compreensão talvez as coisas se resolvessem. Quando o tempo de espera alcançou a marca das oito horas, estavam olhando o telão do jornal de tevê. Estavam exaustos e já desiludidos da viagem.
Foi nesse momento que a cabeça louríssima da ministra surgiu, entre alguns repórteres que lhe pediam uma sugestão para os usuários de viagens aéreas, e ela pronunciou as palavras que haveriam de torná-la célebre: “eu sugiro que relaxem e gozem”.
Não conseguindo conter a sagrada ira que lhe inspirava a situação, Leleco berrou um sonoro “sua vaca!” lá do canto onde estivera sentado. E se Mô não agarra seu braço com todas as forças, sabe Deus que outras loucuras teria cometido.
A dívida total vai levar uns dois anos para ser paga. Até lá, não haverá bebê nem gastos fora do essencial nem muito menos sonhos de viagem.
E foi preciso conter o Leleco de novo, quando chegaram em casa e a tia abriu a porta e começou “ué, vocês não iam…”

domingo, 13 de abril de 2008

A rede


Edvard Munch. Saint Cloud.


A Armando doía como uma perda a conquista de tanto território, chão novo refletindo tudo, paredes espelhadas em excesso. Não gostava. Desde a véspera sentia calafrios, a cabeça estourava a cada movimento. Nem do balcão do quarto, que Angélica chamava de varanda, ele gostava, por causa da grade fria, escura e de arabescos exatos que aprisionava a paisagem verde em outro lado do mundo. Não relaxava na cama e seu desejo gritava pela rede que tinham deixado no apartamento antigo.
O apartamento antigo ficava numa ruazinha pequena em Laranjeiras. As janelas dos fundos davam para umas árvores de folhas brilhantes onde ele tinha pendurado a rede, e sonhava que balançava debaixo dos galhos de quando era criança em sua terra natal. Estava aposentado por causa de uma doença de nome esquisito e tinha dado muita sorte com dinheiro: dias antes de sair a aposentadoria, caiu em suas mãos um prêmio de loteria, um prêmio grande o bastante para tudo aquilo que Angélica tinha inventado, dando pulos de alegria que o incomodavam. Nunca mais dormiria sossegado, nunca mais teria uma rede debaixo das árvores do sonho. Naquela nova casa tão grande não havia espaço para sua rede. As árvores ficavam distantes, a paisagem não o incluía e tudo era novo, lustroso e cheirava a tinta.
Angélica não acreditava nele. Queria que ajudasse e pendurasse quadros, empurrasse móveis detestáveis, atendesse ao telefone que não parava de tocar. Angélica ria, multiplicada em braços, dava ordens aos homens da mudança e tomava providências que lhe pareciam confusas, repentinas, que não chegava a entender. Nem queria.
Fechou os olhos com força diante da janela e quando os reabriu houve um segundo de espanto, pequena pedra num ponto qualquer entre o estômago e o esterno como um susto. Um momento solto no fio do tempo. A paisagem se moveu e estacou como uma criança brincando de estátua quando abriu os olhos. Sentiu náuseas, os calafrios voltaram. Um inimigo oculto teria sido mais confortável, pensou, passando a mão na testa. Havia um inimigo dentro dele, e Angélica não tinha culpa disso. Sua culpa não ia mais longe que a medida da sala.
Estirou-se na cama sem lençol e tornou a fechar os olhos que ardiam. Se ao menos dormisse, pensou de novo, mas o pensamento ia além das palavras, percorria um terreno secreto para si mesmo, onde havia talvez muita lama pelo chão e faltava até mesmo o desejo da rede. Estava imóvel, mas dentro dele havia uma aflição de procura que o fazia girar e se agitar sem descanso num lugar novo para ele. Estava cansado demais para responder à voz que vinha de longe, amortecida por uma espécie de ruído insistente que era como uma cortina entre ele e o mundo exterior. Desistiu de ouvir o que ela dizia, desistiu de tudo e deixou-se mergulhar numa penumbra morna que rodeava sua boca como água.
Ainda notou quando ela apareceu à porta do quarto e perguntou alguma coisa. Viu seus olhos muito abertos e um silêncio escuro foi engolindo tudo – Angélica, a janela da prisão, o teto com uns desenhos intrigantes – até que não viu nem ouviu mais nada. Não ia morar naquela casa hostil. Estava de novo balançando de leve na rede do Norte, tão macia que era como não estar em lugar nenhum.

