
Contornados pela luz amarela do sol que sumia, os dois acompanhavam o movimento das embarcações diante dos antigos armazéns do cais do porto, então transformados em galpões usados em eventos esparsos e depósitos de guardados. Era a hora do crepúsculo, que naquele dia não estava particularmente arrebatador. Quando deram conta da presença um do outro, trocaram um sorriso. Ele falou primeiro.
— Já pensou se não existisse o mar? Se não fosse essa massa de água salgada que nos une, alimenta, diverte, refresca e ameaça, estaríamos ainda mais separados sobre o planeta – cada povo em sua terra seca no meio do nada, isolado por fossos abissais, habitando o quê? No mínimo não seríamos os humanos de hoje.
— Não dá para imaginar, ela disse.
— Mas esse mar que a gente está vendo não é o mesmo de Ulisses nem o do caos primordial.
Ela ficou à espera de uma continuação, mas ele caminhou alguns metros pelo cais. Depois voltou e olhou-a com uma expressão de ironia, mas logo sorriu.
— Imagina se no tempo do caos primordial ou na antiguidade grega você ia usar uma calça jeans de joelho desfiado e uma blusa top. No tempo do caos nós seríamos, na melhor das hipóteses, duas jovens amebas de beira de praia. Ulisses andou navegando no meio das sereias, esteve numa ilha em que nada mudava, até não agüentar mais de tédio, e vivia cercado de monstros e ameaças de que só ouvimos falar. Hoje os monstros mais assustadores que se conhecem são os escamosos fabricados por efeitos especiais no cinema. Ninguém mais acredita em sereias, e ilhas da fantasia só existem nas revistas de celebridades.
— Bom, o imaginário pode não ser o mesmo, mas o acidente físico, a massa de água salgada está aí.
— A diferença é que hoje em dia os homens já navegaram por todos os mares, não existem mais mistérios nem ameaças desconhecidas. As ameaças de agora são bem conhecidas... e sem graça. Já esperamos por elas.
Ficaram alguns segundos, talvez minutos, em silêncio.
— Mas ainda hoje existem navegantes aventureiros, ela disse – mais para dizer alguma coisa, porque o silêncio a incomodava um pouco, e também por curiosidade –, e muitas viagens continuam a ser tão ou mais perigosas quanto no tempo de Ulisses. Que é que você faz?
— Eu? Nada. Quer dizer, qualquer coisa. Sou um engenheiro desempregado, navegando no mar do mercado atrás de uma colocação.
— E os monstros são muitos? – ela perguntou, rindo.
— Nem me fale. E esses são de verdade. E você, faz o quê?
— Pinto e bordo, ela respondeu, um pouco provocativa. Estudo tecelagem e pintura. Enquanto isso vendo minhas mantas e uns quadros de vez em quando.
Ele chegou mais perto e olhou seu rosto com muita atenção. Ajeitou uma mecha do cabelo dela que o vento jogava sobre seus olhos e sorriu.
— Que foi? – ela perguntou.
— Nada. Seus olhos são muito bonitos. E por um momento você me pareceu familiar. Como é seu nome? Pode ser que a gente já tenha se visto em algum lugar...
— Penélope. Meu nome é Penélope – ela disse, e os dois ficaram se olhando. Hoje em dia esse nome soa estranho. Meus amigos me chamam de Pepê.
Ele pegou seu braço e quase a forçou a segui-lo.
— Vem comigo. Vamos tomar um café – e correu para pegar uma mesinha que acabara de vagar no deque. Senta, disse afinal, puxando a cadeira e se acomodando a sua frente. Que é que você quer tomar?
Agia como quem se prepara para uma boa conversa.
— Então você se interessa por poemas gregos, histórias da antiguidade e lendas dos mares?
— Bom, não sou entendida no assunto... Gosto dessas histórias porque meu pai tinha uma coleção de poemas épicos e o primeiro que li foi a Odisséia.
— Sim, e aí?
— Como assim, e aí?
— Gostou do livro?
— Claro, por quê?
Ele olhou o mar com uma expressão indecifrável.
“Meu Deus”, ela pensou, “será que estou sentada com um maluco?”
Quando se voltou, seus olhos, antes meio distraídos, estavam intensos, como se quisessem ver alguma coisa que ela não sabia o que era.
— Que coisas a vida nos prepara – ele disse, tão baixo que ela perguntou “o quê?”. Se eu te disser uma coisa incrível, você acredita?
— Não sei.
— Pois é. Também tenho um nome fora de moda. Me chamo Ulisses.
— Mas você não é aquele da guerra de Tróia, é? – ela disse, rindo.
— Ulisses encontra Penélope, que vive tecendo à espera dele diante do mar.
— Coincidência.
— Houve um momento no cais em que você me pareceu uma pessoa íntima, dessas com quem se quer ficar em todas as horas, boas ou más. Alguém pra partilhar a vida, entende, Penélope? Penélope! Que delícia encontrar você – e dizendo isso puxou a mão dela e a beijou.
Penélope se sentia amolecer e tentava conter o calor que lhe subia pelo plexo.
— E você se chama mesmo Ulisses? – perguntou, meio enrouquecida.
— Claro, claro – ele disse, e tirou do bolso uma carteira de motorista. Ulisses Batista Franco. Viu?
Penélope estava hipnotizada.
— E então? Ulisses encontra sua Penélope. Vamos comemorar isso?
Levantou e saiu com ela pela mão.
— Onde?
— Você vai ver.
Não é todo dia que se fisga um homem como aquele. Ainda por cima tinham os mesmos gostos. Seguiram no carro dele até Ipanema, jantaram num restaurante japonês que ela não conhecia, conversaram horas sobre suas vidas, sobre cinema, livros, as respectivas famílias. Saíram para uma cafeteria no Leblon, onde Ulisses se mostrou um entendido em variedades de café e a fez provar os mais deliciosos que ela poderia imaginar. Passearam pela praia, namoraram num banco do calçadão e trocaram um beijo que foi como se suas vísceras se unissem pela boca. Convencida de que tinha encontrado o homem de sua vida, Pepê se deixou levar para a Glória, onde subiram ao apartamento dele, tomaram champanhe e dançaram uns blues sublimes, muito juntos, quase sem sair do lugar, dali passando ao quarto à meia-luz e à cama imensa para uma noite digna da volta de um guerreiro.
Ainda se encontraram três vezes memoráveis nesse mesmo apartamento. Depois Ulisses – que na verdade se chamava Ramiro – sumiu. A carteira, assim como o carro, era emprestada de um primo, o que ela nunca ficou sabendo.
Penélope voltou ao tear e às telas. Pensa nele todos os dias e nunca mais quis saber de outro homem.