sábado, 12 de abril de 2008

Epifania



Nunca fiquei sabendo o nome dela. Apareceu pela primeira vez numa tarde de sábado em que eu tinha saído pra procurar um CD novo do Tom Jobim, nem me lembro mais o ano. Parou a meu lado diante de uma vitrine e parecia absorta entre os títulos da lista dos mais vendidos. Era ainda muito jovem, morena clara, tinha os olhos espertos e escuros e o cabelo em cachos desalinhados presos numa espécie de rabo-de-cavalo. Apesar de vivo, seu olhar não se fixava e parecia pairar sobre as coisas e as pessoas.
Não demorei muito a sair em busca de outra loja que vendesse CDs e logo esqueci dela. Mas quando entrava na porta larga e iluminada, de olho nas prateleiras coloridas, ela me cortou o passo como se eu fosse invisível. Lembro que perdi momentaneamente o equilíbrio e me apoiei na estante mais próxima, que veio abaixo com os CDs em exposição. Nunca mais esqueci o embaraço e o mal-estar daquele momento.
Ela continuou seu caminho como se nada tivesse acontecido. Imaginei que fosse surda, porque ninguém na loja e adjacências deixou de olhar em minha direção. Creio que desisti do CD; só lembro que voltei para casa o mais rápido que pude, tomei um banho morno e fui pra baixo das cobertas ver um filme antigo do Tom Waits.
Não posso precisar quantos meses depois, ela me apareceu de relance num corredor de supermercado. Meu coração fez uma extra-sístole. Vinha com o mesmo penteado, a mesma cara de quem não está nem aí. Não parava em nenhuma gôndola, andava a esmo olhando ora para um lado ora para outro, e resolvi ficar a um canto observando seu jeito de andar e agir. Foi até o fim do corredor e dobrou à esquerda. Achei que estaria em segurança dobrando para o outro lado, e entrei numa transversal. Parei no balcão das aves e segui para os congelados semiprontos, minha salvação durante um período sem ajudante em casa. Levantei uma caixa de lasanha quatro queijos e ia colocá-la no carrinho quando um outro cheio de compras veio zunindo em direção ao meu. Alguém devia ter empurrado aquela cesta de arame com rodas, e mal tive tempo de evitar o choque, mas isso me valeu uma torsão no pulso que me fez chorar de dor. Um gerente do mercado veio todo solícito me ajudar, guardou minhas compras e me encaminhou a uma clínica das vizinhanças. Tudo que ficou em minha memória foi o rosto da morena, como sempre alheia e distraída, com seus cachos desalinhados sobre a nuca, cruzando a minha frente na hora em que eu entrava no carro, que o rapaz se dispôs a dirigir por mim.
Quase um ano deve ter se passado entre esse encontro e o terceiro. A visão da moça me causou sintomas de pânico, e eu me perguntava se não seria melhor procurar um bom psiquiatra para corrigir aquela reação despropositada – ou descobrir se estava tendo visões. Mas dessa vez venci o mal-estar e me dirigi a ela. Olá, eu disse, e tive que repetir, tocando seu ombro. Nesse momento seu olhar cruzou displicente com o meu como se nos víssemos todos os dias. Até sorriu brevemente, e logo me virou as costas e entrou numa lanchonete, enquanto uma moto de pizzaria passava tão rente a mim que fui ao chão com minhas sacolas de roupas, que voaram em todas as direções, e ralei seriamente o joelho.
Cheguei quase a esquecer a figura da moça morena, tantos anos se passaram. Quase vinte, sei lá. Meus filhos já estavam adultos, eu divorciada e com um namorado e um emprego novos. Mudara também de bairro, estava no Leblon, num apartamento claro e arejado de onde podia ver o mar pela janela de meu quarto.
Quase não percebi sua presença, de pé na beira da calçada, esperando que o sinal fechasse para os carros. Não tinha mudado absolutamente nada, os cabelos penteados do mesmo jeito, o olhar irrequieto e o ar ausente. Senti um desamparo de criança que se perde dos pais num lugar estranho. Quis voltar para casa, mas tinha um encontro com Lauro na choperia da rua ao lado. Segui meu caminho pisando com firmeza, não fosse algum skatista me atirar longe ou algum ônibus subir na calçada. Cheguei a rir de mim mesma, que ridículo, uma mulher de quarenta e poucos anos com medo de fantasma. Ia contar a ele, íamos rir juntos daquela história maluca.
Na esquina seguinte, vi que a morena entrava na choperia. Olhei em volta curiosa e meio assustada. Não havia ninguém atrás de mim, só uma garotinha de rua que me chamou de tia. Atravessei com passo um pouco menos firme. Entrei na choperia e Lauro me acenou da mesa junto à janela. Dei uma olhada rápida para conferir – ela não estava à vista. Ele veio a meu encontro e disse que acabara de chegar. Estava louca pra contar tudo, os encontros anteriores também, as coincidências desastradas. Ia dizer a ele, brincando, que tivesse cuidado, quando uma garçonete moreninha e meio descabelada se aproximou de nós, com ar ausente, sem nos olhar nem perguntar nada, e pousou a nossa frente uma tulipa suada grande, com colarinho, e um míni, como sempre gostei. Não toma esse chope, Lauro – foi última coisa que me lembro de ter dito antes do choque. Acordei dias depois e ele me falou da bala perdida – uma só, certeira, ninguém descobriu de onde vinha.
Lauro é meu melhor amigo. Vem ler para mim todo fim de semana, conversa, me traz DVDs, muita música – ele sabe como gosto de música. Faz questão de dispensar minha acompanhante e se responsabiliza por mim. Insiste para me levar ao cinema ou ao teatro, diz que a cadeira de rodas não atrapalha em nada, que há milhares de pessoas assim pelo mundo e todos passeiam e se divertem, que não entende por que não saio de casa. Mas toda vez que olho a rua ela está circulando pelo calçadão ou sentada no banco junto à entrada do prédio. Já se passaram quinze anos, e ela não mudou nada.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Técio

Conheci Técio no esplendor de meus dezoito aninhos. Não se fazia blog nem se usava e-mail naquele tempo. As mensagens vinham por bilhetes, cartas, telefone. Ninguém era amigo virtual, não se namorava por chat e muito menos se imaginava uma paixão em que um não conhecesse o outro na real. A não ser em romances ingleses, o amor precisava dos sentidos físicos para existir. A começar pela visão, passando pelo som da voz, uma que outra incursão táctil, até que se desse a implosão, o tremor de terra de que falava Luís Vilela num conto que inaugurou gloriosamente sua carreira de escritor.
Uma crônica de Martha Medeiros fala daqueles homens que vão logo avisando: “sou um cara difícil”. Eu devia ter lido essa crônica naqueles dias ditosos, que logo deixaram de ser tão ditosos assim, porque Técio tinha o perfil que a cronista descreve. Incauta, achei aquilo o máximo. Ao mesmo tempo que me enchia os olhos, o gato convocava em mim minas de ternura, sentimentos maternais, e ainda por cima, inexperiente e boboca como se costumava ser naquele tempo (e até hoje ainda se é um pouco aos dezoito, apesar de todas as revoluções das últimas décadas), me sentia a eleita entre todas as mulheres. Ele confiava em mim, se abria comigo, mostrava como lhe fazia bem contar com minha atenção e carinho.
Logo o lado difícil de Técio destruiria o que seu lado sedutor tinha construído. Não podia deixar suas paqueras porque era “emocionalmente muito instável”. Jogava flores em minha janela e escrevia poemas na calçada porque era um “passional”, mas no dia seguinte sumia sem dar notícias. Voltava como se nada tivesse acontecido e de repente armava uma cena patética de ciúme em qualquer lugar. Um dia entrou pela casa a dentro e invadiu meu armário procurando alguma coisa que confirmasse “uma suspeita que o torturava”. Percebi de repente que nada mais interessava a Técio senão seus próprios rompantes, o impacto que causavam suas palavras exaltadas, o culto que mantinha por sua personalidade azuretada.
Por sorte, mesmo as mocinhas românticas possuem um mancômetro. Algumas não sabem como usá-lo e até casam com um Técio, que para mim passou a ser sinônimo de egocêntrico irresponsável. Antes que minha vida virasse um caos de lágrimas onde não haveria lugar senão para ele, desapareci do mapa. Quando voltei, havia bilhetes, cartas, presentes e flores murchas que minha mãe foi empilhando num canto do quarto. Joguei tudo num grande saco plástico trazido por ela. O saco deslizou pela lixeira quase sem ruído.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Ípsilon

Chama-se Clédereley. Na verdade era Cléderelei, nome escolhido pela mãe, inspirado na mitologia escandinava, que tinha mexido com os arcanos da cabeça dela. Tentou conhecer as façanhas desse herói, mas dona Altina nunca soube explicar, bem ou mal, quem era ele ou o que haveria feito. Cléder andou pesquisando na enciclopédia que tinha em casa, a Conhecer; consultou o professor de história e um vizinho com fama de erudito, mas não encontrou quem explicasse. Em vez de duvidar das origens de seu nome ou da existência do personagem, se sentia ainda mais engrandecido pelo mistério.
Cresceu ouvindo comentários, às vezes irônicos, outras de uma admiração dúbia. Na escola a galera fazia chacota o tempo todo, e quando a primeira namorada descobriu que ele não era apenas um Cléder, mas um Cléderelei, fez uma cara engraçada e passou a sair com o Anderson, um garoto de má fama da sala ao lado. Na primeira tentativa de ganhar um emprego, o cara dos recursos humanos ouviu o nome dele e o olhou com ar de mofa. Não teve sucesso nessa nem nas tentativas posteriores. Verdade que não passara do fundamental e não aprendera profissão nenhuma. Mas seu amigo de infância, o Miro, estava ganhando uma baba como mensageiro no escritório do tio e sabia menos que ele.
Foi aí que lhe falaram da influência dos números sobre o nome. Procurou um guru com fama de infalível e mudou de nome: agora seria Clédereley, com ípsilon em vez de i. "O ípsilon é uma letra poderosa", me explicou. "Um som aberto, desdobrado, que vale por dois. Os orientais, em sua infinita sabedoria, têm muitos ipsilones no nome para atrair bons fluidos."
Conseguiu um emprego de garçom na semana seguinte. Diante disso, dona Altina agora é Altyna; o pai deixou de ser Clarindo e passou a Claryndo. E Cléder conheceu uma simpática morena chamada Alanayldes, o que só podia ser um sinal do além. Casou com ela e os dois tiveram logo no ano seguinte uma linda menina, registrada como Ylylyana.

domingo, 6 de abril de 2008

Recado ao morto

Você ainda pode ouvir a gente? Ao menos pode achar graça nas piadas que gostava tanto de ouvir e contar?
Pergunto tudo isso porque é difícil acreditar que não se consegue mais falar com você. Fico pensando no cafezinho da tarde, no grupo dos amigos do peito, daqueles leais, que não se escafederam na hora do aperto, nem quando ser seu amigo era um perigoso fator de instabilidade do emprego.
Você ainda é comunista? Pode jogar com a ironia de outros tempos? Porque, além de comuna impenitente, você sabia ser sarcástico sem ódio, o que é uma virtude e tanto.
Tua ideologia não te trazia qualquer vantagem. Acho mesmo que foi uma espécie de altruísmo, porque só atrapalhou, e mesmo assim você nem piscou, ficou do mesmo lado.
Era difícil para os adversários, você sabia ser indigesto. O que não é de admirar, porque ideologia é coisa pesada de carregar pela vida. Além disso, os adversários de mau caráter costumavam te odiar mais ainda por essa espécie de intrepidez de que eles seriam incapazes. Especialmente se você cai num ninho de neo-liberais ferrenhos, filhos de famílias da alta burguesia, um que outro até militante do CCC – você ainda lembra deles, de como eram ridículos?
O bom é que você nunca pediu atestado nem carteirinha a ninguém pra se aproximar e ficar amigo. Você gostava mesmo era de gente, de preferência de boa qualidade – nunca, nunca em função da roupa que usasse ou da marca do carro. Entre os humanistas que tive o prazer de conhecer, nunca vi tão libertário.
Agora acho que você era o responsável pela alegria daqueles momentos. O grupo ainda se encontra para o café da tarde, mas de repente cai um vazio no meio, o café esfria e vai cada um pro seu lado. Queria ao menos saber se você ainda sente alegria.

sábado, 5 de abril de 2008

A gata do vizinho



Hoje de manhã a gata do vizinho pulou o muro, entrou na cozinha e virou a tigela de creme de leite que eu tinha separado para o molho do fetuccini. Ontem emporcalhou a poltrona da sala com as patinhas sujas de terra infecta, trouxe uma barata viva para brincar no tapete e virou a jarra da mesinha para beber água.
Mostrei ao vizinho os cacos da tigela e aproveitei para falar de ontem. Fui firme, e educadamente mostrei a ele minha indignação. Além disso, nunca fui muito amiga desses animais.
Ele foi muito simpático, ouviu com toda atenção e aproveitou para me mostrar a ninhada dela, quatro bichinhos cinza-prateados de olhos azuis. Conversamos durante quase duas horas, durante as quais tive oportunidade de notar que seus olhos (os do vizinho) têm uma intrigante coloração verde-cinza e que sua voz ressoa docemente em algum lugar incerto da sensibilidade muito além do ouvido. Acabou me convencendo a ficar com dois filhotes, os mais bonitinhos. Para comemorar me convidou para jantar. Amanhã ele vem me explicar a melhor maneira de cuidar dos gatinhos e depois vamos ao cinema.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O vôo do esparro



Um vôo solo era tudo que Waldo precisava. Mais do que isso: era seu sonho absoluto, razão de sua vida. Marucho, um veterano boa praça, se dispusera a ensinar por causa de uma conversa ouvida na choperia que ele freqüentava escondido do pai, oficial da PM. A mãe tinha ficado horrorizada só de ouvir falar.
— Deus me livre, menino, filho meu não anda voando feito passarinho por aí. Isso é coisa de vagabundo que não tem o que fazer.
Ele engolia em seco e não respondia, mesmo porque responder nessas horas era cutucar o pai com vara curta.
— O mundo fica pequeno, dizia Marucho, tu nem faz idéia. Se tu quiser mesmo, eu te levo pra experimentar.
Ficou sem voz de tão maravilhado. Achou melhor não dizer nada em casa e combinou com Marucho na hora do colégio, onde ainda cursava a oitava série por causa de um ano perdido com pneumonias seguidas e outro repetido por causa da matemática da quinta. Ia matar as últimas aulas que não fariam tanta falta. Em casa tinha sempre uma desculpa.
Só o incomodava era o Loyola, sujeito marrento e metido a besta que passava pelos outros sem ver e agia como se fosse o dono de tudo e todos. Mas andava tão tonto de felicidade que nem aí pro Loyola.
Foi uma semana animal. Da primeira vez berrou feito um cabrito a perigo na descida da rampa para dar o impulso. Marucho riu da cara dele. Waldo era nervoso, e mesmo depois do terceiro salto ainda se agarrava sem jeito, tenso e pálido. Marucho conhecia aquele tipo. Waldo tinha medo que o outro se emputecesse com tanta frouxidão.
Agora precisava um equipamento, e o Loyola falou:
— Cara –, como é mesmo o teu nome? – tenho uma coisa lá em casa que deve te interessar.
Waldo o olhou com cautela. Às vezes, de onde menos se espera, quem sabe?
— Você não está acreditando, mas è vero – falava assim para se mostrar.
A casa do Loyola era sinistra. Piscina, mesinhas e barracas, árvores e flores. No fundo, uma asa vermelha estirada na diagonal e em letras brancas enormes: “Loyola, o bom”.
— Você tá sem grana, querendo uma asa, non è vero? Se quiser...
Era pegar ou largar. O cara estava disposto a dar a asa – era vero e era ótimo –, mas voar com aquilo ia parecer que era veado do Loyola.
— Topo, respondeu assim mesmo. Me ajuda a levar pro morrete.
No domingo seguinte estava solando em bons ventos. Nem se lembrava mais dos dizeres na asa. Desceu glorioso e foi aí que o Marucho o chamou num canto:
— A família do Loyola é dona do curso e não cobra nada pelo arrendamento. Mas ele cobra. Te prepara.
— Mas cobra, como?
— Bem-vindo, cara – o Loyola chegando, sorridente. Pode recolher meu equipamento e depois desce e vai buscar um copo de suco bem gelado.
— E a grana?
O outro nem ouviu. Aquilo era só o começo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Que bela gata amarela


Marc Chagall. Claire-de-lune.


Tomou o metrô na Siqueira Campos à tardinha. Vestia jaqueta de brim cinza, saia de leve algodão florido e sandália de dedo branca e azul. Nos tornozelos, correntes prateadas. Nos dedos – todos – anéis de variados tamanhos e materiais. Piercings orelhas acima e adentro. O cabelo era louro de farmácia, a pele queimada de praia, as unhas pintadas de preto. Óculos escuros tipo deixem-me só. Carregava uma mochila meio ensebada azul-cinza de náilon. Assim que sentou no canto da janela, penúltimo banco, escondeu o rosto no braço, apoiado no rebordo da vidraça, e viajou assim imóvel até a Saenz Peña, só os cabelos amarelos à vista. Esperou que o trem parasse e abrisse as portas, e foi a última a sair. Flutuou na saia leve como se voasse escadas acima, e se alguém fixasse o olhar em seu rosto veria as espinhas, mas isso não aconteceu. Ela foi mais rápida. Cruzou o espaço entre a saída da estação e o microônibus que a levaria até a Usina da Tijuca, acomodou-se no último banco da direita, junto à janela, e tornou a mergulhar o rosto no braço dobrado. Magrinha, miúda, imóvel e secreta.
Na Santa Clara, dona Selma entrava no quarto e encontrava o armário aberto e as gavetas viradas no chão. Logo dava falta de suas jóias e dos dólares, mais ou menos no momento em que ela apeava no ponto final do ônibus.
— A desgraçada! A larápia! – vociferou a gorda senhora. Nem ao menos sei onde essa infeliz se esconde. No segundo dia de trabalho! Por isso saiu sem se despedir! E eu nem sei onde...
No início da Rocha Miranda, mochila afivelada às costas, montou na moto que a esperava, o piloto de capacete negro, jaqueta de couro e bermuda jeans. Nos pés, chinelo de dedo. Manobrou de volta e desceu desembestado rumo à favela.
— Amanhã a gente se muda, gata.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Pontual esperança


Foto Emil Schildt.


Clarice terminou o banho o e rapidamente saltou para o tapete felpudo. Longe dali alguém iria dar por sua falta, e ela se afligia, sem querer abrir mão de nada: o creme, a água de colônia, a pintura dos olhos, a escova no cabelo, o batom. Sair de casa com aquele destino determinado significava ir ao encontro de alguma coisa: uma descoberta, uma novidade inesperada, uma renovação — ou alguma coisa que estivesse prestes a perder. Era sua forma conhecida de esperança. Nunca pensava na possibilidade de estragar um dia, ainda que as coisas não estivessem tão bem como seria de desejar (dormira muito mal, por exemplo, mas isso não lhe dava vontade de ficar em casa dormindo). Ainda que fosse como todos os outros, um dia era um pedaço de tempo. Desperdiçar tempo não passava de uma fantasia. Como estar na praia ou numa boate, na rua ou no cinema, e encontrar por puro acaso um homem inesquecível e mudar de casa, de itinerário e de vida para sempre. Ou, em vez de ir trabalhar na hora de hábito, fugir para o cinema ou dormir até as quatro da tarde e depois ir dançar como se nada tivesse acontecido. Mas como se daria qualquer dessas coisas, se ela zelava por seus dias, pelo que lhe competia fazer?
Djalma tinha feito isso com ela. Tinha se transformado num robô por causa dele, unicamente por causa dele. Sabia disso, mas sabia numa camada de si mesma à qual ela própria não tinha acesso todo o tempo. A pontualidade tinha essa raiz. Queria chegar antes dele, estar lá, como se disso dependesse a felicidade dele, a tranqüilidade dela e o equilíbrio do mundo. Mas era exatamente esse ponto cego o que a impedia de ser livre. E como não estava bem consciente do que lhe acontecia, não sabia bem o porquê de certos rubores inesperados ou ansiedades eventuais que a tornavam às vezes um pouco desenfreada. Nesses momentos – raros, é verdade –, improvisava, disfarçava, e tornava-se irônica, arrogante ou cômica.
E era tudo por uma esperança. Às vezes parecia prestes a reconhecer o ponto de encontro consigo mesma. Mas nesses momentos lhe vinha uma vontade de chorar quase insuportável, e esse era o consolo possível, secreto, fluindo mansamente. Chorar, com ou sem lágrimas, chorar sobre alguma coisa que não era imaginária, mas não se explicava.
Naquela manhã em particular esperava muito mais do que seria razoável; estava saturada de uma esperança sem fundamento. Tinha toda a vida pela frente. Era ainda muito jovem. Jogava a toalha para as costas, alongava a perna sobre a bancada da pia e observava umas lentas pontas de cabelo aparecendo ao longo da pele, ainda um pouco dourada das férias de janeiro. Olhava as unhas, suspicaz, e virava o pé para examinar a sola meio áspera no calcanhar, por causa das sandálias de verão. Pensou na roupa que iria escolher, uma roupa para aquele dia especial e igual a todos os outros. Parou um pouco à frente do armário sem pensamentos, isenta de tudo o que não fosse aquele ponto cego, o momento que viria. Sem preferir nenhuma das saias, das blusas, nenhum vestido, desceu devagar os olhos para as prateleiras de sapatos, de bolsas; quem sabe um deles lhe diria o que combinar. Aquele era um momento opaco que lhe acontecia quase todos os dias. O momento de se diluir um pouco, a conviver com algum compromisso carnal até encontrar uma roupa que lhe respondesse, deixando emergir a vontade de cor e textura daquele dia. Em geral não era um processo demorado. Mas olhar as roupas no armário, as bolsas, os sapatos era como se sentir a salvo de todos os riscos.
Pouco a pouco esses momentos a envolviam, porque não eram só dela; às vezes a faziam rir sem motivo, de leve excitada, e a embaraçavam como se de repente desse com alguém que a olhasse sem ser percebido. Até ali, naquele instante no banheiro, estivera indivisa, ocupada na simplicidade do banho, no ritual da toalha, nos cuidados de todo dia antes de sair para o mundo. Diante do armário de roupas, as sombras e a indecisão criavam um terreno fértil para intenções aliciadoras, para o desejo ainda obscuro, mas de alguma forma tão bem definido, que já não lhe pertencia de todo.
Sabia sem explicações: estava ali, madura e consciente do corpo e do espírito, associando idéias e sensações diante do armário e de sua meia-treva cheia de tecidos como bandeiras secretas. No começo do dia, sustentada pelo ritmo do coração, a felicidade se tornava iminente. Quando estivesse pronta e fechasse a porta atrás de si, essa esperança iria pouco a pouco se diluindo no ruído da rua, frágil e ameaçada como a vida.

sábado, 29 de março de 2008

Ontem perdi o emprego


Poster de Saul Bass.


Todos estão se preparando ou começando a almoçar. Olho a cama desfeita e meu pé toca o chão frio, é primavera. Está entrando alguém pela cozinha. Chove há três dias, as ruas estão meladas, e ontem tirei um casaco do armário. A noite foi inquieta, o telefone me fez ter um pesadelo com duas caboclas e suas filhas, sorridentes, cevadas e com colares de pérolas, tentando tirar de minha mão o controle remoto da TV. Eu resistia e mandei que arrumassem a geladeira. Acordei com o último toque do telefone. Uma e vinte. Havia acabado de pegar no sono. Liguei a TV e fiquei ouvindo um ex-embaixador velhinho sem ver sua cara flácida e manchada. Meu estômago parecia desgostoso. Levantei e fiz um chá. Foi bom. Fiquei ouvindo música erudita bem baixinho e dormi de novo. Às dez acordei muito triste, depois de novo ao meio-dia. Saí da cama ouvindo alguém entrar, era Cida, a vizinha, que tem a chave para emergências – ai, desculpa, vim buscar as panelas – panela não é emergência, Cida. Ela sai, fecho a porta e penso que depende. Aí faço outro chá e torro o pão de ontem cortado bem fininho.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Aquele cara da hora do banho

Gostava de deixar a água cair sobre a cabeça e escorrer pelo corpo enquanto imaginava coisas que nunca tinha vagar para pensar durante o dia. Era ali que lhe vinham as melhores lembranças, as melhores idéias. Do banheiro saía bem-humorado, contente da vida, e mesmo que o resto do dia fosse um saco, aqueles momentos o sustentavam como um bom café da manhã. Ele era como se fosse dois vivendo em sincronia. Um traçava planos, preparava projetos e lia planilhas incomensuráveis sem perder um detalhe. O outro deixava a cabeça solta, o pensamento vadiando à vontade. Um às vezes trabalhava até tarde sem se distrair um segundo; nem mesmo lembrava do outro que incorporava durante o banho, e que possivelmente era sua salvação.
Existem memórias de segundo plano (o que não quer dizer que sejam sem importância), das quais não sobra nada ou quase nada. São ou aquelas lembranças pouco agradáveis, que incomodam como pedra no sapato, ou então devaneios sem futuro que a gente lamenta ter que deixar de lado por impossíveis. Mas como é preciso seguir andando, a gente acomoda a pedra num cantinho da palmilha para que ela não machuque muito.
Enquanto tomava banho, arquitetava soluções para problemas, deslindava mal-entendidos, embarcava em planos e conjeturas ou mentalmente desenhava pessoas, caricaturas, imaginava histórias gostosas de imaginar ou fazia fotos que o divertiam. Livre da gravata, a água espadanando sobre a cabeça, podia se deixar encantar, enfeitiçar, curtir em pensamento alguém ou algum lugar que o tivesse impressionado ou agradado.
Deixava tudo vir à tona sem censura. Às vezes tomava decisões que mais tarde iam parecer despropositadas, porque vinham do tempo do outro, o duplo da hora do banho. Muitas dessas decisões eram como os galhos de trepadeira que invadem a janela da sala do vizinho. Mas era justamente isso que o agradava tanto e lhe fazia tão bem.
Foi num desses momentos, nu e liberto, que resolveu pôr fim à ditadura da hierarquia que dava um poder inexplicável a seu chefe imediato e aos mediatos, que já se haviam mostrado uma cambada de ineptos. A idéia o empolgou a ponto de ir quase fechando o chuveiro sem se enxaguar. Coisas da hora do banho. Mas estava tão completamente mobilizado que abreviou o ritual da barba, mal escovou os cabelos e esqueceu até de pôr aquele perfume com cheiro de macho, que era como um complemento de sua personalidade.
A mulher estranhou a pressa desusada com que ele saiu de casa naquela manhã. Em menos de quinze minutos chegava à companhia, e mal cumprimentou os porteiros.
Chegou à sala quase correndo, pegou os recados e lançou um olhar de raspão à pilha de papéis no canto da mesa. Virou-se para a secretária que o olhava desconfiada, porque em onze anos de convívio ele nunca se portara daquele jeito, e sorriu pela primeira vez no dia – ele, que sorria por tudo e para todos desde cedo. A moça suspirou aliviada. "Pensei que estivesse bravo", disse. "É", ele respondeu. "Acho que fiquei um pouco acelerado." Rumando para a porta, completou o pensamento: "mas é por uma boa causa." Em seguida disparou pelo corredor sem outra explicação. Entrou na sala do chefe do setor e rápido como o Flash foi até a cadeira de couro por trás da escrivaninha, onde ele desabaria seus noventa e tantos quilos dali a minutos, e plantou umas dez tachinhas de ponta para cima. Voltou cauteloso ao corredor e entrou na outra sala sem ser percebido. As chefias chegavam sempre depois das onze, já eram quase. Assim que ouviu as vozes vindas do hall dos elevadores espalhou dois tubos de superbonder nos assentos solenes onde eles logo se aboletariam e mais que depressa voltou para sua sala pela porta lateral sem ser visto por ninguém.
"Posso ajudar?" perguntou a secretária, chegando à porta.
Ele mexia na pilha de papéis. "Pode sim. Pega aí a variação da Bovespa. Depois liga pro Ipea e chama o Borges, preciso falar urgente com ele. A não ser o Borges, não deixa ninguém me interromper, tá?" Espalhou as folhas da pilha, e enquanto concentradíssimo comparava os dados, seu outro eu ria silenciosas gargalhadas.

sábado, 22 de março de 2008

Manu se perde no parque



É preciso começar as coisas do princípio.
Hoje é dia do aniversário da Bella. Bella é Isabella, filha de uma amiga e agora também coleguinha de minha filha na sala dos mais crescidinhos da creche. São lindas, as duas. Sempre digo que se tivesse outra filha queria que fosse igual à Bella. Minha filha, Nina, é morena, tem olhos rasgados, cabelo comprido e promete virar uma linda gatinha daqui a uns anos. Bella é loura, cheia de cachos dourados, parece um anjo daquelas gravuras de Natal.
Acordei mais cedo por causa do aniversário de Bella. A mãe dela marcou um piquenique no Jardim Botânico, bem lá dentro, onde é permitido comer e beber e há uma cantina em meio-círculo cercada de mesas redondas. O piquenique vai rolar lá pelas onze, quando começa o horário de almoço da garotada. O tempo está ajudando: ainda faz calor, mas o sol está meio escondido e corre um ventinho fresco de vez em quando. O trânsito não está dos piores, porque muita gente aproveita o sábado pra dormir até mais tarde ou vai à praia, e o Jardim é passeio pra quem curte a natureza, o verde. Nós adoramos, eu e Nina. Ela está aqui, no banco de trás, e me pede pra pôr o cd do High School Musical número 2, que toda a turminha adora. Já estou saturada de ouvir e ver o dvd, mas filho é filho, a gente acha forças e paciência pra essas coisas. A musiquinha começa, e aí percebo que perdi o caminho. Puxa, como é que fui perder a entrada? Continuo meio zureta em matéria de orientação espacial. Sou assim desde pequena. Toda semana me perdia nos corredores da escola, no caminho pra casa, que ficava bem perto, e até uma vez...
Mãe, diz Nina, não é por aqui – eu sei, eu sei, filha. Agora tenho que dar uma volta enorme lá pela Gávea, é isso? Nem sei direito, mas chego lá. Pronto, achei. Vamos chegar já, Nina – ela já se distraiu e agora canta junto com a Sharpey.
Chegamos. Enquanto caminhamos até o parque, imagino que se tivesse muita grana contratava um motorista só pra evitar essa perda de tempo, sem falar no estresse. Mas um motorista pode se tornar um problema pra uma mulher sem marido, como eu. Tem que ser alguém muito conhecido, recomendado... Chego a sonhar que estou perdida, numa rua estranha, num caminho desconhecido, e às vezes tenho pesadelos de acordar com o coração aos pulos, apavorada. Uma amiga me recomendou o analista dela, tomei nota do telefone e tudo, mas ainda não me animei a marcar uma sessão. O que é que eu vou dizer a ele? Estou satisfeita com minha vida, minha filha, não nos falta nada, graças a Deus tenho um bom emprego. O pai dela é empresário, faz questão de dar a ela a melhor escola, presentes, roupas, tudo do bom e do melhor. Somos amigos, nos entendemos muito bem quanto à educação de Nina. Ele tem outra família, outros filhos, dois, e nos damos todos muito bem. Francamente, será que preciso de terapia por causa dessa bobeira de errar todos os caminhos?
Olha, mãe, que lagarta enorme – Nina estica o dedo pra tocar aquele ser gorducho e listrado, mas consigo avisar a ela que o bicho pode queimar se encostar na pele. – Quem queima é taturana, mãe, essa daí só vira borboleta. Sabe tudo, Nina. – Mas é um bichinho gosmento, é nojentinha, filha – tento ainda, aliás inutilmente, porque Nina já vai aos pulos na minha frente. O sol apareceu com força, está linda a manhã, mas o calor aumenta. Não corre, filha – peço a ela, que não me ouve. Dou uma corridinha para alcançá-la, e Nina ri, brincando de pegar comigo.
De repente percebo que não sei onde estou nem muito menos para que lado fica o parque. Consigo fazer Nina parar e procuro alguém que me oriente. Andamos a esmo, eu e ela, o suor escorrendo pela testa. – Mãe, quero parar, ela diz, correndo para um banco. – Filha, vamos perguntar a alguém...
Nesses momentos, o mundo me parece uma sucursal do inferno. Foram quase quinze minutos, estou em pânico, mas afinal passa um daqueles trenzinhos do Jardim e consigo me informar. Engulo em seco, porque a mim mesma parece idiota uma carioca se perder dentro do Jardim Botânico. Uma senhora me lança um olhar bondoso que me arrasa, e pergunta suavemente se sou de fora. Não sou, não, desde criança venho aqui, vinha sempre com meu marido, penso, mas não digo. Sorrio de volta e continuo andando como se não tivesse ouvido a pergunta.
O aniversário estava ótimo. Sanduíches, frutas, sucos e guaraná natural. As crianças se acabam de correr, comem e bebem trazidas pelos pais, não querem deixar os brinquedos – balanços, casinhas de árvore com escorregas, quadrado de areia para os menores. Há muitas crianças, nem todo mundo é da creche, mas os pequenos acabam se misturando e arranjando novos amigos, uma graça. Depois vem a torta maravilhosa e chocolates para todos, que amanhã é domingo de Páscoa, tempo de chocolate. A conversa corre solta, as pessoas se sentem livres ali dentro. Horas mais tarde vai começar a romaria de crianças e mães à bica lá nos fundos, todo mundo lavando os pés, as mãos, o rosto suado. Alguns trouxeram roupas para trocar. Dali seguem para outros passeios, um cinema, outro aniversário, a casa dos avós, quem sabe.
Olho para eles com o peito pesado, pensando na volta. – Será que posso seguir vocês até o túnel? – pergunto à mãe de Bella, que junta as cestas e caixas para levar de volta ao carro. – Claro, Manu – ela responde com naturalidade. A meu lado, a mão na minha mão, Nina me lança um olhar muito estranho.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Do mau encontro



O homem chegou à varanda do apartamento e ficou olhando o mar durante alguns minutos. Depois tornou a entrar e voltou com uma flauta transversa prateada, que brilhava aos últimos raios de sol. Um som arrastado e melancólico saía do instrumento, que ele segurava com um cuidado e uma delicadeza perceptíveis, como se fosse um animal pequeno e frágil. Os dedos ágeis e escuros, longos, sensíveis, se moviam sobre o metal com virtuosismo, e a melodia foi se insinuando pelo espaço da tarde clara, que impregnava de um toque de magia. Subitamente o som foi interrompido por um ruído de campainha, um ruído rouco e breve que funcionou como um alerta ou um susto. O homem deixou a flauta sobre a mesinha redonda da varanda e sumiu no interior da sala para reaparecer minutos mais tarde acompanhado de um sujeito atarracado e suarento.
— O que é isso? – Perguntou o visitante apontando a flauta.
— Como, o que é isso? Você nunca viu uma flauta?
— Ah, é uma flauta? – Indagou o outro com cara de bobo, e ia pegando o instrumento de cima da mesa lustrada.
— Epa, não toque nela! Custou muito caro.
O gorducho fez um gesto de desdém e sentou ao lado da mesa.
— Ao menos posso sentar perto desse tesouro?
— Vamos ao que interessa – disse o dono da flauta, ainda de pé a sua frente. Achou o que eu encomendei?
O outro fez um gesto vago e amplo.
— Cara – ia começando a dizer, mas o dono da casa o interrompeu brusco.
— Não me interessam explicações nem desculpas, Moretti. Achou ou não?
— Me escuta, Moraes, pelo menos me escuta...
— Escutar o quê? Se não trouxe a informação que te pedi, vou logo dizendo, não precisava ter vindo me incomodar. E mais uma coisa: você tem três dias pra resolver isso. Nem mais um dia, deu pra entender? E agora vai, vê se te vira. Tenho pressa, entendeu Moretti? Eu, eu, eu – e apontava o próprio peito, agitado – tenho muita pressa, e não estou nada interessado no que você veio me dizer.
Voltou-se para fora, de costas para o outro, e bufou antes de encará-lo de novo.
— Você não passa de um babaca. Não vê que estamos correndo um risco desnecessário e que por sua causa podemos perder uma grana alta, líquida, fácil que está praticamente em nossas contas? Não gosta de dinheiro, Moretti? De que é que você gosta então?
O outro fechava a cara numa carranca assustadora.
— Pode ser que você queira encarregar outra pessoa disso – rosnou, acendendo o isqueiro.
— Apaga isso – ordenou o Moraes, arrancando o cigarro de sua mão e atirando-o por sobre o parapeito. E não volte aqui enquanto não tiver todas as informações. Ou vou ter que passar por cima de você, mas você nem vai perceber.
Moretti saiu pisando duro e bateu a porta com certo estrondo. Moraes voltara à varanda, mas dessa vez não tornaria a pegar a flauta. Seu olhar baixou para a saída do condomínio e ele esperou que o carro de Moretti surgisse no jardim e atravessasse o portão.
(Trecho de "O escritor, o pintor e os dentes brancos do Moraes")

segunda-feira, 17 de março de 2008

Do diário de meu tio

Passei em frente à casa de Marina. Gosto de ver aquela casa, tem um jeito que chama a gente. O jeito de Marina. Entrei lá duas ou três vezes, joguei botão com o irmão dela que mudou pra Recife e uma vez tomei lanche com eles. Depois de terminar o namoro com Marina às vezes passava lá, na esperança de vê-la na varanda como naquele dia, e contra toda lógica teimo em pensar que isso seria como um sinal de que tudo podia recomeçar.
O cheiro que vinha da casa era uma viagem. Pão doce, cheiro de pão doce fresquinho, novo, dourado. Imaginei a mesa posta, o aipim desmanchando na boca, a manteiga derretida por cima e aquela cobertura morena de canela e açúcar. Pãozinho francês estalando dentro da cesta de vime com o paninho de crochê de bico, branquinho e engomado de leve. A manteigueira, o açucareiro, o bule do café e a leiteira do jogo branco e azul. Os queijos, sempre três ou quatro, o presunto rosado e tenrinho, o requeijão cremoso, fresco, delicioso. O pote do mel de laranjeira, e na tigela branca os sequilhos, biscoitinhos de nata, ao lado do vidro bojudo das torradas e do outro, da geléia. Três ou quatro sucos naturais, um doce de goiaba, outro de leite; o bolo de milho no prato de pé.
Altíssimo astral junto à janela de vidro aberta para o pôr-do-sol e as montanhas azuladas. A mesa coberta pela toalha leve de xadrez miudinho e claro, recendendo a capim-cheiroso; os guardanapos bordados de florinhas e as xícaras azuis.
(Silêncio reverente, suspiro calado, profundo mergulho no âmago do ser.)
As margaridas no canteiro da cerca lá fora e gerânios na jardineira sobre o muro que esconde a área de serviço.
Daria muito por esse momento. Mas não fico muito tempo diante da casa. Tenho medo de que meu desejo se realize e ela apareça na varanda, caso em que eu seria bem capaz de perder a cabeça e voltar com ela, mesmo sabendo o que viria depois. Porque é verdade que seria capaz de dar quase tudo por esse momento – menos a liberdade.